aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Eu?

(…)

— E se acontecer — disse eu — que  a palavra “eu”  seja uma palavra sem qualquer sentido?”Eu” utiliza-se na linguagem do dia-a-dia exactamente da mesma maneira  que se utiliza “aqui” ou “agora”. Todas as pessoas têm o direito de chamar-se “eu”, e  ao mesmo tempo apenas uma pessoa de cada vez tem esse direito: a pessoa que está a falar.

Ninguém imagina que “aqui” ou “ali” significa alguma coisa em especial,  que existe alguma coisa por trás dessa palavra.

Então por que havemos de imaginar que temso um eu?

Ele pensa em nós. Sente. Fala. Mais nada Ou ele pensa aqui, dissse eu, pousando o dedo na testa.

— Se continuas com essas especulações, ainda dás em doido  — disse ela.

(…)

Lars Gustafsson. A morte de um apicultor.

segundo Franz Kafka

A verdade sobre Sancho Pança

Sem fazer qualquer gala disso, ao longo de vários anos, alimentando-o de romances de cavalaria e aventuras durante os serões das horas noturnos, Sancho Pança conseguiu afastar de si o seu demónio, a quem mais tarde veio a dar o nome de Dom Quixote, levando-o a aventurar-se livremente nas mais loucas expedições, que, contudo, por lhes faltar um objetivo pré-definido, que teria sido o próprio Sancho Pança, não faziam mal a ninguém. Liberto, Sancho Pança seguia filosoficamente Dom Quixote nas suas cruzadas, talvez por nutrir por ele um sentimento de responsabilidade, e retirou dessas aventuras um entretenimento grandioso e edificante que guardou consigo até ao fim dos seus dias.

Franz Kafka. Contos. (Grande Reportagem) Cavalo de Ferro. Lisboa:2004