aposentos: reforma e reformatório

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Tag: vida

eternidade: morto para sempre

(…)
Não queria imprevistos, tinha medo de perder-se, ou de ficar doente e morrer e que o seu cadáver só fosse descoberto semanas mais tarde, quando os gatos tivessem já devorado uma boa parte dos seus restos. A possibilidade de ser encontrado no meio de um monte de vísceras putrefactas aterrorizava-o de tal modo que combinara com a vizinha, uma velha viúva com uma vontade de ferro e um coração de manteiga, enviar-lhe uma mensagem de texto todas as noites. Se não o fizesse durante dois dias, ela viria dar uma vista de olhos; para isso dera -lhe uma chave da casa. A mensagem consistia em apenas duas palavras: «Continuo vivo.» Ela não tinha obrigação de responder, mas sofria do mesmo medo e fazia-o sempre com tres palavras: «Irra, eu também.» O mais assustador da morte era a ideia de eternidade. Morto para sempre, que horror.
(…)

I. Allende; Para lá do inverno.

a obra do homem segundo

o homem inventou à sua imagem
um deus que tudo sabe e este inventou
a educação dos homens para os fazer
à sua imagem.

Então os homens inventaram os programas e as quedas das estrelas, inventaram o pecado e partiram, despedindo-se do paraíso da imagem que ele lhes ofereceu. Disseram a deus e finalmente partiram para fora de todas as imagens e para a absoluta escuridão.

Para reinventar a energia, a luz eléctrica dos estádios, etc. E para terem essa luz decompõem em partículas que nem deus conhecia e que era indivisível na divina sabedoria.

Arrefecem artificialmente o efeito do sol… experimentalmente inconscientes. Aquecem-se em fogueiras que ateiam nos pipe-lines, constroem o inferno enquanto dizem que não acreditam nele.

Disseram a deus para reconstruir a partir do nada, o nada.

as histórias, hoje,

a história, hoje, descreve acontecimentos de ontem ou descritos ontem.

se me lembrar de mim, consigo falar da verdade histórica de alguma parte da minha história

que, mesmo descrita por mim, pode já não conter verdade alguma sem que seja mentira.

o que escrevo nos meus cadernos  onde me descrevo dia a dia não é verdade que possa ser desmentida.

se publicar um livro com essas descrições elas perdem todo o sentido e haverá tantas interpretações pessoais até contraditórias que só não se auto-destroem enquanto os interpretadores e observadores não se encontram no mesmo espaço a ler a mesma descrição.

felicidade

eu saio de casa para ir em redor da casa sempre pelas mesmas ruas, cumprindo rotinas que não sei de onde vêm e são por isso não rotinas.

espero as pessoas que quero ver todos os dias no outro passeio que não o meu e aproximando-se pela minha frente ou seja em sentido contrário ao meu.

as pessoas que eu quero ver nem as conheeço e elas nem sabem que eu existo, simplesmente me cruzo com elas e elas sorriem ao meu assobio que varia muito dependendo das música s que vou ouvindo e sobre alguns temas conhecidos a partir dos quais são os assobios improvisados.

para mim bastam as pessoas que passam em sentido contrário ao meu sem me reconhecerem.
esta rotina permite-me caminhar depressa e não parar.

às vezes um conhecido trava-me e tece considerações sobre a música, o tempo e a família e eu disparo disparates como se precisasse de falar muito que é uma forma de não ouvir o que ainda não sei por ser actual ou que não quero saber de novo.

há dias em que penso mesmo que sou feliz e já ouvi pessoas que me conhecem há muitos anos garantir que eu sou um tipo muito feliz e de bem com a vida.

assobio a isso.