aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Tag: religião

é sabido que a velhice…?

s10

É sabido que a  velhice, muitas vezes esquecida da grande parte da vida já passada, recorda com limpidez cada vez maior a infância.E como também já se disse  que só pela infância se tem acesso ao reino dos céus, parece de toda a justiça despojarmos-nos de quaisquer outros bens só por essa posse. Uma posse que talvez só se realize com a morte.

O velho mais confuso reveste-se do segredo de um Áugure quando começa a contar coisas da sua infância. A vida abrandará o seu ritmo em volta dele,  rodei-lo-ão estranhos silêncios, e nem a criança mais traquina poderá resistir-lhe. Naquele momento ele parece dotado de poder augura. De facto, está a indicar à criança uma meta: já não o seu passado, mas o seu futuro, o futuro da sua memória de adulto.  Nem um nem o outro o sabem, senão pela qualidade numinosa das palavras que os envolve a ambos no mesmo fascínio. Tão simples são aquelas palavras.  E todavia ouve-se muitas vezes a criança interromper, querer saber mais, insistir quanto à forma daquela fogaça, ao tamanho daquele jardim, à cor do trajo da bisavó durante aquele tal passeio ou tal festa.E se não se levantarem perguntas semelhantes à criança, se ela não for dotada de atenção poética, não deixará de perguntar sempre ao velho, franzindo o sobrolho, quantos anos tinhas tu nessa altura. É o seu esforço de vencer o espaço, o pavor da viagem entre ela e aquela outra criança passada aguardando lá no fundo do seu futuro. Criança sem idade, ancião disfarçado, como os negros meninos dos ícones. Uns seis anos, sete anos, dirá o  velho, e quase num responso secreto acrescentará como tu , um a menos, um a mais que tu. Cabala cega e perfeita que mantém suspenso em volta de ambos, tal como em volta do adormecido de Proust, o fio das horas, a ordem dos dias e dos anos.

(…)

Crisitna Campo, Os imperdoáveis. Assírio Alvim

a prece de Kok

image

Oh, Senhor! Apesar das muitas preces que te fazemos, estamos continuamente a perder as nossas guerras.
Amanhã combateremos novamente numa batalha que é verdadeiramente grandiosa. Com todo o nosso poderio, precisamos da Tua ajuda e eis porque tenho de Te dizer algo: esta batalha amanhã vai ser um caso muito sério. Não haverá lugar para crianças.Por isso, tenho de Te pedir que não mandes o Teu Filho para nos ajudar. Vem Tu mesmo

Prece de Kok, chefe da tribo griquas, antes de uma batalha contra os africânderes, em 1876.
Citação de Ryszard Kapuscinski em Mais um dia de vida – Angola, 1975 – editado em português por Tinta da China. Lisboa:2013.

o entusiasmo

dle610

(…)

Os homens nunca praticam o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa.

(…)

Umberto Eco. “O cemitério de Praga

utopus

r2

(…) nos seus primeiros tempos, o rei utopus ficou a saber que, antes da sua chegada, os habitantes haviam discutido violentamente sobre religião. E chegou à conclusão de que era fácil conquistá-los a todos, porque as diferentes seitas que lutavam pela nação, lutavam separadamente, e não em conjunto. Por isso, depois da vitória, decretou que cada homem podia seguir a religião que desejasse e que podia tentar  persuadir os outros a juntarem-se-lhe, amavelmente e com temperança, e sem amargura para com os outros. Se a persuasão falhar, as pessoas estão proibidas de usar a força ou de se entregarem a rixas. Se alguém argumentar a favor da sua religião de uma forma litigiosa, será castigado com o exílio ou com a escravidão (…)

Moore, Th, Utopia. LvII