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é sabido que a velhice…?

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É sabido que a  velhice, muitas vezes esquecida da grande parte da vida já passada, recorda com limpidez cada vez maior a infância.E como também já se disse  que só pela infância se tem acesso ao reino dos céus, parece de toda a justiça despojarmos-nos de quaisquer outros bens só por essa posse. Uma posse que talvez só se realize com a morte.

O velho mais confuso reveste-se do segredo de um Áugure quando começa a contar coisas da sua infância. A vida abrandará o seu ritmo em volta dele,  rodei-lo-ão estranhos silêncios, e nem a criança mais traquina poderá resistir-lhe. Naquele momento ele parece dotado de poder augura. De facto, está a indicar à criança uma meta: já não o seu passado, mas o seu futuro, o futuro da sua memória de adulto.  Nem um nem o outro o sabem, senão pela qualidade numinosa das palavras que os envolve a ambos no mesmo fascínio. Tão simples são aquelas palavras.  E todavia ouve-se muitas vezes a criança interromper, querer saber mais, insistir quanto à forma daquela fogaça, ao tamanho daquele jardim, à cor do trajo da bisavó durante aquele tal passeio ou tal festa.E se não se levantarem perguntas semelhantes à criança, se ela não for dotada de atenção poética, não deixará de perguntar sempre ao velho, franzindo o sobrolho, quantos anos tinhas tu nessa altura. É o seu esforço de vencer o espaço, o pavor da viagem entre ela e aquela outra criança passada aguardando lá no fundo do seu futuro. Criança sem idade, ancião disfarçado, como os negros meninos dos ícones. Uns seis anos, sete anos, dirá o  velho, e quase num responso secreto acrescentará como tu , um a menos, um a mais que tu. Cabala cega e perfeita que mantém suspenso em volta de ambos, tal como em volta do adormecido de Proust, o fio das horas, a ordem dos dias e dos anos.

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Crisitna Campo, Os imperdoáveis. Assírio Alvim

beber a memória

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Alguns de vós  já devem ter notado com que hipnótica lentidão batem as pestanas de uma criança ao ouvir um velho evocar alguma coisa; como os lábios se  descerram febris, como a saliva passa lenta através da garganta. Não é de hilaridade a sua expressão, enquanto todo o corpo se aperta contra os provectos joelhos. Há nela a tensão imóvel dos animais ao mudar de pele, dos insectos em metamorfose; talvez se pareça com os rouxin´pis em pleno canto que, como se diz, têm uma forte temperatura e a frágil plumagem toda eriçada. Ela está a crescer, naqueles instantes; está a sorver com volúpia e tremura na fonte da memória: a água fúlgida e profunda de que ganha vida a percepção subtil.

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Cristina Campo, Os imperdoáveis