aposentos: reforma e reformatório

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a insustentabilidade da pobreza e a vulgaridade da riqueza

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(…) De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era uma espécie de mutilado que era preciso trasladar em longos e ruidosos veículos, cercado por motociclistas e guarda-costas e aguardado por ansiosos fotógrafos. É como se lhes tivessem cortado os pés, costumava dizer a minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser retratado) era  o princípio, o meio e o fim do nosso singular conceito do mundo. No passado que me tocou, a gente era ingénua; achava que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e o repetia o próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, contudo ninguém ignorava que a posse de dinheiro não traz mais felicidade nem maior tranquilidade.

– Dinheiro? – repetiu. – Já não há quem sofra de pobreza, que terá sido insuportável, nem de riqueza, que terá sido a forma mais incómoda da vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

(…)

Jorge Luís Borges. Utopia de um homem que está cansado.

a biblioteca que sonha os seus números

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(…) O número de palavras da lingua portuguesa é limitado, pelo que o número de frases de dez palavras também. Entre todas as frases possíveis obtidas, combinando de todas as maneiras possiveis dez palavras portuguesas, a maioria não têm qualquer sentido; entre as que o têm, apenas uma pequena parte define um número inteiro determinado. Há, portanto, um número ilimitado de números inteiros assim definidos, entre os quais existirá decerto um máximo. Juntemos um a esse número máximo e obtemos o número mínimo entre os não definíveis com dez palavras no máximo da língua portuguesa. Chamemos-lhe x. Como interpretar a seguinte frase de dez palavras: Seja x o número inteiro mínimo indefinível por dez palavras? (…)

Sobre o paradoxo de Richard, a respeito da Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges