Proustesia

by adealmeida

 

Dantes o poeta existia para nomear as coisas: como se fosse a primeira vez, diziam-nos em crianças, como se fosse o dia da Criação. Hoje em dia ele parece existir para se despedir delas, para as recordar aos homens, terna e dolorosamente, antes que sejam extintas. Para escrever os seus nomes na água: talvez nessa mesma vaga que daí a pouco as arrastará consigo.
Um parque sombroso, o verde espelho de um lago atravessado por belos gerânios dourados, no coração da cidade, da tormenta de cimento armado. Como não pensar ao olhá-lo: o último lago, o último parque sombroso?
Quem hoje não tiver consciência disto, não é poeta de hoje.

Na poesia, tal como na relação entre as pessoas, tudo morre assim que é aflorado pela técnica. A verdadeira educação da mente nunca teve outra finalidade, desde que o mundo existe, senão a morte da técnica, daquele triste saber viver que à criança, à qual tudo resulta por natureza, um dia foi fornecido pelos adultos. Por este artesanato do viver todos os homens são arrancados aos limiares da sua inocência, tal como pelas flores matizadas ou pela cerva perseguida na caça os antigos princípios à casa paterna. É uma viagem necessária, que todavia terá de conduzir bem para além da rosa ou do cervo, até mesmo ao coração das cavernas e dos terrores, onde o saber viver se dissolverá como a cera ao contacto, real e metafórico, com os quatro elementos.

Podemos tornar-nos também naturais para além da técnica, tal como em crianças o estivemos para aquém dela. Mas desde há uns tempos o homem parece murado na sua técnica como um insecto no âmbar. Os caminhos para a água e o fogo – e até para a terra e o ar – agora estão-lhe todos vedados. Em torno do seu jardim ergue-se um muro alto dentro do qual nada de novo — “se um pássaro em voo não deixar cair uma semente”.

As crianças têm órgãos misteriosos, de presságio e de correspondência. Aos seis anos eu passava o dia inteiro a ler contos de fadas, mas por que é que retornava sempre, fascinada, a certas imagens que um dia haveria de reconhecer, quase como lemas recorrentes para mim, quase divisas? O diálogo, sob a escura porta da cidade, entre a guardadora de gansos e a cabeça cortada do cavalo. “Adeus Falada que pendes do alto! Adeus Rainha que passas por baixo … “. História que reencontro a cada recanto da vida, pronta para ser relida em novos planos, descerrada por novas chaves.
Assim, na poesia, a imagem preexiste à ideia que passa por dentro dela. Durante anos ela pode seguir um poeta, doméstica e fabulosa, familiar e inquietante, com frequência uma imagem da primeira infância, o nome estranho de uma árvore, a insistência de um gesto. Epera com impaciência que a preencha a revelação. Em Proust, este mistério da imagem inundada de repente por torrentes de significado e depois regressando sempre, como que vista das vertentes cada vez mais altas de uma montanha, é a essência da poesia.

Apesar de tudo amo a minha época porque é a época em que falta tudo e, exactamente por isso, talvez seja o verdadeiro tempo do conto de fadas. E é claro que não entendo com isto a era dos tapetes voadores e dos espelhos mágicos, que o homem destruiu para sempre no acto de fabricá-los, mas sim a época da beleza em fuga, da graça e do mistério prestes a desaparecer, como as aparições e os demais arcanos do conto de fadas: tudo aquilo a que certos homens nunca renunciam, que quanto mais os apaixona mais parece perdido e esquecido.Tudo o que se vai procurar bem longe, mesmo com risco de vida, como a rosa de Belinda cada vez mais impenetráveis no fundo de cada vez mais horrendos labirintos,

Cristina Campo. Os imperdoáveis. [teofanias],Assírio & Alvim. Lisboa:2005