aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes
1qdejunho2018e

Estão do outro lado da mesa, chegam-se à frente … …e esperam  ver como deste lado tudo fica mais pequeno. Por vezes enganam-se.

sobre o sentimento religioso

O sentimento religioso toma a forma de um enorme deslumbramento diante da harmonia das leis naturais, que revelam uma inteligência tão superior que, comparada com ela, todo o pensamento e toda a acção sistemática dos seres humanos não passam de um reflexo insignificante.

Einstein, The world as I see it, 1934

citado por John Huss em

A filosofia segundo Monty Python, Estrela Polar, Cruz Quebrada:2009

eternidade: morto para sempre

(…)
Não queria imprevistos, tinha medo de perder-se, ou de ficar doente e morrer e que o seu cadáver só fosse descoberto semanas mais tarde, quando os gatos tivessem já devorado uma boa parte dos seus restos. A possibilidade de ser encontrado no meio de um monte de vísceras putrefactas aterrorizava-o de tal modo que combinara com a vizinha, uma velha viúva com uma vontade de ferro e um coração de manteiga, enviar-lhe uma mensagem de texto todas as noites. Se não o fizesse durante dois dias, ela viria dar uma vista de olhos; para isso dera -lhe uma chave da casa. A mensagem consistia em apenas duas palavras: «Continuo vivo.» Ela não tinha obrigação de responder, mas sofria do mesmo medo e fazia-o sempre com tres palavras: «Irra, eu também.» O mais assustador da morte era a ideia de eternidade. Morto para sempre, que horror.
(…)

I. Allende; Para lá do inverno.

quem fala muito em empreender, fala do nada que faz ou do que fala por falar

Há pessoas que falam muito para dizer pouco. Há conselheiros para aconselhar a fazer o que nunca fizeram nem sabem do que falam o que mal leram ou ouviram para regurgitar. Deviam aconselhar a fazer nada ou a ler mal ou a ouvir mal se aconselhassem o que fazem. Se continuamos assim vai chegar o dia em que toda a gente se dedica ao trabalho de dar conselhos e fazem disso profissão.

Eu nem conselhos tenho para dar e, por isso e por ser sério, resolvi não ser conselheiro, nem qualquer outra coisa. Não exercendo profissão, poderiam considerar-me desempregado que não sou porque nunca quis um emprego e aceitei muito trabalho mal pago muitas vezes e às vezes mais do que podia.

Não fui despedido nem me despedi, só decidi ir pensar para os meus aposentos e também nas ruas da cidade onde os aposentos se localizaram.

Muitas vezes falamos da experiência que vamos acumulando. Isso é bom e foi bom para mim, embora muitas vezes tivesse sido necessário experimentar a experiência com vista a saber os resultados obtidos em vida. A matemática obriga-nos a algumas dependências de ciências experimentais e só por isso é que falamos das experiências já feitas por outros em laboratórios. Embora haja quem considere o que chamam experiência de vida, eu não dou valor a essa experiência antes de experimenar a morte. Na volta talvez vos posssa dizer o que foi a vida e o que é a eternidade.

pretobrancosangue

Camada a camada, cobrimos o espanto dos outros escondendo de nós o que fomos e mostrando o que não somos.
Num dia de ti, um varredor de poeiras vai separar as camadas para que se saiba que de ti nunca houve mais do que a poeira que guardaste no papel até ser varrida num último sopro em pleno voo.

é o arco que importa

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra-
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Italo Calvino. As cidades invisíveis. Teorema. Alfragide: 2011

a obra do homem segundo

o homem inventou à sua imagem
um deus que tudo sabe e este inventou
a educação dos homens para os fazer
à sua imagem.

Então os homens inventaram os programas e as quedas das estrelas, inventaram o pecado e partiram, despedindo-se do paraíso da imagem que ele lhes ofereceu. Disseram a deus e finalmente partiram para fora de todas as imagens e para a absoluta escuridão.

Para reinventar a energia, a luz eléctrica dos estádios, etc. E para terem essa luz decompõem em partículas que nem deus conhecia e que era indivisível na divina sabedoria.

Arrefecem artificialmente o efeito do sol… experimentalmente inconscientes. Aquecem-se em fogueiras que ateiam nos pipe-lines, constroem o inferno enquanto dizem que não acreditam nele.

Disseram a deus para reconstruir a partir do nada, o nada.

separador

Para lá da curva do relógio de sol,
da sombra do ponteiro espetada no meu peito
guardo, enterrada numa numa nuvem de chumbo,
uma fragância de terra macia
e a luz do dia em que partiu a deusa:
a memória de uma película impressionada
pela sombra do relógio
contra a luz do sol
a impressão do adeus do adeus:

                                                  um cofre de coisa inúteis
retiradas do peito da deusa
ameaçada de tornar-se humana.

dedo noa ar, II, separador, 04.04

fecho

Ou podeis mergulhar nestas águas. Então de nada vos recordareis, nem sequer desta conversa ou desta escolha; e todas as vossas vitórias insignificantes, vossos amores e ódios, todas as acções que levasteis a cabo, serão lavadas da vossa memória e ficarão nestas águas escuras e agitadas como pequenos peixes velozes para aqueles que aqui vierem de pois de vós para as contemplar; e isto é a Fama.

Mas uma vez que estas águas se tenham fechado sobre vós, a vossa memória será tão lisa como uma superfície após a chuva e de nada vos recordareis.

Que serei então?

Nada.

Nem sequer uma sombra?

Nem sequer uma sombra.

dedo no ar, 2ª série, 1, 2 de Maio de ?

um dia destes fui e ouvi-me

Um dia destes fui falar e não ouvir-me
mas as palavras da boca seca e se é certo que as falava
segundo o que pensava e do que decidido antes estava
os meus ouvidos magoados não me sugeriram senão sumir-me

que tempo este! que fizeram de nós as bestas aladas?
não cansava de me perguntar enquanto me ouvia gritar
que raio de vida esta arrastados para a ignomínia de um altar
feito só para ser derrubado como se derrubam as escadas

que degrau a degrau subimos
e à nossa passagem destruímos
sabendo que a nossa passagem de sismo
nos mostra, se é que não o cria, o abismo