aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: prosa

o avô do meu neto

é um velho sossegado enredado em assuntos que não interessam a ninguém na família. mas assim também ninguém sabe o que ele faz e muito menos a pouca importância do que ele faz. mas pouca gente se atreve a interromper o que ele está a fazer, e vale a pena esclarecer que ele não se deixa interromper até porque não percebe que o estão a interromper.

de vez em quando, muito raramente ele interrompe o que está a fazer e fala com as pessoas sobre coisas que elas não percebem, mas ninguém se atreve a dar-lhe troco. e ele parte para voltar de novo ao trabalho feliz por ter uma audiência tão compreensiva e interessada. as pessoas mais íntimas leram o título que ele escreveu ao cimo da capa do caderno, logo abaixo do seu nome: “carta ao meu neto para ele ler quando fizer 70 anos”. ninguém se atreveu a bisbilhotar o caderno grosso, mas toda a gente já convencionou que há um engano no título e que, em vez do título lido, ele pensou escrever: “carta ao meu neto para ele ler quando eu fizer 70 anos”. não que atribuam qualquer importância a isso; problema de lógica, é o que dizem.

nunca houve quem se interrogasse para quem seria a carta quando toda a gente sabe que ele não tem neto tanto quanto se sabe.

…suputava sob o tecto da prisão…

(…)

“Ao regressar a casa, ou seja à prisão, e sabendo muito bem que o resultado dessa doença de encarceração seria fatal, Zenão cansado de tantas argúcias, procura reflectir o menos possível. Melhor seria entrega o espírito a operações maquinais, que o livrariam de cair em terror ou em fúria: agora era ele o doente a quem tinha de manter vivo e de não deixar desesperar. Muito o auxiliaram os conhecimentos de línguas que possuía: conhecia as três ou quatro línguas eruditas, que se estudam nas escolas e, no decurso das viagens e da vida havia-se familiarizado com uma boa meia dúzia de falares vulgares. Muitas vezes lamentara ter de arrastar consigo essa bagagem de palavras que nunca utilizava; há algo de grotesco no facto de se saber qual o ruído ou o sinal que serve para designar a ideia de verdade ou a ideia de justiça em doze línguas. Um tal amontoado tornou-se passatempo: estabeleceu listas, formou grupos, comparou alfabetos e regras de gramática. Divertiu-se durante muitos dias com o projecto de um idioma lógico, claro como a notação musical, capaz de exprimir convenientemente todos os factos possíveis. Pôs-se a inventar linguagens cifradas como se tivesse alguém a quem enviar mensagens secretas.. Também as matemáticas lhe vieram a ser úteis: suputava, sob o tecto da prisão, a declinação dos astros; refez minuciosamente os cálculos referentes à quantidade de água bebida e evaporada, em cada dia, pela planta que por certo murchava na sua oficina.

Reflectiu longamente nas máquinas voadoras e mergulhadoras, nos registos de sons graças a máquinas que imitassem a memória humana, cujos dispositivos ele e Riemer haviam desenhado outrora e que ainda hoje conseguia projectar no canhenho. Tomara-o, contudo, um sentimento de desconfiança para com esses acréscimos artificiais a ajuntar aos membros do homem: pouco interessava poder meter-se pelo oceano, dentro de uma campânula de ferro e couro, desde que o mergulhador, reduzido aos seus recursos, sufocasse no meio das ondas; ou ainda subir aos céus com a ajuda de pedais e outras máquinas, desde que o corpo humano continuasse a ser aquela massa pesada que cai como urna pedra. Pouco importava , sobretudo, que se descobrissem meios de registar a palavra humana, que já por demais inunda o mundo com o seu ruído de mentira.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

absurdo/sublime

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(…)
Já decerto deplorastes … a sorte das estátuas feridas pela picareta e roídas pela terra; já vos revoltastes contra o tempo que maltratava a beleza. Á mim, no entanto, não me custa a crer que o mármore, cansado de ter conservado por tão largo tempo uma aparência humana, se regozije de voltar a ser simplesmente pedra … A criatura, pelo contrário, teme regressar à substância informe … Fui, logo à entrada, advertido por um cheiro fétido, pelos esforços da boca aspirando, e tornando a vomitar, a água que a garganta já não consegue engolir e o sangue ejaculado pelos pulmões doentes. Mas aquilo a que se chama alma subsistia ainda, e os olhos de cão confiante que não duvida que o dono irá vir em seu auxilio … Não era decerto aquela a primeira vez que os meus julepos se mostravam ineficazes, mas, até ali, nenhuma morte fora, pare mim, mais do que um peão perdido na minha jogada de médico. Mais ainda. à força de combater a sua majestade negra, instaura-se entre nós e ela urna espécie secreta de cumplicidade; assim também um capitão acaba por conhecer e admirar a táctica do inimigo. Há sempre um momento em que os doentes compreendem que nós a conhecemos bem de mais para que, por mor deles, nos não resignemos ao inevitável: enquanto vão suplicando e debatendo-se ainda, já nos nossos olhos podem ver um veredicto que melhor seria não verem. Só quando queremos muito a alguém é que nos apercebemos quão escandalosa é a morte de uma criatura … Pareceu- me vã a minha profissão, o que é quase tão absurdo como considerá-la sublime.
(…)

Marguerite Yourcenar. Obra ao negro

agora o povo é o mais forte

Há uma mulher que parece ter enlouquecido. Ela subiu a um banco e lança pedradas à toa. Depois despiu o mandrião e ficou a bater no peito. Provoca os homens:

– Eh Jack, o que tens no entrepernas? Pedro Canja, onde meteste a tua fala grosssa?

Um polícia quer prender a mulher. Deita-lhe a mão no pulso, mas ela sacadeia e resiste. De repente o polícia curva-se e dobra os joelhos. A mulher deu-lhe uma pegada em mau lugar.

Agora o povo é o mais forte..

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Baltazar Lopes. Chiquinho

apanha do cimbrão

(…)

Os músicos vão retornar o comando da festa. Começa o afinar moroso dos instrumentos. Os rabequistas procuram o tom e dão o lamiré. Melodia triste e nocturna do mi menor. Os dedos dos violinistas emocionam-se nos glissandos. Os violões, afinados um tom acima, dão o ré. O sax solta um lamento prolongado de animal nostálgico. Novamente morna.

Até a gordona está emocionada. Não é a mesma de há pouco, que contava a tragédia das raparigas que caem na vida e fazem quadros vivos e dançam nos cabarés de Dacar.

Jam querê morrê ta sonho
na sombra di olho magoado
de um pequena gentil
di Grupo Perfumado…

Todo o mundo gosta da dança do badio, que se entusiasma e mete na festa um batuque. Canta Diguigui Cimbrom e, na altura devida, ata um pano na cintura e pôe torno. Rebola a bacia, sem mexer as pernas nem o busto. Rapidamente reconstitui a apanha do cimbrão. Os braços balançam o pé do cimbrão, as mãos fazem concha para apanharem os grãos que vão caindo. Depois é um desequilíbrio do corpo todo, catando no chão. A sala está em África pura, sol na achada e paisagem de savana, com macacos cabriolando. O badio leva todo o mundo consigo na sua viagem de regresso de séculos.

(…)

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Baltazar Lopes. Chiquinho

Violão

A música espalhou urna neblina de tristeza rio ambiente farrista de ainda agorinha. Os pares rodam muito chegados… Nonó caminha para o interior da sala. Dói ordena paragem das danças.

Vai haver canto, senhores. O jazz diminuiu o bater. Os violões morrem de espasmo nos bordões. A voz grulhenta dos cavaquinhos recolheu-se em surdina. Nonó chama os músicos para o meio da sala e começa a cantar:

Na sê campo simiado di strela,
Nhor Dê fichá Didinha Lua
na tumba di nôte sucuro…

O violão é padre mestre nesta cerimónia. A voz e os bordões dos violões vão muito juntos, acotovelando-se. A uma quebra de Nonó, o violão fica interrogando num meio tom.

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Baltazar Lopes. Chiquinho

Tanha

(…)

O que eu via à minha volta não era de molde a reprimir em mim os gritos da natureza. O amor era assunto que todos tratavam com um realismo desabrido, sem eufemismos. lzé de Silva, Jota Cuscuz, Mané Pretinho foram os meus professores, em consecutivas lições, que eu não aplicava na prática, mas cujos pormenores perseguiam a minha imaginação. Tornava-me olheirento. O meu buço despontava atrapalhadamente, como grama em horta de milho. Com vidro raspava a minha madrugada de barba. Mamãe velha preocupava-se com a minha magreza. Atribula aos estudos. Tanta coisa a meter na cabeça. Eu espigava em altura. Volta e meia la
tinha mamãe de botar abaixo as bainhas das calças e dos casacos. Mamãe velha:

– Este moço precisa de botar corpo…

E a minha pele se arroxeava das ventosas que me deitavam para pegar o corpo. Os meus olhos começaram a crescer para as formas sólidas de Tanha. Eu arranjava sempre pretexto para estar emburlado nela. Mesmo na cozinha ia chaleirá-la, sentir o seu corpo bem presente, sem coragem para lhe falar francamente. Quando ela ia levar comida no trabalho, procurava acampanhá-la. Não me faltava justificação:

– Preciso de ver como Pitra esta espiando os trabalhadores.

Um dia, num fundo, tive coragem para lhe pegar na barra da saia. Ela melindrou-se toda:

– Tira a mão! Menino de não sei que diga!

Depois pôs-se a rir. Mas logo a seguir depôs o balaio na parede, chegou-me a si e começou a fazer movimentos de quem dança o S. João. Nessa mesma noite fui, pé ante pé, ao quarto dela. Tanha mostrou-se surpreendida. Mandou-me embora:

– Menino impossivel ! Amanhã vou fazer queixume a mamãe!

Fiquei todo encolhido, com receio do escándalo que Tanha levantaria logo de manhãzinha.
Subitamente ela puxou-me a si. Envolveu-me num abraço forte e ficou um longo momento chupando-me a boca num beijo penetrante. Saí do seu quarto com a sensação de haver cometido um pecado.

(…)

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Baltazar Lopes da Slva. Chiquinho,

é sabido que a velhice…?

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É sabido que a  velhice, muitas vezes esquecida da grande parte da vida já passada, recorda com limpidez cada vez maior a infância.E como também já se disse  que só pela infância se tem acesso ao reino dos céus, parece de toda a justiça despojarmos-nos de quaisquer outros bens só por essa posse. Uma posse que talvez só se realize com a morte.

O velho mais confuso reveste-se do segredo de um Áugure quando começa a contar coisas da sua infância. A vida abrandará o seu ritmo em volta dele,  rodei-lo-ão estranhos silêncios, e nem a criança mais traquina poderá resistir-lhe. Naquele momento ele parece dotado de poder augura. De facto, está a indicar à criança uma meta: já não o seu passado, mas o seu futuro, o futuro da sua memória de adulto.  Nem um nem o outro o sabem, senão pela qualidade numinosa das palavras que os envolve a ambos no mesmo fascínio. Tão simples são aquelas palavras.  E todavia ouve-se muitas vezes a criança interromper, querer saber mais, insistir quanto à forma daquela fogaça, ao tamanho daquele jardim, à cor do trajo da bisavó durante aquele tal passeio ou tal festa.E se não se levantarem perguntas semelhantes à criança, se ela não for dotada de atenção poética, não deixará de perguntar sempre ao velho, franzindo o sobrolho, quantos anos tinhas tu nessa altura. É o seu esforço de vencer o espaço, o pavor da viagem entre ela e aquela outra criança passada aguardando lá no fundo do seu futuro. Criança sem idade, ancião disfarçado, como os negros meninos dos ícones. Uns seis anos, sete anos, dirá o  velho, e quase num responso secreto acrescentará como tu , um a menos, um a mais que tu. Cabala cega e perfeita que mantém suspenso em volta de ambos, tal como em volta do adormecido de Proust, o fio das horas, a ordem dos dias e dos anos.

(…)

Crisitna Campo, Os imperdoáveis. Assírio Alvim

labor

quando falamos do que fizemos,  estamos a falar do que fizemos bem?

quando falamos do que outros fizeram, estamos a falar do que fizeram mal?

ou quando falamos do que os outros fizeram, estamos a dizer o que eles fizeram mal e a dizer como teria sido se soubessem o que não podiam saber, esse saber que só a experiência desvendou?

quem faz, faz o que pode e nem sempre pode fazer o que deve. quem fala do que faz, fala do que deve?

o que deve ser é o quê, definido por quem, para quê, como, porque….?

 

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na capa da Labor, IV série, número 3, Aveiro: 12/2000

1974-1999:25 anos de escola

Depoimentos de dirigentes das escolas de Aveiro – um jogo com espelhos

página 82 terceiro parágrafo

(…)

Teodoro virou-se de repente e viu Óscar atrás dele e talvez pela tristeza que sentia, por aquela ser uma das últimas viagens do comboio a carvão, quis colocar-lhe o braço por cima, o que repugnou Óscar, apanhado no meio daquela maquinação de rodas de ferro. Imaginava ainda os sapatos do avô nos carris, com as moedas de cinquenta centavos, que ficavam espalmadas pela compressão, “o meu avô ficou todo debaixo do comboio. Como é que esse comboio passou por cima do meu avô e o esmagou e continua a circular e a passar por aqui todos os dias? Esta máquina, com aquele mesmo maquinista. Foi ali à frente ao pé daquela árvore. Ninguém me deixou ver, mas eu sei, cortou-o em três partes, cabeça, tronco e membros, como no livro de Ciência”. Era nisto que Óscar pensava enquanto aparecia mais gente debruçada sobre o muro da (….)

 

citado de

Tiago Patrício. Trás-os-Montes. Gradiva (Romance). Lisboa:2012

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