as histórias, hoje,

a história, hoje, descreve acontecimentos de ontem ou descritos ontem.

se me lembrar de mim, consigo falar da verdade histórica de alguma parte da minha história

que, mesmo descrita por mim, pode já não conter verdade alguma sem que seja mentira.

o que escrevo nos meus cadernos  onde me descrevo dia a dia não é verdade que possa ser desmentida.

se publicar um livro com essas descrições elas perdem todo o sentido e haverá tantas interpretações pessoais até contraditórias que só não se auto-destroem enquanto os interpretadores e observadores não se encontram no mesmo espaço a ler a mesma descrição.

CITAÇÃO DE CURZIO MALAPARTE
“Hoje vivo numa ilha, numa casa triste, dura, severa, que eu construí para mim, solitária num rochedo sobre o mar: uma casa que é o espectro, a imagem secreta da prisão. A imagem da minha nostalgia. Talvez eu nunca tenha  querido fugir da prisão. O homem não quer viver livremente em liberdade, mas antes ser livre dentro de uma prisão “.

 

se ele o disse…

 

picasso

(…)
5.

não há bem, mal ou claridade
apenas movimento das ondas, resume o escritor,
ignorante da matéria outra vez feita de partículas,
de horror, selvajaria em todos os cantos europeus,
pobreza, doenças e a morte fugindo sem esforço da riqueza,
a nado, transformando tudo o que um deus poderoso nos deixou:
o horror, sim, mas ainda não.
de pé numnavio, a cavalo numa estátua feita à escada a que junta água suja,
avançando com os amigos pelas cinzas das batalhas húmidas,
na posição típica do êxtase e da preguiça
a monarquia que deteve os turcos durante séculos
não se alarma.
picasso, descrito pela mãe como anjo,
chega pelo seu pé ao cais de orsay.
estreia um rei e um ditador polaco,
imaginários como os homicídios em massa
e os outros
temos medo, merdra, medo, merda.
uma cidade faz experiências com a radioactividade,
a ciência e a caridade,
surgem já desculpas para todas as ideias deste século,
as mesmas razões na arte e no sexo.
nos futuros estados da europa
esqueecemos por momentos a piedade dos exércitos saudáveis

José Gardeazabal, história do século vinte, ince, lisboa:2016

canções

jm

Vovó amava um marujo que andava nos mares gelados,
Vovô que arpoou baleias e me sentou nos joelhos,
Dizia-me: “Ò filho, aqui em terra, dou em maluco.
Chama-me os meus camaradas, vamos para praias distantes.”

Era um velhote engraçado, tinha um sorriso de prata,
Fumava um cachimbo de urze, e corremos quatro milhas,
Cantando canções de pegas e da antiga liberdade,
Canções de amor e de morte e a favor do homem livre.

 


Jim Morrison

…tenho encontrado…

mãos de professor
mãos de professor


Tenho encontrado gente que,
cresceu com os pais e quatro irmãos, num quarto
e que, de noite, os dedos nos ouvidos,
estudou só com o fogão da cozinha,
e no mundo se ergue — por fora ladylike e bela como duquesa,
por dentro doce e delicada como Nausicaa,
a fronte pura de anjo.
 
E tenho-me perguntado muitas vezes sem resposta alguma
de onde é que a gentileza e a bondade vêm:
ainda hoje não sei, e é tempo de ir-me embora.

Gottfried Benn.

…e são meticulosos por ti


não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido. aprende mais que eu:
 

a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de casa.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana. úteis as encíclicas
mais para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos. a  cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito
 

e são meticulosos por ti.

 

Hans Magnus Enzensberger,
Para um livro de leituras escolares.