aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: Política

1qdejunho2018e

Estão do outro lado da mesa, chegam-se à frente … …e esperam  ver como deste lado tudo fica mais pequeno. Por vezes enganam-se.

as histórias, hoje,

a história, hoje, descreve acontecimentos de ontem ou descritos ontem.

se me lembrar de mim, consigo falar da verdade histórica de alguma parte da minha história

que, mesmo descrita por mim, pode já não conter verdade alguma sem que seja mentira.

o que escrevo nos meus cadernos  onde me descrevo dia a dia não é verdade que possa ser desmentida.

se publicar um livro com essas descrições elas perdem todo o sentido e haverá tantas interpretações pessoais até contraditórias que só não se auto-destroem enquanto os interpretadores e observadores não se encontram no mesmo espaço a ler a mesma descrição.

CITAÇÃO DE CURZIO MALAPARTE
“Hoje vivo numa ilha, numa casa triste, dura, severa, que eu construí para mim, solitária num rochedo sobre o mar: uma casa que é o espectro, a imagem secreta da prisão. A imagem da minha nostalgia. Talvez eu nunca tenha  querido fugir da prisão. O homem não quer viver livremente em liberdade, mas antes ser livre dentro de uma prisão “.

 

se ele o disse…

 

picasso

(…)
5.

não há bem, mal ou claridade
apenas movimento das ondas, resume o escritor,
ignorante da matéria outra vez feita de partículas,
de horror, selvajaria em todos os cantos europeus,
pobreza, doenças e a morte fugindo sem esforço da riqueza,
a nado, transformando tudo o que um deus poderoso nos deixou:
o horror, sim, mas ainda não.
de pé numnavio, a cavalo numa estátua feita à escada a que junta água suja,
avançando com os amigos pelas cinzas das batalhas húmidas,
na posição típica do êxtase e da preguiça
a monarquia que deteve os turcos durante séculos
não se alarma.
picasso, descrito pela mãe como anjo,
chega pelo seu pé ao cais de orsay.
estreia um rei e um ditador polaco,
imaginários como os homicídios em massa
e os outros
temos medo, merdra, medo, merda.
uma cidade faz experiências com a radioactividade,
a ciência e a caridade,
surgem já desculpas para todas as ideias deste século,
as mesmas razões na arte e no sexo.
nos futuros estados da europa
esqueecemos por momentos a piedade dos exércitos saudáveis

José Gardeazabal, história do século vinte, ince, lisboa:2016

canções

jm

Vovó amava um marujo que andava nos mares gelados,
Vovô que arpoou baleias e me sentou nos joelhos,
Dizia-me: “Ò filho, aqui em terra, dou em maluco.
Chama-me os meus camaradas, vamos para praias distantes.”

Era um velhote engraçado, tinha um sorriso de prata,
Fumava um cachimbo de urze, e corremos quatro milhas,
Cantando canções de pegas e da antiga liberdade,
Canções de amor e de morte e a favor do homem livre.

 


Jim Morrison

…tenho encontrado…

mãos de professor

mãos de professor


Tenho encontrado gente que,
cresceu com os pais e quatro irmãos, num quarto
e que, de noite, os dedos nos ouvidos,
estudou só com o fogão da cozinha,
e no mundo se ergue — por fora ladylike e bela como duquesa,
por dentro doce e delicada como Nausicaa,
a fronte pura de anjo.
 
E tenho-me perguntado muitas vezes sem resposta alguma
de onde é que a gentileza e a bondade vêm:
ainda hoje não sei, e é tempo de ir-me embora.

Gottfried Benn.

…e são meticulosos por ti


não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido. aprende mais que eu:
 

a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de casa.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana. úteis as encíclicas
mais para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos. a  cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito
 

e são meticulosos por ti.

 

Hans Magnus Enzensberger,
Para um livro de leituras escolares.

 

as portas

portas

há o silêncio da espera entre uma e outra reunião – pensava eu o que em silêncio repetia aos meus botões. ao passar pela portas fechadas  onde as reuniões consomem as horas marcadas, as pessoas espetam os olhos em sombras imaginadas para lá das portas fechadas – também eu olho para o outro lado e sem vontade de ver imagino o que procuro ver e o olhar cai-me num precipício ladeando a escada principal e eu prevejo a queda de algumas pessoas à entrada ou à saída das reuniões decisivas.

fora do perímetro do círculo da reunião enche-se a cidade de vozearia (falar, latir, grasnar, vociferar, ladrar, miar, uivar, …),  de alguns estampidos de canos de escape e de roncos de motores que eu imagino por ouvir dizer que se a decisão for a favor de um governo de esquerda lá voltam os tanques, os canhões, os golpes, …  quando saio  pela porta da televisão imagino-me a acreditar naqueles comentadores que falam na previsível discórdia assassina nas ruas, nos canhões, nos estampidos, na metralha de que falam, etc.

não fico apavorado, garanto aos meus filhos. o que eu vejo é por via da piedade que me assalta ao saber da dor de alma de todos aqueles comentadores e múmias paralíticas tolhidos pelos mercados em geral e financeiros em particular para a falta de compreensão dos outros, por estarem doentes assim mentalmente num pequeno país com 10 camas a norte e 10 camas a sul para os seus casos,  já ocupadas por outros.

e ao centro nem uma.

as suas famílias, sem encontrem alternativa no país, preparam-se para os levar para outros países da união europeia que em parte se sente responsável pelo surto destas doenças. o pior é que já se preparam manifestações contra a entrada dos novos doentes portugueses nos hospícios europeus  ocupando camas tão necessárias ao internamento dos seus seus doentes nativos.

 

e etc.

ou esperar para ver e ouvir e cheirar e

etc

um tweet e a piada perfeita

coisa3

O criador do Twitter explicou que o comprimento máximo de de um tweet tinha sido fixado em 140 caracteres porque esse é o comprimento da piada perfeita.

No debate das presidenciais americanas de 22 de Outubro de 2012 quando Mitt Romney se pegou com Obama acusando-o de não fazer da Defesa nacional a sua prioridade, o presidente replicou:

(…)

You mentioned the Navy, for example, and that we have fewer ships than we did in 1916. Well, Governor, we also have fewer horses and bayonets

(…)

(com 141 caracteres)

Andrew  Watts, Spectator(24/1/2015),  

Extractos no Courrier international (fr), nº 1269.

(a piada em português: A propósito da Marinha, disse que temos menos navios agora do que em 1916. Pois é verdade, também temos menos cavalos e menos baionetas.

Fez-me lembrar itens dos precisos no reconhecimento cartográfico do exército que  incluía, em 1974(!), localização de cereais para alimentação das mulas, para além da água  vital não só para as mulas, da religião predominante….)

labor

quando falamos do que fizemos,  estamos a falar do que fizemos bem?

quando falamos do que outros fizeram, estamos a falar do que fizeram mal?

ou quando falamos do que os outros fizeram, estamos a dizer o que eles fizeram mal e a dizer como teria sido se soubessem o que não podiam saber, esse saber que só a experiência desvendou?

quem faz, faz o que pode e nem sempre pode fazer o que deve. quem fala do que faz, fala do que deve?

o que deve ser é o quê, definido por quem, para quê, como, porque….?

 

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na capa da Labor, IV série, número 3, Aveiro: 12/2000

1974-1999:25 anos de escola

Depoimentos de dirigentes das escolas de Aveiro – um jogo com espelhos