aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: poesia

separador

Para lá da curva do relógio de sol,
da sombra do ponteiro espetada no meu peito
guardo, enterrada numa numa nuvem de chumbo,
uma fragância de terra macia
e a luz do dia em que partiu a deusa:
a memória de uma película impressionada
pela sombra do relógio
contra a luz do sol
a impressão do adeus do adeus:

                                                  um cofre de coisa inúteis
retiradas do peito da deusa
ameaçada de tornar-se humana.

dedo noa ar, II, separador, 04.04

um dia destes fui e ouvi-me

Um dia destes fui falar e não ouvir-me
mas as palavras da boca seca e se é certo que as falava
segundo o que pensava e do que decidido antes estava
os meus ouvidos magoados não me sugeriram senão sumir-me

que tempo este! que fizeram de nós as bestas aladas?
não cansava de me perguntar enquanto me ouvia gritar
que raio de vida esta arrastados para a ignomínia de um altar
feito só para ser derrubado como se derrubam as escadas

que degrau a degrau subimos
e à nossa passagem destruímos
sabendo que a nossa passagem de sismo
nos mostra, se é que não o cria, o abismo

durante

virás de longe até este luar que
cria uma sombra de ti
mais longa

que a minha sombra é
ao pôr-do-sol
a sombra de um gigante

e a sombra da minha mão
divide o grande chão da sala
em duas grandes salas

virás de longe até este luar e
adivinharás o abandono

no meu sono ali exposto
como um traço fixo invariável

mas efémero

que os cangalheiros estão para chegar
a qualquer momento

azar o teu: eu

 

 

que  azar o teu! disse

porque dizes isso? disseste em resposta

não sei. já me não lembro! concluí

 

hoje, de longe

hoje,
de longe
chegam cartas curiosas:
alguém pergunta se eu adormeci dentro da casca
ou se me escondi zangado.

[ninguém me escreve, confesso.]

e eu, como sempre sem saber o que responder,
viro-me para o lado contrário de mim
e adormeço de novo sem querer lembrar as tempestades
que inventei quando desafiava instante a instante
uma felicidade que nem era minha
para ser de ninguém
para não ser

e secar a pontada desta dor de não saber
se algum dia

 

Publicado, pela primeira vez, a 18 maio 2006

pela boca vive, pela boca morre

Mordi a língua. Ela disse uma das suas mais pesadas

palavras. A madre da língua deu dois passos na sala

tendo soltado, a cada passo, exclamações tão iradas

que fazem da língua que sangra, a língua que cala.

 

É assim que o pano cai na boca de cena

e os povos cerram os sobrolhos  e  os dentes:

uma máquina auto-censurante nunca se condena

mas é ela, a religiosa censura dos crentes,

 

aquela que mais censura é

aquela que afasta o ramo verde do pé

e morde a língua e cala a língua e a doma

por todos os caminhos que dão para Meca ou para Roma.

 

 

por lembrar poemas de c. de oliveira

dorme no teu canto
sobre o teu lado esquerdo
e, se puderes, esmaga o teu coração

sossega no teu canto
e murmura entre dentes
o murmúrio da água corrente

com que te prendes no teu sono pesado
também te prende ao chão é metálica

a corrente do que vês passar é elétrica
atrai-te e prende-te ao teu chão pesado

mas se estiveres ainda acordada
quando eu te falar do sossego que queres merecer
Desfaz-te em tiras e prende-te ao papagaio
que a criança solta ao vento
na ânsia de soltar uma ave feita de remorso

a corrente que o rio é
é somente a corrente que o rio é
desesperando por galgar margens
mas dorme no teu canto

Sobre o lado esquerdo do teu corpo
e se puderes esmaga o meu coração

até que na corrente das tuas lágrimas as vermelhas gotas
do meu sangue excessivo se confundam diluídas.

perdoar a deus

estou mesmo decidido a perdoar-te
o mal que me fizeste e aos meus semelhantes
estou mesmo decidido a encontrar-te
para negociar um novo mundo igual ao que era dantes

dantes ainda antes da tua criação
ninguém criticava o mundo tal como ele era
sem inverno sem outono sem verão
ninguém dava pela falta da primavera

picasso

(…)
5.

não há bem, mal ou claridade
apenas movimento das ondas, resume o escritor,
ignorante da matéria outra vez feita de partículas,
de horror, selvajaria em todos os cantos europeus,
pobreza, doenças e a morte fugindo sem esforço da riqueza,
a nado, transformando tudo o que um deus poderoso nos deixou:
o horror, sim, mas ainda não.
de pé numnavio, a cavalo numa estátua feita à escada a que junta água suja,
avançando com os amigos pelas cinzas das batalhas húmidas,
na posição típica do êxtase e da preguiça
a monarquia que deteve os turcos durante séculos
não se alarma.
picasso, descrito pela mãe como anjo,
chega pelo seu pé ao cais de orsay.
estreia um rei e um ditador polaco,
imaginários como os homicídios em massa
e os outros
temos medo, merdra, medo, merda.
uma cidade faz experiências com a radioactividade,
a ciência e a caridade,
surgem já desculpas para todas as ideias deste século,
as mesmas razões na arte e no sexo.
nos futuros estados da europa
esqueecemos por momentos a piedade dos exércitos saudáveis

José Gardeazabal, história do século vinte, ince, lisboa:2016

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