repito-me: antigo, perdido e achado

[corno de texto, o textículo virtuoso]

Dou as duas voltas antes de me deitar.
A cabeça de cão que uso não me pesa
Tanto como a cabeça de homem
Ou como aquela de criança com que nasci
E se foi ampliando até mais não poder.

Suportar os gestos do pequeno corpo sem cauda
Lastimar a paralisia do nervo comandante
Não ter cauda
Não ter o gesto completo
Da felicidade canina.

Dou as duas voltas antes de me deitar
Quando me deito adormeço
Sem permitir os sonhos
Nem o sobressalto do pensamento
Nem o assalto à cabeça

Do meu cão de guarda guardo as ladradelas ansiosas
De caminho para o poço fundo
Adormeço
Lembro a agonia do cão que pareço
Desato trelas
Desato-me a ganir
Chorar liberta
Torna brilhantes os olhos baços.

Dou as duas voltas antes de me deitar.
Vi o filme inteiro

Eu?

(…)

— E se acontecer — disse eu — que  a palavra “eu”  seja uma palavra sem qualquer sentido?”Eu” utiliza-se na linguagem do dia-a-dia exactamente da mesma maneira  que se utiliza “aqui” ou “agora”. Todas as pessoas têm o direito de chamar-se “eu”, e  ao mesmo tempo apenas uma pessoa de cada vez tem esse direito: a pessoa que está a falar.

Ninguém imagina que “aqui” ou “ali” significa alguma coisa em especial,  que existe alguma coisa por trás dessa palavra.

Então por que havemos de imaginar que temso um eu?

Ele pensa em nós. Sente. Fala. Mais nada Ou ele pensa aqui, dissse eu, pousando o dedo na testa.

— Se continuas com essas especulações, ainda dás em doido  — disse ela.

(…)

Lars Gustafsson. A morte de um apicultor.

quem fala muito em empreender, fala do nada que faz ou do que fala por falar

Há pessoas que falam muito para dizer pouco. Há conselheiros para aconselhar a fazer o que nunca fizeram nem sabem do que falam o que mal leram ou ouviram para regurgitar. Deviam aconselhar a fazer nada ou a ler mal ou a ouvir mal se aconselhassem o que fazem. Se continuamos assim vai chegar o dia em que toda a gente se dedica ao trabalho de dar conselhos e fazem disso profissão.

Eu nem conselhos tenho para dar e, por isso e por ser sério, resolvi não ser conselheiro, nem qualquer outra coisa. Não exercendo profissão, poderiam considerar-me desempregado que não sou porque nunca quis um emprego e aceitei muito trabalho mal pago muitas vezes e às vezes mais do que podia.

Não fui despedido nem me despedi, só decidi ir pensar para os meus aposentos e também nas ruas da cidade onde os aposentos se localizaram.

Muitas vezes falamos da experiência que vamos acumulando. Isso é bom e foi bom para mim, embora muitas vezes tivesse sido necessário experimentar a experiência com vista a saber os resultados obtidos em vida. A matemática obriga-nos a algumas dependências de ciências experimentais e só por isso é que falamos das experiências já feitas por outros em laboratórios. Embora haja quem considere o que chamam experiência de vida, eu não dou valor a essa experiência antes de experimenar a morte. Na volta talvez vos posssa dizer o que foi a vida e o que é a eternidade.