aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: matemática

1qdejunho2018e

Estão do outro lado da mesa, chegam-se à frente … …e esperam  ver como deste lado tudo fica mais pequeno. Por vezes enganam-se.

quem fala muito em empreender, fala do nada que faz ou do que fala por falar

Há pessoas que falam muito para dizer pouco. Há conselheiros para aconselhar a fazer o que nunca fizeram nem sabem do que falam o que mal leram ou ouviram para regurgitar. Deviam aconselhar a fazer nada ou a ler mal ou a ouvir mal se aconselhassem o que fazem. Se continuamos assim vai chegar o dia em que toda a gente se dedica ao trabalho de dar conselhos e fazem disso profissão.

Eu nem conselhos tenho para dar e, por isso e por ser sério, resolvi não ser conselheiro, nem qualquer outra coisa. Não exercendo profissão, poderiam considerar-me desempregado que não sou porque nunca quis um emprego e aceitei muito trabalho mal pago muitas vezes e às vezes mais do que podia.

Não fui despedido nem me despedi, só decidi ir pensar para os meus aposentos e também nas ruas da cidade onde os aposentos se localizaram.

Muitas vezes falamos da experiência que vamos acumulando. Isso é bom e foi bom para mim, embora muitas vezes tivesse sido necessário experimentar a experiência com vista a saber os resultados obtidos em vida. A matemática obriga-nos a algumas dependências de ciências experimentais e só por isso é que falamos das experiências já feitas por outros em laboratórios. Embora haja quem considere o que chamam experiência de vida, eu não dou valor a essa experiência antes de experimenar a morte. Na volta talvez vos posssa dizer o que foi a vida e o que é a eternidade.

pretobrancosangue

Camada a camada, cobrimos o espanto dos outros escondendo de nós o que fomos e mostrando o que não somos.
Num dia de ti, um varredor de poeiras vai separar as camadas para que se saiba que de ti nunca houve mais do que a poeira que guardaste no papel até ser varrida num último sopro em pleno voo.

é o arco que importa

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra-
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Italo Calvino. As cidades invisíveis. Teorema. Alfragide: 2011

um dia destes fui e ouvi-me

Um dia destes fui falar e não ouvir-me
mas as palavras da boca seca e se é certo que as falava
segundo o que pensava e do que decidido antes estava
os meus ouvidos magoados não me sugeriram senão sumir-me

que tempo este! que fizeram de nós as bestas aladas?
não cansava de me perguntar enquanto me ouvia gritar
que raio de vida esta arrastados para a ignomínia de um altar
feito só para ser derrubado como se derrubam as escadas

que degrau a degrau subimos
e à nossa passagem destruímos
sabendo que a nossa passagem de sismo
nos mostra, se é que não o cria, o abismo

a água pelos joelhos

foi então quando eu já não podia
com o peso das minhas asas molhadas
pelas nuvens na aérea travessia
que me deste as tuas mãos lavadas

em si mesmo cai, ensimesma

Estou à beira da reforma – disse o papa para a papisa. Um pouco depois, a papisa abriu a boca pra murmurar qualquer coisa que o papa não percebeuo que ela disse. Mas pela cara dele que ela sempre olhava de frente, ela soube que ele tinha fingido não ter ouvido mais uma vez. O que acontecia cada vez mais vezes até ela pensa na mudança de papa. Passave ela as tardes a bordar mais um ponto a ponto em cruz e nela pregava pequenos berloques passados por um pouco de amarguinha que ele não resistia a chupar.
Houve um dia em que os sinos desataaram a badalar por todo o lado e a papisa interrogava quem por ela passava o que teria acontecido. Na sua solidão, à sua voz sumida nenhum eco nem resposta.
Mais tarde, haveria de lembrar-se desse dia em que as suas amarguinhas tinham resolvido o seu problema. Os sinos tinham dobrado pelo seu papa e ela agora só lhe ocoria lamentar não lhe ter ouvido a frase que ela lhe ensinara.
Estou à beira da morte era o que havia de ter sido dito por quem nunca se encontraria com a reforma mas, com a sua ajuda, veria ao todo poderoso mais cedo do que esperava.

segundo Franz Kafka

A verdade sobre Sancho Pança

Sem fazer qualquer gala disso, ao longo de vários anos, alimentando-o de romances de cavalaria e aventuras durante os serões das horas noturnos, Sancho Pança conseguiu afastar de si o seu demónio, a quem mais tarde veio a dar o nome de Dom Quixote, levando-o a aventurar-se livremente nas mais loucas expedições, que, contudo, por lhes faltar um objetivo pré-definido, que teria sido o próprio Sancho Pança, não faziam mal a ninguém. Liberto, Sancho Pança seguia filosoficamente Dom Quixote nas suas cruzadas, talvez por nutrir por ele um sentimento de responsabilidade, e retirou dessas aventuras um entretenimento grandioso e edificante que guardou consigo até ao fim dos seus dias.

Franz Kafka. Contos. (Grande Reportagem) Cavalo de Ferro. Lisboa:2004

o que é muito raro?

É muito raro eu ver o vento

Mais raro ainda, é cheirar a luz

Também não vejo quem me aflige

e guardo, como prenda de ódio, o alento

para carregar a minha e a tua cruz

até onde um cão as cheire e nelas mije.

do que se não pode falar,

Do que se não pode falar, é melhor calar-se.

L.Wittgenstein,

Tractatus Logico-Philosophicus