aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: matemática

14, 1º após 13

Um dia, eu passo pela solidão dos outros. Outro dia e passeio pela minha solidão perdida entre outras. Neste dia, o primeiro depois do anterior, procuro encontrar-me com outros perdidos em suas solidões. De certo modo sei que não se pode encontrar quem está sozinho. Mas posso sempre fazer alguma coisa por eles e por mim.

Leia o resto deste artigo »

repito-me: antigo, perdido e achado

[corno de texto, o textículo virtuoso]

Dou as duas voltas antes de me deitar.
A cabeça de cão que uso não me pesa
Tanto como a cabeça de homem
Ou como aquela de criança com que nasci
E se foi ampliando até mais não poder.

Suportar os gestos do pequeno corpo sem cauda
Lastimar a paralisia do nervo comandante
Não ter cauda
Não ter o gesto completo
Da felicidade canina.

Dou as duas voltas antes de me deitar
Quando me deito adormeço
Sem permitir os sonhos
Nem o sobressalto do pensamento
Nem o assalto à cabeça

Do meu cão de guarda guardo as ladradelas ansiosas
De caminho para o poço fundo
Adormeço
Lembro a agonia do cão que pareço
Desato trelas
Desato-me a ganir
Chorar liberta
Torna brilhantes os olhos baços.

Dou as duas voltas antes de me deitar.
Vi o filme inteiro

volta e meia deito-me

para não assobiar.

semedo

deixa-me  falar da morte com a tua vida.

Eu?

(…)

— E se acontecer — disse eu — que  a palavra “eu”  seja uma palavra sem qualquer sentido?”Eu” utiliza-se na linguagem do dia-a-dia exactamente da mesma maneira  que se utiliza “aqui” ou “agora”. Todas as pessoas têm o direito de chamar-se “eu”, e  ao mesmo tempo apenas uma pessoa de cada vez tem esse direito: a pessoa que está a falar.

Ninguém imagina que “aqui” ou “ali” significa alguma coisa em especial,  que existe alguma coisa por trás dessa palavra.

Então por que havemos de imaginar que temso um eu?

Ele pensa em nós. Sente. Fala. Mais nada Ou ele pensa aqui, dissse eu, pousando o dedo na testa.

— Se continuas com essas especulações, ainda dás em doido  — disse ela.

(…)

Lars Gustafsson. A morte de um apicultor.

1qdejunho2018e

Estão do outro lado da mesa, chegam-se à frente … …e esperam  ver como deste lado tudo fica mais pequeno. Por vezes enganam-se.

quem fala muito em empreender, fala do nada que faz ou do que fala por falar

Há pessoas que falam muito para dizer pouco. Há conselheiros para aconselhar a fazer o que nunca fizeram nem sabem do que falam o que mal leram ou ouviram para regurgitar. Deviam aconselhar a fazer nada ou a ler mal ou a ouvir mal se aconselhassem o que fazem. Se continuamos assim vai chegar o dia em que toda a gente se dedica ao trabalho de dar conselhos e fazem disso profissão.

Eu nem conselhos tenho para dar e, por isso e por ser sério, resolvi não ser conselheiro, nem qualquer outra coisa. Não exercendo profissão, poderiam considerar-me desempregado que não sou porque nunca quis um emprego e aceitei muito trabalho mal pago muitas vezes e às vezes mais do que podia.

Não fui despedido nem me despedi, só decidi ir pensar para os meus aposentos e também nas ruas da cidade onde os aposentos se localizaram.

Muitas vezes falamos da experiência que vamos acumulando. Isso é bom e foi bom para mim, embora muitas vezes tivesse sido necessário experimentar a experiência com vista a saber os resultados obtidos em vida. A matemática obriga-nos a algumas dependências de ciências experimentais e só por isso é que falamos das experiências já feitas por outros em laboratórios. Embora haja quem considere o que chamam experiência de vida, eu não dou valor a essa experiência antes de experimenar a morte. Na volta talvez vos posssa dizer o que foi a vida e o que é a eternidade.

pretobrancosangue

Camada a camada, cobrimos o espanto dos outros escondendo de nós o que fomos e mostrando o que não somos.
Num dia de ti, um varredor de poeiras vai separar as camadas para que se saiba que de ti nunca houve mais do que a poeira que guardaste no papel até ser varrida num último sopro em pleno voo.

é o arco que importa

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra-
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Italo Calvino. As cidades invisíveis. Teorema. Alfragide: 2011

um dia destes fui e ouvi-me

Um dia destes fui falar e não ouvir-me
mas as palavras da boca seca e se é certo que as falava
segundo o que pensava e do que decidido antes estava
os meus ouvidos magoados não me sugeriram senão sumir-me

que tempo este! que fizeram de nós as bestas aladas?
não cansava de me perguntar enquanto me ouvia gritar
que raio de vida esta arrastados para a ignomínia de um altar
feito só para ser derrubado como se derrubam as escadas

que degrau a degrau subimos
e à nossa passagem destruímos
sabendo que a nossa passagem de sismo
nos mostra, se é que não o cria, o abismo