aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: língua

quem fala muito em empreender, fala do nada que faz ou do que fala por falar

Há pessoas que falam muito para dizer pouco. Há conselheiros para aconselhar a fazer o que nunca fizeram nem sabem do que falam o que mal leram ou ouviram para regurgitar. Deviam aconselhar a fazer nada ou a ler mal ou a ouvir mal se aconselhassem o que fazem. Se continuamos assim vai chegar o dia em que toda a gente se dedica ao trabalho de dar conselhos e fazem disso profissão.

Eu nem conselhos tenho para dar e, por isso e por ser sério, resolvi não ser conselheiro, nem qualquer outra coisa. Não exercendo profissão, poderiam considerar-me desempregado que não sou porque nunca quis um emprego e aceitei muito trabalho mal pago muitas vezes e às vezes mais do que podia.

Não fui despedido nem me despedi, só decidi ir pensar para os meus aposentos e também nas ruas da cidade onde os aposentos se localizaram.

Muitas vezes falamos da experiência que vamos acumulando. Isso é bom e foi bom para mim, embora muitas vezes tivesse sido necessário experimentar a experiência com vista a saber os resultados obtidos em vida. A matemática obriga-nos a algumas dependências de ciências experimentais e só por isso é que falamos das experiências já feitas por outros em laboratórios. Embora haja quem considere o que chamam experiência de vida, eu não dou valor a essa experiência antes de experimenar a morte. Na volta talvez vos posssa dizer o que foi a vida e o que é a eternidade.

é o arco que importa

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra-
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Italo Calvino. As cidades invisíveis. Teorema. Alfragide: 2011

pela boca vive, pela boca morre

Mordi a língua. Ela disse uma das suas mais pesadas

palavras. A madre da língua deu dois passos na sala

tendo soltado, a cada passo, exclamações tão iradas

que fazem da língua que sangra, a língua que cala.

 

É assim que o pano cai na boca de cena

e os povos cerram os sobrolhos  e  os dentes:

uma máquina auto-censurante nunca se condena

mas é ela, a religiosa censura dos crentes,

 

aquela que mais censura é

aquela que afasta o ramo verde do pé

e morde a língua e cala a língua e a doma

por todos os caminhos que dão para Meca ou para Roma.

 

 

picasso

(…)
5.

não há bem, mal ou claridade
apenas movimento das ondas, resume o escritor,
ignorante da matéria outra vez feita de partículas,
de horror, selvajaria em todos os cantos europeus,
pobreza, doenças e a morte fugindo sem esforço da riqueza,
a nado, transformando tudo o que um deus poderoso nos deixou:
o horror, sim, mas ainda não.
de pé numnavio, a cavalo numa estátua feita à escada a que junta água suja,
avançando com os amigos pelas cinzas das batalhas húmidas,
na posição típica do êxtase e da preguiça
a monarquia que deteve os turcos durante séculos
não se alarma.
picasso, descrito pela mãe como anjo,
chega pelo seu pé ao cais de orsay.
estreia um rei e um ditador polaco,
imaginários como os homicídios em massa
e os outros
temos medo, merdra, medo, merda.
uma cidade faz experiências com a radioactividade,
a ciência e a caridade,
surgem já desculpas para todas as ideias deste século,
as mesmas razões na arte e no sexo.
nos futuros estados da europa
esqueecemos por momentos a piedade dos exércitos saudáveis

José Gardeazabal, história do século vinte, ince, lisboa:2016

…suputava sob o tecto da prisão…

(…)

“Ao regressar a casa, ou seja à prisão, e sabendo muito bem que o resultado dessa doença de encarceração seria fatal, Zenão cansado de tantas argúcias, procura reflectir o menos possível. Melhor seria entrega o espírito a operações maquinais, que o livrariam de cair em terror ou em fúria: agora era ele o doente a quem tinha de manter vivo e de não deixar desesperar. Muito o auxiliaram os conhecimentos de línguas que possuía: conhecia as três ou quatro línguas eruditas, que se estudam nas escolas e, no decurso das viagens e da vida havia-se familiarizado com uma boa meia dúzia de falares vulgares. Muitas vezes lamentara ter de arrastar consigo essa bagagem de palavras que nunca utilizava; há algo de grotesco no facto de se saber qual o ruído ou o sinal que serve para designar a ideia de verdade ou a ideia de justiça em doze línguas. Um tal amontoado tornou-se passatempo: estabeleceu listas, formou grupos, comparou alfabetos e regras de gramática. Divertiu-se durante muitos dias com o projecto de um idioma lógico, claro como a notação musical, capaz de exprimir convenientemente todos os factos possíveis. Pôs-se a inventar linguagens cifradas como se tivesse alguém a quem enviar mensagens secretas.. Também as matemáticas lhe vieram a ser úteis: suputava, sob o tecto da prisão, a declinação dos astros; refez minuciosamente os cálculos referentes à quantidade de água bebida e evaporada, em cada dia, pela planta que por certo murchava na sua oficina.

Reflectiu longamente nas máquinas voadoras e mergulhadoras, nos registos de sons graças a máquinas que imitassem a memória humana, cujos dispositivos ele e Riemer haviam desenhado outrora e que ainda hoje conseguia projectar no canhenho. Tomara-o, contudo, um sentimento de desconfiança para com esses acréscimos artificiais a ajuntar aos membros do homem: pouco interessava poder meter-se pelo oceano, dentro de uma campânula de ferro e couro, desde que o mergulhador, reduzido aos seus recursos, sufocasse no meio das ondas; ou ainda subir aos céus com a ajuda de pedais e outras máquinas, desde que o corpo humano continuasse a ser aquela massa pesada que cai como urna pedra. Pouco importava , sobretudo, que se descobrissem meios de registar a palavra humana, que já por demais inunda o mundo com o seu ruído de mentira.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

um tweet e a piada perfeita

coisa3

O criador do Twitter explicou que o comprimento máximo de de um tweet tinha sido fixado em 140 caracteres porque esse é o comprimento da piada perfeita.

No debate das presidenciais americanas de 22 de Outubro de 2012 quando Mitt Romney se pegou com Obama acusando-o de não fazer da Defesa nacional a sua prioridade, o presidente replicou:

(…)

You mentioned the Navy, for example, and that we have fewer ships than we did in 1916. Well, Governor, we also have fewer horses and bayonets

(…)

(com 141 caracteres)

Andrew  Watts, Spectator(24/1/2015),  

Extractos no Courrier international (fr), nº 1269.

(a piada em português: A propósito da Marinha, disse que temos menos navios agora do que em 1916. Pois é verdade, também temos menos cavalos e menos baionetas.

Fez-me lembrar itens dos precisos no reconhecimento cartográfico do exército que  incluía, em 1974(!), localização de cereais para alimentação das mulas, para além da água  vital não só para as mulas, da religião predominante….)

mãe e madrasta

Não sei quem disse ou escreveu:

A Álgebra é simultaneamente  mãe  e madrasta de todas as ciências

mas gostava de saber.

manuel antónio pina: carta a mário cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se um coisa extraordinária,

que morreste; talvez já to tenham dito,

embora o caso verdadeiramente não

te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

 

Algo, de facto, deve ter acontecido,

porque nada acontece, a não ser o costume,

amor e estrume, quando ao resto

tudo prossegue de acordo com o Plano.

 

Há apenas agora um buraco aqui,

não sei onde, uma espécie de

falta de alguma coisa insolente e amável,

de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

 

Depois, de gato para baixo, mortos

(lembrei-me disso de repente,

agora que voltaste malevolamente a ti)

estamos todos. A gente vê-se um dia destes por A’i

26/11/2006

Manuell António Pina. Como se desenha uma casa. Assírio & Alvim. Lisboa:2011

algoritmo

Um algoritmo  é :…

um procedimento metódico, faseado, descrito através de instruções totalmente explícitas, que começa numa determinada condição inicial e termina com o resultado desejado. Se bem que não haja razão para que uma boa receita de cozinha, ou as instruções  para encontrar um lugar ou morada num mapa, não se possa chamar algoritmo, o termo teve origem na matemática, em que é muito usado. A palavra”algoritmo” surgiu como a transcrição europeia do nome do astrónomo e matemático do século IX  Al Khwarizmi de Bagdade, que catalogou e publicitou esses métodos, tendo criado muitos deles. O seu compêndio de algoritmos , o Hisab al-jabr w’al – muqabala, é geralmente considerado o  primeiro tratado de álgebra, sendo as palavras “al-jabr” a raiz da palavra álgebra. Um exemplo de um  algoritmo matemático simples  é o método que aprendemos na escola primária para somar dois números inteiros: “escrevam-se os dois números um sobre o outro, com alinhamento dos seus dois ótimos dígitos à direita, adicionem-se os seus últimos dígitos ; se a soma é menos de dez, escreva-se esse número logo abaixo dos outros dois; se é maior que dez, escreva-se o o segundo dígito da soma logo abaixo dos outros dois e  adicione-se o primeiro  dígito  à soma dos dígitos imediatamente à esquerda…” e assim por diante. O primeiro algoritmo sofisticado do mundo ocidental está possivelmente  nos Elementos de Euclides e consiste no cálculo do maior divisor comum de dois números positivos. Os algoritmos começaram a ganhar importância no ocidente no século XV, com a introdução do sistema decimal, muito mais expedito do que o sistema numérico romano para realizar cálculos como o descrito acima. Os algoritmos numéricos desempenharam um papel central nas revoluções científicas e tecnológicas. Nos dias de hoje, os algoritmos são tipicamente expressos em notações avançadas chamadas linguagens de programação. Estes algoritmos são muitas vezes transmitidos pela internet e constituem a base de funcionamento tanto dos computadores como da internet.

 

citado de

Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriov, Alegos Papadatos e Annie di Donna.

LOGICOMIX, uma busca épica da verdade, (novela gráfica)

Gradiva. Lisboa: 2014

que recomendamos vivamente.

 

E. Montale: La liuba che parte

Non il grillo ma il gatto
del focolare
or ti consiglia, splendido
lare della dispersa tua famiglia.
La casa che tu rechi
con te ravvolta, gabbia o cappelliera?,
sovrasta i ciechi tempi come il flutto
arca leggera – e basta al tuo riscatto.

Le occasioni