aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: leituras

…suputava sob o tecto da prisão…

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“Ao regressar a casa, ou seja à prisão, e sabendo muito bem que o resultado dessa doença de encarceração seria fatal, Zenão cansado de tantas argúcias, procura reflectir o menos possível. Melhor seria entrega o espírito a operações maquinais, que o livrariam de cair em terror ou em fúria: agora era ele o doente a quem tinha de manter vivo e de não deixar desesperar. Muito o auxiliaram os conhecimentos de línguas que possuía: conhecia as três ou quatro línguas eruditas, que se estudam nas escolas e, no decurso das viagens e da vida havia-se familiarizado com uma boa meia dúzia de falares vulgares. Muitas vezes lamentara ter de arrastar consigo essa bagagem de palavras que nunca utilizava; há algo de grotesco no facto de se saber qual o ruído ou o sinal que serve para designar a ideia de verdade ou a ideia de justiça em doze línguas. Um tal amontoado tornou-se passatempo: estabeleceu listas, formou grupos, comparou alfabetos e regras de gramática. Divertiu-se durante muitos dias com o projecto de um idioma lógico, claro como a notação musical, capaz de exprimir convenientemente todos os factos possíveis. Pôs-se a inventar linguagens cifradas como se tivesse alguém a quem enviar mensagens secretas.. Também as matemáticas lhe vieram a ser úteis: suputava, sob o tecto da prisão, a declinação dos astros; refez minuciosamente os cálculos referentes à quantidade de água bebida e evaporada, em cada dia, pela planta que por certo murchava na sua oficina.

Reflectiu longamente nas máquinas voadoras e mergulhadoras, nos registos de sons graças a máquinas que imitassem a memória humana, cujos dispositivos ele e Riemer haviam desenhado outrora e que ainda hoje conseguia projectar no canhenho. Tomara-o, contudo, um sentimento de desconfiança para com esses acréscimos artificiais a ajuntar aos membros do homem: pouco interessava poder meter-se pelo oceano, dentro de uma campânula de ferro e couro, desde que o mergulhador, reduzido aos seus recursos, sufocasse no meio das ondas; ou ainda subir aos céus com a ajuda de pedais e outras máquinas, desde que o corpo humano continuasse a ser aquela massa pesada que cai como urna pedra. Pouco importava , sobretudo, que se descobrissem meios de registar a palavra humana, que já por demais inunda o mundo com o seu ruído de mentira.

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Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

absurdo/sublime

r2

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Já decerto deplorastes … a sorte das estátuas feridas pela picareta e roídas pela terra; já vos revoltastes contra o tempo que maltratava a beleza. Á mim, no entanto, não me custa a crer que o mármore, cansado de ter conservado por tão largo tempo uma aparência humana, se regozije de voltar a ser simplesmente pedra … A criatura, pelo contrário, teme regressar à substância informe … Fui, logo à entrada, advertido por um cheiro fétido, pelos esforços da boca aspirando, e tornando a vomitar, a água que a garganta já não consegue engolir e o sangue ejaculado pelos pulmões doentes. Mas aquilo a que se chama alma subsistia ainda, e os olhos de cão confiante que não duvida que o dono irá vir em seu auxilio … Não era decerto aquela a primeira vez que os meus julepos se mostravam ineficazes, mas, até ali, nenhuma morte fora, pare mim, mais do que um peão perdido na minha jogada de médico. Mais ainda. à força de combater a sua majestade negra, instaura-se entre nós e ela urna espécie secreta de cumplicidade; assim também um capitão acaba por conhecer e admirar a táctica do inimigo. Há sempre um momento em que os doentes compreendem que nós a conhecemos bem de mais para que, por mor deles, nos não resignemos ao inevitável: enquanto vão suplicando e debatendo-se ainda, já nos nossos olhos podem ver um veredicto que melhor seria não verem. Só quando queremos muito a alguém é que nos apercebemos quão escandalosa é a morte de uma criatura … Pareceu- me vã a minha profissão, o que é quase tão absurdo como considerá-la sublime.
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Marguerite Yourcenar. Obra ao negro

agora o povo é o mais forte

Há uma mulher que parece ter enlouquecido. Ela subiu a um banco e lança pedradas à toa. Depois despiu o mandrião e ficou a bater no peito. Provoca os homens:

– Eh Jack, o que tens no entrepernas? Pedro Canja, onde meteste a tua fala grosssa?

Um polícia quer prender a mulher. Deita-lhe a mão no pulso, mas ela sacadeia e resiste. De repente o polícia curva-se e dobra os joelhos. A mulher deu-lhe uma pegada em mau lugar.

Agora o povo é o mais forte..

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Baltazar Lopes. Chiquinho

apanha do cimbrão

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Os músicos vão retornar o comando da festa. Começa o afinar moroso dos instrumentos. Os rabequistas procuram o tom e dão o lamiré. Melodia triste e nocturna do mi menor. Os dedos dos violinistas emocionam-se nos glissandos. Os violões, afinados um tom acima, dão o ré. O sax solta um lamento prolongado de animal nostálgico. Novamente morna.

Até a gordona está emocionada. Não é a mesma de há pouco, que contava a tragédia das raparigas que caem na vida e fazem quadros vivos e dançam nos cabarés de Dacar.

Jam querê morrê ta sonho
na sombra di olho magoado
de um pequena gentil
di Grupo Perfumado…

Todo o mundo gosta da dança do badio, que se entusiasma e mete na festa um batuque. Canta Diguigui Cimbrom e, na altura devida, ata um pano na cintura e pôe torno. Rebola a bacia, sem mexer as pernas nem o busto. Rapidamente reconstitui a apanha do cimbrão. Os braços balançam o pé do cimbrão, as mãos fazem concha para apanharem os grãos que vão caindo. Depois é um desequilíbrio do corpo todo, catando no chão. A sala está em África pura, sol na achada e paisagem de savana, com macacos cabriolando. O badio leva todo o mundo consigo na sua viagem de regresso de séculos.

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Baltazar Lopes. Chiquinho

Violão

A música espalhou urna neblina de tristeza rio ambiente farrista de ainda agorinha. Os pares rodam muito chegados… Nonó caminha para o interior da sala. Dói ordena paragem das danças.

Vai haver canto, senhores. O jazz diminuiu o bater. Os violões morrem de espasmo nos bordões. A voz grulhenta dos cavaquinhos recolheu-se em surdina. Nonó chama os músicos para o meio da sala e começa a cantar:

Na sê campo simiado di strela,
Nhor Dê fichá Didinha Lua
na tumba di nôte sucuro…

O violão é padre mestre nesta cerimónia. A voz e os bordões dos violões vão muito juntos, acotovelando-se. A uma quebra de Nonó, o violão fica interrogando num meio tom.

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Baltazar Lopes. Chiquinho

Tanha

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O que eu via à minha volta não era de molde a reprimir em mim os gritos da natureza. O amor era assunto que todos tratavam com um realismo desabrido, sem eufemismos. lzé de Silva, Jota Cuscuz, Mané Pretinho foram os meus professores, em consecutivas lições, que eu não aplicava na prática, mas cujos pormenores perseguiam a minha imaginação. Tornava-me olheirento. O meu buço despontava atrapalhadamente, como grama em horta de milho. Com vidro raspava a minha madrugada de barba. Mamãe velha preocupava-se com a minha magreza. Atribula aos estudos. Tanta coisa a meter na cabeça. Eu espigava em altura. Volta e meia la
tinha mamãe de botar abaixo as bainhas das calças e dos casacos. Mamãe velha:

– Este moço precisa de botar corpo…

E a minha pele se arroxeava das ventosas que me deitavam para pegar o corpo. Os meus olhos começaram a crescer para as formas sólidas de Tanha. Eu arranjava sempre pretexto para estar emburlado nela. Mesmo na cozinha ia chaleirá-la, sentir o seu corpo bem presente, sem coragem para lhe falar francamente. Quando ela ia levar comida no trabalho, procurava acampanhá-la. Não me faltava justificação:

– Preciso de ver como Pitra esta espiando os trabalhadores.

Um dia, num fundo, tive coragem para lhe pegar na barra da saia. Ela melindrou-se toda:

– Tira a mão! Menino de não sei que diga!

Depois pôs-se a rir. Mas logo a seguir depôs o balaio na parede, chegou-me a si e começou a fazer movimentos de quem dança o S. João. Nessa mesma noite fui, pé ante pé, ao quarto dela. Tanha mostrou-se surpreendida. Mandou-me embora:

– Menino impossivel ! Amanhã vou fazer queixume a mamãe!

Fiquei todo encolhido, com receio do escándalo que Tanha levantaria logo de manhãzinha.
Subitamente ela puxou-me a si. Envolveu-me num abraço forte e ficou um longo momento chupando-me a boca num beijo penetrante. Saí do seu quarto com a sensação de haver cometido um pecado.

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Baltazar Lopes da Slva. Chiquinho,

conta-se que…


conta-se que  há uma raça de cavalos que, quando perseguidos, abrem por instinto a si próprios uma veia com os dentes, para poderem respirar mais livremente

Goethe, Werther

…e são meticulosos por ti


não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido. aprende mais que eu:
 

a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de casa.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana. úteis as encíclicas
mais para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos. a  cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito
 

e são meticulosos por ti.

 

Hans Magnus Enzensberger,
Para um livro de leituras escolares.

 

as portas

portas

há o silêncio da espera entre uma e outra reunião – pensava eu o que em silêncio repetia aos meus botões. ao passar pela portas fechadas  onde as reuniões consomem as horas marcadas, as pessoas espetam os olhos em sombras imaginadas para lá das portas fechadas – também eu olho para o outro lado e sem vontade de ver imagino o que procuro ver e o olhar cai-me num precipício ladeando a escada principal e eu prevejo a queda de algumas pessoas à entrada ou à saída das reuniões decisivas.

fora do perímetro do círculo da reunião enche-se a cidade de vozearia (falar, latir, grasnar, vociferar, ladrar, miar, uivar, …),  de alguns estampidos de canos de escape e de roncos de motores que eu imagino por ouvir dizer que se a decisão for a favor de um governo de esquerda lá voltam os tanques, os canhões, os golpes, …  quando saio  pela porta da televisão imagino-me a acreditar naqueles comentadores que falam na previsível discórdia assassina nas ruas, nos canhões, nos estampidos, na metralha de que falam, etc.

não fico apavorado, garanto aos meus filhos. o que eu vejo é por via da piedade que me assalta ao saber da dor de alma de todos aqueles comentadores e múmias paralíticas tolhidos pelos mercados em geral e financeiros em particular para a falta de compreensão dos outros, por estarem doentes assim mentalmente num pequeno país com 10 camas a norte e 10 camas a sul para os seus casos,  já ocupadas por outros.

e ao centro nem uma.

as suas famílias, sem encontrem alternativa no país, preparam-se para os levar para outros países da união europeia que em parte se sente responsável pelo surto destas doenças. o pior é que já se preparam manifestações contra a entrada dos novos doentes portugueses nos hospícios europeus  ocupando camas tão necessárias ao internamento dos seus seus doentes nativos.

 

e etc.

ou esperar para ver e ouvir e cheirar e

etc

Ser velho

Ser velho é a guerra já ter acabado
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis

Joan Margarit. Casa da Misericórdia.ovni. entroncamento:2009