De que nos serve a poesia? De que serve a bondade?

Bertolt Brecht:

1

De que serve a bondade?

Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos

aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade

quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão

Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

 

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos

por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor:

a faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos

por criar uma situação que a todos liberte

e também o amor da liberdade

faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos

por criar uma situação que faça  da sem-razão dos indivíduos

um mau negócio!

 

piedade, cólera, ódio, vergonha > pranto

(…)

Auscultando ora a memória ora o raciocínio, entregou-se à tarefa de refazer ponto por ponto algumas das suas operações de cirurgião: aquela transfusão de sangue, por exemplo, que por duas vezes havia tentado. A primeira experiência resultara mais do que ele esperava, mas a segunda ocasionara a morte súbita, não de quem derramara o sangue, mas daquele que o recebera, como se entre dois líquidos vermelhos vertidos por diferentes indivíduos existissem ódios e amores que nós não entrevemos. Esses mesmos acordos e repulsões porventura explicavam também a esterilidade ou a fecundidade dos casais. A última destas palavras recordou-lhe Idalette arrastada pela policia. Nas suas defesas tão bem alicerçadas abriram-se por vezes brechas; uma noite, sentado à mesa, olhando vagamente para a chama da vela, lembrou-se, de repente, dos jovens monges lançados à fogueira, e então o horror, a piedade, a angústia e uma cólera que se tornou ódio fizeram-no, para vergonha sua, desfazer-se em pranto. Não sabia por quem nem porquê chorava ele dessa forma. A prisão tornava-o fraco.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

…suputava sob o tecto da prisão…

(…)

“Ao regressar a casa, ou seja à prisão, e sabendo muito bem que o resultado dessa doença de encarceração seria fatal, Zenão cansado de tantas argúcias, procura reflectir o menos possível. Melhor seria entrega o espírito a operações maquinais, que o livrariam de cair em terror ou em fúria: agora era ele o doente a quem tinha de manter vivo e de não deixar desesperar. Muito o auxiliaram os conhecimentos de línguas que possuía: conhecia as três ou quatro línguas eruditas, que se estudam nas escolas e, no decurso das viagens e da vida havia-se familiarizado com uma boa meia dúzia de falares vulgares. Muitas vezes lamentara ter de arrastar consigo essa bagagem de palavras que nunca utilizava; há algo de grotesco no facto de se saber qual o ruído ou o sinal que serve para designar a ideia de verdade ou a ideia de justiça em doze línguas. Um tal amontoado tornou-se passatempo: estabeleceu listas, formou grupos, comparou alfabetos e regras de gramática. Divertiu-se durante muitos dias com o projecto de um idioma lógico, claro como a notação musical, capaz de exprimir convenientemente todos os factos possíveis. Pôs-se a inventar linguagens cifradas como se tivesse alguém a quem enviar mensagens secretas.. Também as matemáticas lhe vieram a ser úteis: suputava, sob o tecto da prisão, a declinação dos astros; refez minuciosamente os cálculos referentes à quantidade de água bebida e evaporada, em cada dia, pela planta que por certo murchava na sua oficina.

Reflectiu longamente nas máquinas voadoras e mergulhadoras, nos registos de sons graças a máquinas que imitassem a memória humana, cujos dispositivos ele e Riemer haviam desenhado outrora e que ainda hoje conseguia projectar no canhenho. Tomara-o, contudo, um sentimento de desconfiança para com esses acréscimos artificiais a ajuntar aos membros do homem: pouco interessava poder meter-se pelo oceano, dentro de uma campânula de ferro e couro, desde que o mergulhador, reduzido aos seus recursos, sufocasse no meio das ondas; ou ainda subir aos céus com a ajuda de pedais e outras máquinas, desde que o corpo humano continuasse a ser aquela massa pesada que cai como urna pedra. Pouco importava , sobretudo, que se descobrissem meios de registar a palavra humana, que já por demais inunda o mundo com o seu ruído de mentira.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

absurdo/sublime

r2

(…)
Já decerto deplorastes … a sorte das estátuas feridas pela picareta e roídas pela terra; já vos revoltastes contra o tempo que maltratava a beleza. Á mim, no entanto, não me custa a crer que o mármore, cansado de ter conservado por tão largo tempo uma aparência humana, se regozije de voltar a ser simplesmente pedra … A criatura, pelo contrário, teme regressar à substância informe … Fui, logo à entrada, advertido por um cheiro fétido, pelos esforços da boca aspirando, e tornando a vomitar, a água que a garganta já não consegue engolir e o sangue ejaculado pelos pulmões doentes. Mas aquilo a que se chama alma subsistia ainda, e os olhos de cão confiante que não duvida que o dono irá vir em seu auxilio … Não era decerto aquela a primeira vez que os meus julepos se mostravam ineficazes, mas, até ali, nenhuma morte fora, pare mim, mais do que um peão perdido na minha jogada de médico. Mais ainda. à força de combater a sua majestade negra, instaura-se entre nós e ela urna espécie secreta de cumplicidade; assim também um capitão acaba por conhecer e admirar a táctica do inimigo. Há sempre um momento em que os doentes compreendem que nós a conhecemos bem de mais para que, por mor deles, nos não resignemos ao inevitável: enquanto vão suplicando e debatendo-se ainda, já nos nossos olhos podem ver um veredicto que melhor seria não verem. Só quando queremos muito a alguém é que nos apercebemos quão escandalosa é a morte de uma criatura … Pareceu- me vã a minha profissão, o que é quase tão absurdo como considerá-la sublime.
(…)

Marguerite Yourcenar. Obra ao negro

agora o povo é o mais forte

Há uma mulher que parece ter enlouquecido. Ela subiu a um banco e lança pedradas à toa. Depois despiu o mandrião e ficou a bater no peito. Provoca os homens:

– Eh Jack, o que tens no entrepernas? Pedro Canja, onde meteste a tua fala grosssa?

Um polícia quer prender a mulher. Deita-lhe a mão no pulso, mas ela sacadeia e resiste. De repente o polícia curva-se e dobra os joelhos. A mulher deu-lhe uma pegada em mau lugar.

Agora o povo é o mais forte..

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Baltazar Lopes. Chiquinho

apanha do cimbrão

(…)

Os músicos vão retornar o comando da festa. Começa o afinar moroso dos instrumentos. Os rabequistas procuram o tom e dão o lamiré. Melodia triste e nocturna do mi menor. Os dedos dos violinistas emocionam-se nos glissandos. Os violões, afinados um tom acima, dão o ré. O sax solta um lamento prolongado de animal nostálgico. Novamente morna.

Até a gordona está emocionada. Não é a mesma de há pouco, que contava a tragédia das raparigas que caem na vida e fazem quadros vivos e dançam nos cabarés de Dacar.

Jam querê morrê ta sonho
na sombra di olho magoado
de um pequena gentil
di Grupo Perfumado…

Todo o mundo gosta da dança do badio, que se entusiasma e mete na festa um batuque. Canta Diguigui Cimbrom e, na altura devida, ata um pano na cintura e pôe torno. Rebola a bacia, sem mexer as pernas nem o busto. Rapidamente reconstitui a apanha do cimbrão. Os braços balançam o pé do cimbrão, as mãos fazem concha para apanharem os grãos que vão caindo. Depois é um desequilíbrio do corpo todo, catando no chão. A sala está em África pura, sol na achada e paisagem de savana, com macacos cabriolando. O badio leva todo o mundo consigo na sua viagem de regresso de séculos.

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Baltazar Lopes. Chiquinho