aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: leituras

rever a apilcudor

(…)

Neste momento, por exemplo, sinto uma dor latejante que daqui a alguns minutos me impedirá de continuar a escrever. Começa na coxa direita, bastante em baixo. Parece que um metal liquido se infiltrou na musculatura, um fio de ouro, talvez. Depois sobe para a virilha direita, e envia um feixe de fios de ouro, de uma incandescência branca, em direcção ao umbigo, à anca, à parte de trás da perna, um leque de ecos surdos desse ouro brilhante sobe até ao diafragma. Se me deito, a dor duplica. Se continuo sentado, espalha-se pelas costas. Não tem sempre o mesmo tom, as frequências e amplitudes desse ouro de brilho branco mudam constantemente, formam acordes muito bonitos, e por fim desafinam e tornam-se cortantes.

(…)

Lars Gustafsson. A morte do Apicultor

sobre o sentimento religioso

O sentimento religioso toma a forma de um enorme deslumbramento diante da harmonia das leis naturais, que revelam uma inteligência tão superior que, comparada com ela, todo o pensamento e toda a acção sistemática dos seres humanos não passam de um reflexo insignificante.

Einstein, The world as I see it, 1934

citado por John Huss em

A filosofia segundo Monty Python, Estrela Polar, Cruz Quebrada:2009

eternidade: morto para sempre

(…)
Não queria imprevistos, tinha medo de perder-se, ou de ficar doente e morrer e que o seu cadáver só fosse descoberto semanas mais tarde, quando os gatos tivessem já devorado uma boa parte dos seus restos. A possibilidade de ser encontrado no meio de um monte de vísceras putrefactas aterrorizava-o de tal modo que combinara com a vizinha, uma velha viúva com uma vontade de ferro e um coração de manteiga, enviar-lhe uma mensagem de texto todas as noites. Se não o fizesse durante dois dias, ela viria dar uma vista de olhos; para isso dera -lhe uma chave da casa. A mensagem consistia em apenas duas palavras: «Continuo vivo.» Ela não tinha obrigação de responder, mas sofria do mesmo medo e fazia-o sempre com tres palavras: «Irra, eu também.» O mais assustador da morte era a ideia de eternidade. Morto para sempre, que horror.
(…)

I. Allende; Para lá do inverno.

é o arco que importa

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra-
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Italo Calvino. As cidades invisíveis. Teorema. Alfragide: 2011

separador

Para lá da curva do relógio de sol,
da sombra do ponteiro espetada no meu peito
guardo, enterrada numa numa nuvem de chumbo,
uma fragância de terra macia
e a luz do dia em que partiu a deusa:
a memória de uma película impressionada
pela sombra do relógio
contra a luz do sol
a impressão do adeus do adeus:

                                                  um cofre de coisa inúteis
retiradas do peito da deusa
ameaçada de tornar-se humana.

dedo noa ar, II, separador, 04.04

fecho

Ou podeis mergulhar nestas águas. Então de nada vos recordareis, nem sequer desta conversa ou desta escolha; e todas as vossas vitórias insignificantes, vossos amores e ódios, todas as acções que levasteis a cabo, serão lavadas da vossa memória e ficarão nestas águas escuras e agitadas como pequenos peixes velozes para aqueles que aqui vierem de pois de vós para as contemplar; e isto é a Fama.

Mas uma vez que estas águas se tenham fechado sobre vós, a vossa memória será tão lisa como uma superfície após a chuva e de nada vos recordareis.

Que serei então?

Nada.

Nem sequer uma sombra?

Nem sequer uma sombra.

dedo no ar, 2ª série, 1, 2 de Maio de ?

segundo Franz Kafka

A verdade sobre Sancho Pança

Sem fazer qualquer gala disso, ao longo de vários anos, alimentando-o de romances de cavalaria e aventuras durante os serões das horas noturnos, Sancho Pança conseguiu afastar de si o seu demónio, a quem mais tarde veio a dar o nome de Dom Quixote, levando-o a aventurar-se livremente nas mais loucas expedições, que, contudo, por lhes faltar um objetivo pré-definido, que teria sido o próprio Sancho Pança, não faziam mal a ninguém. Liberto, Sancho Pança seguia filosoficamente Dom Quixote nas suas cruzadas, talvez por nutrir por ele um sentimento de responsabilidade, e retirou dessas aventuras um entretenimento grandioso e edificante que guardou consigo até ao fim dos seus dias.

Franz Kafka. Contos. (Grande Reportagem) Cavalo de Ferro. Lisboa:2004

eu sei que aquilo é uma árvore

Estou sentado com um filósofo num jardim, ele repete: “Eu sei que aquilo é uma árvore“, apontando para uma árvore perto de nós. Chega mais alguém e ouve isto, e eu digo-lhe: “Este tipo não está doido. Estamos apenas a fazer filosofia

Da certeza, Wittgenstein
citado em “A filosofia segundo Monty Python”

De que nos serve a poesia? De que serve a bondade?

Bertolt Brecht:

1

De que serve a bondade?

Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos

aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade

quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão

Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

 

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos

por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor:

a faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos

por criar uma situação que a todos liberte

e também o amor da liberdade

faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos

por criar uma situação que faça  da sem-razão dos indivíduos

um mau negócio!

 

piedade, cólera, ódio, vergonha > pranto

(…)

Auscultando ora a memória ora o raciocínio, entregou-se à tarefa de refazer ponto por ponto algumas das suas operações de cirurgião: aquela transfusão de sangue, por exemplo, que por duas vezes havia tentado. A primeira experiência resultara mais do que ele esperava, mas a segunda ocasionara a morte súbita, não de quem derramara o sangue, mas daquele que o recebera, como se entre dois líquidos vermelhos vertidos por diferentes indivíduos existissem ódios e amores que nós não entrevemos. Esses mesmos acordos e repulsões porventura explicavam também a esterilidade ou a fecundidade dos casais. A última destas palavras recordou-lhe Idalette arrastada pela policia. Nas suas defesas tão bem alicerçadas abriram-se por vezes brechas; uma noite, sentado à mesa, olhando vagamente para a chama da vela, lembrou-se, de repente, dos jovens monges lançados à fogueira, e então o horror, a piedade, a angústia e uma cólera que se tornou ódio fizeram-no, para vergonha sua, desfazer-se em pranto. Não sabia por quem nem porquê chorava ele dessa forma. A prisão tornava-o fraco.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro