as histórias, hoje,

a história, hoje, descreve acontecimentos de ontem ou descritos ontem.

se me lembrar de mim, consigo falar da verdade histórica de alguma parte da minha história

que, mesmo descrita por mim, pode já não conter verdade alguma sem que seja mentira.

o que escrevo nos meus cadernos  onde me descrevo dia a dia não é verdade que possa ser desmentida.

se publicar um livro com essas descrições elas perdem todo o sentido e haverá tantas interpretações pessoais até contraditórias que só não se auto-destroem enquanto os interpretadores e observadores não se encontram no mesmo espaço a ler a mesma descrição.

felicidade

eu saio de casa para ir em redor da casa sempre pelas mesmas ruas, cumprindo rotinas que não sei de onde vêm e são por isso não rotinas.

espero as pessoas que quero ver todos os dias no outro passeio que não o meu e aproximando-se pela minha frente ou seja em sentido contrário ao meu.

as pessoas que eu quero ver nem as conheeço e elas nem sabem que eu existo, simplesmente me cruzo com elas e elas sorriem ao meu assobio que varia muito dependendo das música s que vou ouvindo e sobre alguns temas conhecidos a partir dos quais são os assobios improvisados.

para mim bastam as pessoas que passam em sentido contrário ao meu sem me reconhecerem.
esta rotina permite-me caminhar depressa e não parar.

às vezes um conhecido trava-me e tece considerações sobre a música, o tempo e a família e eu disparo disparates como se precisasse de falar muito que é uma forma de não ouvir o que ainda não sei por ser actual ou que não quero saber de novo.

há dias em que penso mesmo que sou feliz e já ouvi pessoas que me conhecem há muitos anos garantir que eu sou um tipo muito feliz e de bem com a vida.

assobio a isso.

durante

virás de longe até este luar que
cria uma sombra de ti
mais longa

que a minha sombra é
ao pôr-do-sol
a sombra de um gigante

e a sombra da minha mão
divide o grande chão da sala
em duas grandes salas

virás de longe até este luar e
adivinharás o abandono

no meu sono ali exposto
como um traço fixo invariável

mas efémero

que os cangalheiros estão para chegar
a qualquer momento

o avô do meu neto

é um velho sossegado enredado em assuntos que não interessam a ninguém na família. mas assim também ninguém sabe o que ele faz e muito menos a pouca importância do que ele faz. mas pouca gente se atreve a interromper o que ele está a fazer, e vale a pena esclarecer que ele não se deixa interromper até porque não percebe que o estão a interromper.

de vez em quando, muito raramente ele interrompe o que está a fazer e fala com as pessoas sobre coisas que elas não percebem, mas ninguém se atreve a dar-lhe troco. e ele parte para voltar de novo ao trabalho feliz por ter uma audiência tão compreensiva e interessada. as pessoas mais íntimas leram o título que ele escreveu ao cimo da capa do caderno, logo abaixo do seu nome: “carta ao meu neto para ele ler quando fizer 70 anos”. ninguém se atreveu a bisbilhotar o caderno grosso, mas toda a gente já convencionou que há um engano no título e que, em vez do título lido, ele pensou escrever: “carta ao meu neto para ele ler quando eu fizer 70 anos”. não que atribuam qualquer importância a isso; problema de lógica, é o que dizem.

nunca houve quem se interrogasse para quem seria a carta quando toda a gente sabe que ele não tem neto tanto quanto se sabe.