aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: idade

quanto mais ando sem…

Quanto mais ando, sem quaisquer problemas, mais dores sobram para as paragens: nos músculos e articulações dos membros superiores e inferiores esforçados pelo caminho movimentado que passa ele sim por mim sem que se apresente. Há sempre alguém para dar nomes aos caminhos.

E é por isso, que leio nomes de caminhos e lugares nas placas como sei que lia as placas com os nomes dos participantes em encontros e desencontros em que participei

e ou até organizei; para esses ainda me lembro em abstracto dos escritos nomes de inscritos às centenas em folhinhas e nos teclados de computadores para serem despejados em crachás(?)

sem ter guardado mais que esta informação de ter passado por eles ou de eles terem passado por mim sem saber mais de qualquer deles do que sabia antes que era nada. Sobrou nada disto tudo?
Alguma coisa deve ter sobrado, alguma pessoa de que escrevi e ou li o nome (passado pelos meus lábios) entre outros deve ter ficado comigo de memória por alqum tempo até que o tempoda sua emória visitou o seu jazigo em mim e sossegou. E é só isto o que sei, o que sobrou de tanto enamoramento e encontro.

Quando por acaso um reencontro inclui reconhecimento, visito o jazigo onde está descansado da canseira que foiconhecermo-nos ou pensarmos que assim foi. Não chega a haver exumação de qualquer ideia digna desse nome. Muitas vezes confirmo que neste citado jazigo na minha memória não sobrevive lá vivalma e não sei o que dizer para acabar a ser o mesmo de sempre a dizer disparates que são as respostas parvas que o esquecimento nos fornece em substituição da vida passada. E tudo recomeçar de novo quando o reencontrado sabe o que nós perdemos e nos aghuça o desejo do passado desancorado pela nossa cobardia e o nosso medo imenso de viver outra coisa senão o presente em passagem rápida que interessa viver sem memória futura.

Como um instantâneo que temos num último rolo da velha máquina fotográfica que nunca mandámos revelar até o perder de vista e de vez, assim também este presente encontrará o seu jazigo memorial sem original nem cópia…

pé ante pé

ando atrás do tempo dos lugares: passo pelos lugares que já não são o que eram e quase não vejo o que lá está agora e a obcessão é tal que nem nas fotografias depois os reconheço e finjo que são outros os lugares onde passo.

rever a apilcudor

(…)

Neste momento, por exemplo, sinto uma dor latejante que daqui a alguns minutos me impedirá de continuar a escrever. Começa na coxa direita, bastante em baixo. Parece que um metal liquido se infiltrou na musculatura, um fio de ouro, talvez. Depois sobe para a virilha direita, e envia um feixe de fios de ouro, de uma incandescência branca, em direcção ao umbigo, à anca, à parte de trás da perna, um leque de ecos surdos desse ouro brilhante sobe até ao diafragma. Se me deito, a dor duplica. Se continuo sentado, espalha-se pelas costas. Não tem sempre o mesmo tom, as frequências e amplitudes desse ouro de brilho branco mudam constantemente, formam acordes muito bonitos, e por fim desafinam e tornam-se cortantes.

(…)

Lars Gustafsson. A morte do Apicultor

colaterais

Eu bem te pedi que fechasses a boca e nem mais uma palavra dissesses. Mas tu tinhas de espalhar a palavra e nada mais merecia a tua atenção.
Só depois percebeste que estavas a caminho do deustista.
Quando voltámos para casa ainda conseguiste abrir a boca e dar à língua para murmurar: Antes o inferno!

1qdejunho2018e

Estão do outro lado da mesa, chegam-se à frente … …e esperam  ver como deste lado tudo fica mais pequeno. Por vezes enganam-se.

eternidade: morto para sempre

(…)
Não queria imprevistos, tinha medo de perder-se, ou de ficar doente e morrer e que o seu cadáver só fosse descoberto semanas mais tarde, quando os gatos tivessem já devorado uma boa parte dos seus restos. A possibilidade de ser encontrado no meio de um monte de vísceras putrefactas aterrorizava-o de tal modo que combinara com a vizinha, uma velha viúva com uma vontade de ferro e um coração de manteiga, enviar-lhe uma mensagem de texto todas as noites. Se não o fizesse durante dois dias, ela viria dar uma vista de olhos; para isso dera -lhe uma chave da casa. A mensagem consistia em apenas duas palavras: «Continuo vivo.» Ela não tinha obrigação de responder, mas sofria do mesmo medo e fazia-o sempre com tres palavras: «Irra, eu também.» O mais assustador da morte era a ideia de eternidade. Morto para sempre, que horror.
(…)

I. Allende; Para lá do inverno.

quem fala muito em empreender, fala do nada que faz ou do que fala por falar

Há pessoas que falam muito para dizer pouco. Há conselheiros para aconselhar a fazer o que nunca fizeram nem sabem do que falam o que mal leram ou ouviram para regurgitar. Deviam aconselhar a fazer nada ou a ler mal ou a ouvir mal se aconselhassem o que fazem. Se continuamos assim vai chegar o dia em que toda a gente se dedica ao trabalho de dar conselhos e fazem disso profissão.

Eu nem conselhos tenho para dar e, por isso e por ser sério, resolvi não ser conselheiro, nem qualquer outra coisa. Não exercendo profissão, poderiam considerar-me desempregado que não sou porque nunca quis um emprego e aceitei muito trabalho mal pago muitas vezes e às vezes mais do que podia.

Não fui despedido nem me despedi, só decidi ir pensar para os meus aposentos e também nas ruas da cidade onde os aposentos se localizaram.

Muitas vezes falamos da experiência que vamos acumulando. Isso é bom e foi bom para mim, embora muitas vezes tivesse sido necessário experimentar a experiência com vista a saber os resultados obtidos em vida. A matemática obriga-nos a algumas dependências de ciências experimentais e só por isso é que falamos das experiências já feitas por outros em laboratórios. Embora haja quem considere o que chamam experiência de vida, eu não dou valor a essa experiência antes de experimenar a morte. Na volta talvez vos posssa dizer o que foi a vida e o que é a eternidade.

as histórias, hoje,

a história, hoje, descreve acontecimentos de ontem ou descritos ontem.

se me lembrar de mim, consigo falar da verdade histórica de alguma parte da minha história

que, mesmo descrita por mim, pode já não conter verdade alguma sem que seja mentira.

o que escrevo nos meus cadernos  onde me descrevo dia a dia não é verdade que possa ser desmentida.

se publicar um livro com essas descrições elas perdem todo o sentido e haverá tantas interpretações pessoais até contraditórias que só não se auto-destroem enquanto os interpretadores e observadores não se encontram no mesmo espaço a ler a mesma descrição.

felicidade

eu saio de casa para ir em redor da casa sempre pelas mesmas ruas, cumprindo rotinas que não sei de onde vêm e são por isso não rotinas.

espero as pessoas que quero ver todos os dias no outro passeio que não o meu e aproximando-se pela minha frente ou seja em sentido contrário ao meu.

as pessoas que eu quero ver nem as conheeço e elas nem sabem que eu existo, simplesmente me cruzo com elas e elas sorriem ao meu assobio que varia muito dependendo das música s que vou ouvindo e sobre alguns temas conhecidos a partir dos quais são os assobios improvisados.

para mim bastam as pessoas que passam em sentido contrário ao meu sem me reconhecerem.
esta rotina permite-me caminhar depressa e não parar.

às vezes um conhecido trava-me e tece considerações sobre a música, o tempo e a família e eu disparo disparates como se precisasse de falar muito que é uma forma de não ouvir o que ainda não sei por ser actual ou que não quero saber de novo.

há dias em que penso mesmo que sou feliz e já ouvi pessoas que me conhecem há muitos anos garantir que eu sou um tipo muito feliz e de bem com a vida.

assobio a isso.

durante

virás de longe até este luar que
cria uma sombra de ti
mais longa

que a minha sombra é
ao pôr-do-sol
a sombra de um gigante

e a sombra da minha mão
divide o grande chão da sala
em duas grandes salas

virás de longe até este luar e
adivinharás o abandono

no meu sono ali exposto
como um traço fixo invariável

mas efémero

que os cangalheiros estão para chegar
a qualquer momento