aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Categoria: filosofia

sobre o sentimento religioso

O sentimento religioso toma a forma de um enorme deslumbramento diante da harmonia das leis naturais, que revelam uma inteligência tão superior que, comparada com ela, todo o pensamento e toda a acção sistemática dos seres humanos não passam de um reflexo insignificante.

Einstein, The world as I see it, 1934

citado por John Huss em

A filosofia segundo Monty Python, Estrela Polar, Cruz Quebrada:2009

é o arco que importa

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra-
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Italo Calvino. As cidades invisíveis. Teorema. Alfragide: 2011

um dia destes fui e ouvi-me

Um dia destes fui falar e não ouvir-me
mas as palavras da boca seca e se é certo que as falava
segundo o que pensava e do que decidido antes estava
os meus ouvidos magoados não me sugeriram senão sumir-me

que tempo este! que fizeram de nós as bestas aladas?
não cansava de me perguntar enquanto me ouvia gritar
que raio de vida esta arrastados para a ignomínia de um altar
feito só para ser derrubado como se derrubam as escadas

que degrau a degrau subimos
e à nossa passagem destruímos
sabendo que a nossa passagem de sismo
nos mostra, se é que não o cria, o abismo

as histórias, hoje,

a história, hoje, descreve acontecimentos de ontem ou descritos ontem.

se me lembrar de mim, consigo falar da verdade histórica de alguma parte da minha história

que, mesmo descrita por mim, pode já não conter verdade alguma sem que seja mentira.

o que escrevo nos meus cadernos  onde me descrevo dia a dia não é verdade que possa ser desmentida.

se publicar um livro com essas descrições elas perdem todo o sentido e haverá tantas interpretações pessoais até contraditórias que só não se auto-destroem enquanto os interpretadores e observadores não se encontram no mesmo espaço a ler a mesma descrição.

do que se não pode falar,

Do que se não pode falar, é melhor calar-se.

L.Wittgenstein,

Tractatus Logico-Philosophicus

úteis, avulsas e inúteis.

Ainda não tinha feito qualquer gesto e já o vendedor de coisas avulsas estava de mãos no ar e cabelos eriçado, enquanto a noite nos engolia a todos quantos lá estavam ou não estavam.
Qual é o problema bom homem? – perguntei eu.
E ele respondeu:
Problemas não tenho, senhor! Só que vendo coisas inúteis e posso ser reprovado por isso. Tenho medo do que possa pensar.
Dê-me uma meia dúzia dessas suas coisas inúteis – disse eu.
Está bem, mas vai ser grande perda para quem, como eu, precisa de comprar coisas úteis – retorquiu.
Mas aceita que coisas inúteis nada valem? que podem ser dadas? – perguntei.
Claro, senhor! Assim me parece. Mas deve compreender que as minhas coisas inúteis, quando as vendo, tornam-se úteis para mim no sentido que são o meu ganha-pão. – disse ele.
Mais valera que fizesse pão. – retorqui eu.
Não pode ser senhor, eu não posso vender-lhe o meu pão que tanto me custa a ganhar. – disse ele ainda de mãos no ar. Percebo, percebo muito bem ou quase. Quanto lhe custa afinal ganhar o seu pão? Será o que quer que lhe pague, mesmo que seja pela coisa inútil que inventou e nada valha realmente. – perguntei sem arredar pé, porque não tinha para onde ir fora destas palavras.
Exactamente senhor, compreendeu muito bem. – concluiu e seguiu rua fora, de mãos no ar.

o avô do meu neto

é um velho sossegado enredado em assuntos que não interessam a ninguém na família. mas assim também ninguém sabe o que ele faz e muito menos a pouca importância do que ele faz. mas pouca gente se atreve a interromper o que ele está a fazer, e vale a pena esclarecer que ele não se deixa interromper até porque não percebe que o estão a interromper.

de vez em quando, muito raramente ele interrompe o que está a fazer e fala com as pessoas sobre coisas que elas não percebem, mas ninguém se atreve a dar-lhe troco. e ele parte para voltar de novo ao trabalho feliz por ter uma audiência tão compreensiva e interessada. as pessoas mais íntimas leram o título que ele escreveu ao cimo da capa do caderno, logo abaixo do seu nome: “carta ao meu neto para ele ler quando fizer 70 anos”. ninguém se atreveu a bisbilhotar o caderno grosso, mas toda a gente já convencionou que há um engano no título e que, em vez do título lido, ele pensou escrever: “carta ao meu neto para ele ler quando eu fizer 70 anos”. não que atribuam qualquer importância a isso; problema de lógica, é o que dizem.

nunca houve quem se interrogasse para quem seria a carta quando toda a gente sabe que ele não tem neto tanto quanto se sabe.

perdoar a deus

estou mesmo decidido a perdoar-te
o mal que me fizeste e aos meus semelhantes
estou mesmo decidido a encontrar-te
para negociar um novo mundo igual ao que era dantes

dantes ainda antes da tua criação
ninguém criticava o mundo tal como ele era
sem inverno sem outono sem verão
ninguém dava pela falta da primavera

picasso

(…)
5.

não há bem, mal ou claridade
apenas movimento das ondas, resume o escritor,
ignorante da matéria outra vez feita de partículas,
de horror, selvajaria em todos os cantos europeus,
pobreza, doenças e a morte fugindo sem esforço da riqueza,
a nado, transformando tudo o que um deus poderoso nos deixou:
o horror, sim, mas ainda não.
de pé numnavio, a cavalo numa estátua feita à escada a que junta água suja,
avançando com os amigos pelas cinzas das batalhas húmidas,
na posição típica do êxtase e da preguiça
a monarquia que deteve os turcos durante séculos
não se alarma.
picasso, descrito pela mãe como anjo,
chega pelo seu pé ao cais de orsay.
estreia um rei e um ditador polaco,
imaginários como os homicídios em massa
e os outros
temos medo, merdra, medo, merda.
uma cidade faz experiências com a radioactividade,
a ciência e a caridade,
surgem já desculpas para todas as ideias deste século,
as mesmas razões na arte e no sexo.
nos futuros estados da europa
esqueecemos por momentos a piedade dos exércitos saudáveis

José Gardeazabal, história do século vinte, ince, lisboa:2016

eu sei que aquilo é uma árvore

Estou sentado com um filósofo num jardim, ele repete: “Eu sei que aquilo é uma árvore“, apontando para uma árvore perto de nós. Chega mais alguém e ouve isto, e eu digo-lhe: “Este tipo não está doido. Estamos apenas a fazer filosofia

Da certeza, Wittgenstein
citado em “A filosofia segundo Monty Python”