14, 1º após 13

by adealmeida

Um dia, eu passo pela solidão dos outros. Outro dia e passeio pela minha solidão perdida entre outras. Neste dia, o primeiro depois do anterior, procuro encontrar-me com outros perdidos em suas solidões. De certo modo sei que não se pode encontrar quem está sozinho. Mas posso sempre fazer alguma coisa por eles e por mim.

Todos sabem que, quando acidentalmente passo por Cesário Verde, fico tão nervoso que nem uma palavra consigo soltar para que ele me oiça a devoção. Mas deixo-o falar falar falar falar porque ele precisa de desabafar e eu gosto tanto de o ouvir, mesmo quando dispara as palavras sussurradas:


Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal, Com seu tipo tão nobree tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solenidade, Ir impondo toilettes complicadas! …

Em si tudo me atrai com um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril, A sua voz que tem um timbre de oiro E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina …

E é, na graça distinta do seu porte; Como a Moda supérflua e feminina, E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sozinha, E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui um jogo ardente,

Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomático e orgulhoso Que Ana d’ Áustria mostrava aos cortezãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante; Que eu procuro fundir na minha chama, Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão-de acabar os bárbaros reais, E os povos humilhados, pela noite, Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, Ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas, Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos – as rainhas!

Mosaico n.o 6; Fevereiro, 1875; Coimbra

Obrigado pelo aviso!  – ouvi uma voz que não era a de Cesário.

Eu também, em silêncio, lhe agradeci as palavras, não por as ter falado para mim,  mas por as ter dito.

E prossegui, cabisbaixo como sempre.

Lembrei-me depois também de outros actores e autores que vejo, leio e oiço realmente. Visões Úteis. Para quem pergunta o quê:

Não é medo. É precaução. Ter cuidado. NUnca cheguei atrasada, nunca caí de um escadote, nunca escorreguei na banheira. Nunca morri. UMa vez torci um pé, mas mesmo assim cheguei a horas porque já vinha a contar com isso.

….. …….

Chefe: (off) Uma análise breve mas atenta é suficiente para concluir que se morre muito mais do que se mata. Isto, apesar das mortes por imposição de outros serem relativamente regulares. Esta fatia de mortes, que podemos chamar de «não naturais», é parte esperada no desenvolvimento normal das coisas e até pode ser calculada com testes de hipóteses e outras ferramentas estatísticas; vem incluída no preço …

O que importa notar é o facto de continuar a ser mais pequena que o número de mortes a, que chamamos «naturais». Por mais assassínios que se cometam, por mais guerras e genocídios que se preparem ou por mais acidentes que aconteçam, estas mortes naturais continuam a ser a maioria. Daí, o interesse nas outras. Porq ue nem um deus todo poderoso seria suficientemente rico para pagar as indemnizações a tantas almas.

Não se trata de justiça. Trata-se de compensação, da necessidade constante de restabelecer equilíbrios voláteis… Veja o caso do acidente entre os dois aviões: um controlador de tráfego aéreo dá uma indicação errada, dois aviões chocam e morrem 97 criaturas, a maior parte delas crianças. Eis o desequilíbrio!

Uma das mães, agora viúva e órfã dos filhos, decide matar o controlador envolvido e acaba mesmo por executá-lo. Não se trata de justiça; eventualmente de uma tentativa de compensação, de restabelecer uma hipótese de equilíbrio.

Na realidade terá provocado um quase fim de ciclo. Um quase remate para uma ponta pequena de um emaranhado de novelos. Porque, como é óbvio, esta é apenas uma pequena derivação. Porque tudo se dissolve em algo maior e nas sucessivas camadas de horas.

Sabe quem é o actual recordista do salto em altura? E os anteriores? Dou-lhe o exemplo do senhor Dick Fosbury que, nos Jogos Olímpicos do México de 1968, ganhou a medalha de Ouro com um estilo inédito que é hoje utilizado pela esmagadora maioria de atletas: o chamado Fosbury Flop. Veja-se as coisas à distância pense-se noutros desportos, noutros feitos, e a provável solidão do senhor Fosbury será tão insuportável como a de qualquer funcionária de um balcão de Perdidos e Achados. Os feitos enormes dependem, como disse, da escala a que são vividos. O diário de mm ervanário pode constituir-se como epopeia desde que encontrado nas circunstâncias próprias … ou perdido. E a propósito Luz … a nossa aposta?

Cidade dos Diários Porto: 13 de Maio de 2005.