eternidade: morto para sempre

(…)
Não queria imprevistos, tinha medo de perder-se, ou de ficar doente e morrer e que o seu cadáver só fosse descoberto semanas mais tarde, quando os gatos tivessem já devorado uma boa parte dos seus restos. A possibilidade de ser encontrado no meio de um monte de vísceras putrefactas aterrorizava-o de tal modo que combinara com a vizinha, uma velha viúva com uma vontade de ferro e um coração de manteiga, enviar-lhe uma mensagem de texto todas as noites. Se não o fizesse durante dois dias, ela viria dar uma vista de olhos; para isso dera -lhe uma chave da casa. A mensagem consistia em apenas duas palavras: «Continuo vivo.» Ela não tinha obrigação de responder, mas sofria do mesmo medo e fazia-o sempre com tres palavras: «Irra, eu também.» O mais assustador da morte era a ideia de eternidade. Morto para sempre, que horror.
(…)

I. Allende; Para lá do inverno.

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