úteis, avulsas e inúteis.

by adealmeida

Ainda não tinha feito qualquer gesto e já o vendedor de coisas avulsas estava de mãos no ar e cabelos eriçado, enquanto a noite nos engolia a todos quantos lá estavam ou não estavam.
Qual é o problema bom homem? – perguntei eu.
E ele respondeu:
Problemas não tenho, senhor! Só que vendo coisas inúteis e posso ser reprovado por isso. Tenho medo do que possa pensar.
Dê-me uma meia dúzia dessas suas coisas inúteis – disse eu.
Está bem, mas vai ser grande perda para quem, como eu, precisa de comprar coisas úteis – retorquiu.
Mas aceita que coisas inúteis nada valem? que podem ser dadas? – perguntei.
Claro, senhor! Assim me parece. Mas deve compreender que as minhas coisas inúteis, quando as vendo, tornam-se úteis para mim no sentido que são o meu ganha-pão. – disse ele.
Mais valera que fizesse pão. – retorqui eu.
Não pode ser senhor, eu não posso vender-lhe o meu pão que tanto me custa a ganhar. – disse ele ainda de mãos no ar. Percebo, percebo muito bem ou quase. Quanto lhe custa afinal ganhar o seu pão? Será o que quer que lhe pague, mesmo que seja pela coisa inútil que inventou e nada valha realmente. – perguntei sem arredar pé, porque não tinha para onde ir fora destas palavras.
Exactamente senhor, compreendeu muito bem. – concluiu e seguiu rua fora, de mãos no ar.