aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Fevereiro, 2017

naquele dia fiz de conta

naquele dia fiz de conta
que foi o pior que pude fazer

para não mudar de passeio
e não mostrar que chorava por te ver

no outro lado da rua pudeste
continuar em paz o teu caminho

enquanto imaginavas a verdade
de confundir timidez com carinho

mas ficava-te mal a ti gritar
para que te ouvisse e voltaste

atrás quase a correr para olhar
aquele moribundo que abandonaste

ainda vivo no meio da tua estrada
onde soubeste fingir que o atropelaste

e estás agora a fingir como eu
que não te lembras de passado algum

mesmo que ele te persiga
para que não possas sentir futuro algum.

Rothko

“A minha capacidade de olhar é tal que os meus olhos acabarão por consumir-se.   E este desgaste das pupilas será a doença que me levará a morrer.  Uma noite olharei tão fixamente na escuridão que acabarei dentro dela.”
Palavra de Rothko.

em A luz é mais antiga que o amor de Salmón, Assírio e Alvim

úteis, avulsas e inúteis.

Ainda não tinha feito qualquer gesto e já o vendedor de coisas avulsas estava de mãos no ar e cabelos eriçado, enquanto a noite nos engolia a todos quantos lá estavam ou não estavam.
Qual é o problema bom homem? – perguntei eu.
E ele respondeu:
Problemas não tenho, senhor! Só que vendo coisas inúteis e posso ser reprovado por isso. Tenho medo do que possa pensar.
Dê-me uma meia dúzia dessas suas coisas inúteis – disse eu.
Está bem, mas vai ser grande perda para quem, como eu, precisa de comprar coisas úteis – retorquiu.
Mas aceita que coisas inúteis nada valem? que podem ser dadas? – perguntei.
Claro, senhor! Assim me parece. Mas deve compreender que as minhas coisas inúteis, quando as vendo, tornam-se úteis para mim no sentido que são o meu ganha-pão. – disse ele.
Mais valera que fizesse pão. – retorqui eu.
Não pode ser senhor, eu não posso vender-lhe o meu pão que tanto me custa a ganhar. – disse ele ainda de mãos no ar. Percebo, percebo muito bem ou quase. Quanto lhe custa afinal ganhar o seu pão? Será o que quer que lhe pague, mesmo que seja pela coisa inútil que inventou e nada valha realmente. – perguntei sem arredar pé, porque não tinha para onde ir fora destas palavras.
Exactamente senhor, compreendeu muito bem. – concluiu e seguiu rua fora, de mãos no ar.