aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Novembro, 2016

azar o teu: eu

 

 

que  azar o teu! disse

porque dizes isso? disseste em resposta

não sei. já me não lembro! concluí

 

o avô do meu neto

é um velho sossegado enredado em assuntos que não interessam a ninguém na família. mas assim também ninguém sabe o que ele faz e muito menos a pouca importância do que ele faz. mas pouca gente se atreve a interromper o que ele está a fazer, e vale a pena esclarecer que ele não se deixa interromper até porque não percebe que o estão a interromper.

de vez em quando, muito raramente ele interrompe o que está a fazer e fala com as pessoas sobre coisas que elas não percebem, mas ninguém se atreve a dar-lhe troco. e ele parte para voltar de novo ao trabalho feliz por ter uma audiência tão compreensiva e interessada. as pessoas mais íntimas leram o título que ele escreveu ao cimo da capa do caderno, logo abaixo do seu nome: “carta ao meu neto para ele ler quando fizer 70 anos”. ninguém se atreveu a bisbilhotar o caderno grosso, mas toda a gente já convencionou que há um engano no título e que, em vez do título lido, ele pensou escrever: “carta ao meu neto para ele ler quando eu fizer 70 anos”. não que atribuam qualquer importância a isso; problema de lógica, é o que dizem.

nunca houve quem se interrogasse para quem seria a carta quando toda a gente sabe que ele não tem neto tanto quanto se sabe.