aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Agosto, 2016

hoje, de longe

hoje,
de longe
chegam cartas curiosas:
alguém pergunta se eu adormeci dentro da casca
ou se me escondi zangado.

[ninguém me escreve, confesso.]

e eu, como sempre sem saber o que responder,
viro-me para o lado contrário de mim
e adormeço de novo sem querer lembrar as tempestades
que inventei quando desafiava instante a instante
uma felicidade que nem era minha
para ser de ninguém
para não ser

e secar a pontada desta dor de não saber
se algum dia

 

Publicado, pela primeira vez, a 18 maio 2006

ninguém canta como tu no entanto

se ao menos cantasses como canta um galo! – disse desesperada.

já a menina do lado de lá mais ao fundo disse: acalma-te desesperada, não vês que ele está a tentar; tu sabes que não é fácil sair bem à primeira!
oh menina do lado de lá mais ao fundo, ninguém falou contigo! a minha desilusão não pode ter chegado tão longe. se ao menos ele cantasse como o galo! – insistiu desesperada.

o rapaz esperou um pouco até que o galo cantasse de novo e ele pudesse procurar o seu registo bical e só depois de ouvir o despertador é que ele experimentou de novo com um novo vigor. quande se calou, a mãe disse: finalmente! gravaste desesperada?

a menina do lado de lá mais ao fundo disse: eu ouvi os dois e nenhum deles me pareceu à altura do outro!
a mãe repetiu: estavas a gravar desesperada? ou não?

não, ele não canta como o meu galo! prefiro o galo nesta pista. – disse desesperada.

a menina do lado de lá mais ao fundo pegou no rapaz e, com cuidado, dobrou-o antes de o aconchegar na sua cama lá ao fundo até não se verem o rapaz e a menina. a mãe não esboçou qualquer gesto em favor do rapaz, enquanto se afastava.

no estúdio sobraram desesperada e o seu despertador.

© Arsélio Martins, agosto 2016

O Alberto ofereceu-me

O Alberto ofereceu-me um desesperado ramo de rosas amarelas e pediu-me que o beijasse.
Assim fiz.

E a Rosa Amélia beijou a Virgínia pelo ramo de rosas cor de rosa, enquanto a Raquel beijou os dois pelo ramo de rosas cor de laranja.

A gata não deixou de olhar para toda a cena com os olhos coruscantes e ciumentos.

Quando ele desembrulhou o seu raminho de sardinhas e cerimoniosamente o colocou no prato da gata, ela assanhou-se e, não sei se aos beijos, atirou-se ao Alberto como é natural que as gatas se atirem a um gato.

©Arsélio Martins, Pretextos, Setembro de 1993