aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Julho, 2016

pela boca vive, pela boca morre

Mordi a língua. Ela disse uma das suas mais pesadas

palavras. A madre da língua deu dois passos na sala

tendo soltado, a cada passo, exclamações tão iradas

que fazem da língua que sangra, a língua que cala.

 

É assim que o pano cai na boca de cena

e os povos cerram os sobrolhos  e  os dentes:

uma máquina auto-censurante nunca se condena

mas é ela, a religiosa censura dos crentes,

 

aquela que mais censura é

aquela que afasta o ramo verde do pé

e morde a língua e cala a língua e a doma

por todos os caminhos que dão para Meca ou para Roma.

 

 

por lembrar poemas de c. de oliveira

dorme no teu canto
sobre o teu lado esquerdo
e, se puderes, esmaga o teu coração

sossega no teu canto
e murmura entre dentes
o murmúrio da água corrente

com que te prendes no teu sono pesado
também te prende ao chão é metálica

a corrente do que vês passar é elétrica
atrai-te e prende-te ao teu chão pesado

mas se estiveres ainda acordada
quando eu te falar do sossego que queres merecer
Desfaz-te em tiras e prende-te ao papagaio
que a criança solta ao vento
na ânsia de soltar uma ave feita de remorso

a corrente que o rio é
é somente a corrente que o rio é
desesperando por galgar margens
mas dorme no teu canto

Sobre o lado esquerdo do teu corpo
e se puderes esmaga o meu coração

até que na corrente das tuas lágrimas as vermelhas gotas
do meu sangue excessivo se confundam diluídas.

perdoar a deus

estou mesmo decidido a perdoar-te
o mal que me fizeste e aos meus semelhantes
estou mesmo decidido a encontrar-te
para negociar um novo mundo igual ao que era dantes

dantes ainda antes da tua criação
ninguém criticava o mundo tal como ele era
sem inverno sem outono sem verão
ninguém dava pela falta da primavera