piedade, cólera, ódio, vergonha > pranto

(…)

Auscultando ora a memória ora o raciocínio, entregou-se à tarefa de refazer ponto por ponto algumas das suas operações de cirurgião: aquela transfusão de sangue, por exemplo, que por duas vezes havia tentado. A primeira experiência resultara mais do que ele esperava, mas a segunda ocasionara a morte súbita, não de quem derramara o sangue, mas daquele que o recebera, como se entre dois líquidos vermelhos vertidos por diferentes indivíduos existissem ódios e amores que nós não entrevemos. Esses mesmos acordos e repulsões porventura explicavam também a esterilidade ou a fecundidade dos casais. A última destas palavras recordou-lhe Idalette arrastada pela policia. Nas suas defesas tão bem alicerçadas abriram-se por vezes brechas; uma noite, sentado à mesa, olhando vagamente para a chama da vela, lembrou-se, de repente, dos jovens monges lançados à fogueira, e então o horror, a piedade, a angústia e uma cólera que se tornou ódio fizeram-no, para vergonha sua, desfazer-se em pranto. Não sabia por quem nem porquê chorava ele dessa forma. A prisão tornava-o fraco.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

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