absurdo/sublime

by adealmeida

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Já decerto deplorastes … a sorte das estátuas feridas pela picareta e roídas pela terra; já vos revoltastes contra o tempo que maltratava a beleza. Á mim, no entanto, não me custa a crer que o mármore, cansado de ter conservado por tão largo tempo uma aparência humana, se regozije de voltar a ser simplesmente pedra … A criatura, pelo contrário, teme regressar à substância informe … Fui, logo à entrada, advertido por um cheiro fétido, pelos esforços da boca aspirando, e tornando a vomitar, a água que a garganta já não consegue engolir e o sangue ejaculado pelos pulmões doentes. Mas aquilo a que se chama alma subsistia ainda, e os olhos de cão confiante que não duvida que o dono irá vir em seu auxilio … Não era decerto aquela a primeira vez que os meus julepos se mostravam ineficazes, mas, até ali, nenhuma morte fora, pare mim, mais do que um peão perdido na minha jogada de médico. Mais ainda. à força de combater a sua majestade negra, instaura-se entre nós e ela urna espécie secreta de cumplicidade; assim também um capitão acaba por conhecer e admirar a táctica do inimigo. Há sempre um momento em que os doentes compreendem que nós a conhecemos bem de mais para que, por mor deles, nos não resignemos ao inevitável: enquanto vão suplicando e debatendo-se ainda, já nos nossos olhos podem ver um veredicto que melhor seria não verem. Só quando queremos muito a alguém é que nos apercebemos quão escandalosa é a morte de uma criatura … Pareceu- me vã a minha profissão, o que é quase tão absurdo como considerá-la sublime.
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Marguerite Yourcenar. Obra ao negro