apanha do cimbrão

by adealmeida

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Os músicos vão retornar o comando da festa. Começa o afinar moroso dos instrumentos. Os rabequistas procuram o tom e dão o lamiré. Melodia triste e nocturna do mi menor. Os dedos dos violinistas emocionam-se nos glissandos. Os violões, afinados um tom acima, dão o ré. O sax solta um lamento prolongado de animal nostálgico. Novamente morna.

Até a gordona está emocionada. Não é a mesma de há pouco, que contava a tragédia das raparigas que caem na vida e fazem quadros vivos e dançam nos cabarés de Dacar.

Jam querê morrê ta sonho
na sombra di olho magoado
de um pequena gentil
di Grupo Perfumado…

Todo o mundo gosta da dança do badio, que se entusiasma e mete na festa um batuque. Canta Diguigui Cimbrom e, na altura devida, ata um pano na cintura e pôe torno. Rebola a bacia, sem mexer as pernas nem o busto. Rapidamente reconstitui a apanha do cimbrão. Os braços balançam o pé do cimbrão, as mãos fazem concha para apanharem os grãos que vão caindo. Depois é um desequilíbrio do corpo todo, catando no chão. A sala está em África pura, sol na achada e paisagem de savana, com macacos cabriolando. O badio leva todo o mundo consigo na sua viagem de regresso de séculos.

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Baltazar Lopes. Chiquinho