Tanha

by adealmeida

(…)

O que eu via à minha volta não era de molde a reprimir em mim os gritos da natureza. O amor era assunto que todos tratavam com um realismo desabrido, sem eufemismos. lzé de Silva, Jota Cuscuz, Mané Pretinho foram os meus professores, em consecutivas lições, que eu não aplicava na prática, mas cujos pormenores perseguiam a minha imaginação. Tornava-me olheirento. O meu buço despontava atrapalhadamente, como grama em horta de milho. Com vidro raspava a minha madrugada de barba. Mamãe velha preocupava-se com a minha magreza. Atribula aos estudos. Tanta coisa a meter na cabeça. Eu espigava em altura. Volta e meia la
tinha mamãe de botar abaixo as bainhas das calças e dos casacos. Mamãe velha:

– Este moço precisa de botar corpo…

E a minha pele se arroxeava das ventosas que me deitavam para pegar o corpo. Os meus olhos começaram a crescer para as formas sólidas de Tanha. Eu arranjava sempre pretexto para estar emburlado nela. Mesmo na cozinha ia chaleirá-la, sentir o seu corpo bem presente, sem coragem para lhe falar francamente. Quando ela ia levar comida no trabalho, procurava acampanhá-la. Não me faltava justificação:

– Preciso de ver como Pitra esta espiando os trabalhadores.

Um dia, num fundo, tive coragem para lhe pegar na barra da saia. Ela melindrou-se toda:

– Tira a mão! Menino de não sei que diga!

Depois pôs-se a rir. Mas logo a seguir depôs o balaio na parede, chegou-me a si e começou a fazer movimentos de quem dança o S. João. Nessa mesma noite fui, pé ante pé, ao quarto dela. Tanha mostrou-se surpreendida. Mandou-me embora:

– Menino impossivel ! Amanhã vou fazer queixume a mamãe!

Fiquei todo encolhido, com receio do escándalo que Tanha levantaria logo de manhãzinha.
Subitamente ela puxou-me a si. Envolveu-me num abraço forte e ficou um longo momento chupando-me a boca num beijo penetrante. Saí do seu quarto com a sensação de haver cometido um pecado.

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Baltazar Lopes da Slva. Chiquinho,