aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Fevereiro, 2016

piedade, cólera, ódio, vergonha > pranto

(…)

Auscultando ora a memória ora o raciocínio, entregou-se à tarefa de refazer ponto por ponto algumas das suas operações de cirurgião: aquela transfusão de sangue, por exemplo, que por duas vezes havia tentado. A primeira experiência resultara mais do que ele esperava, mas a segunda ocasionara a morte súbita, não de quem derramara o sangue, mas daquele que o recebera, como se entre dois líquidos vermelhos vertidos por diferentes indivíduos existissem ódios e amores que nós não entrevemos. Esses mesmos acordos e repulsões porventura explicavam também a esterilidade ou a fecundidade dos casais. A última destas palavras recordou-lhe Idalette arrastada pela policia. Nas suas defesas tão bem alicerçadas abriram-se por vezes brechas; uma noite, sentado à mesa, olhando vagamente para a chama da vela, lembrou-se, de repente, dos jovens monges lançados à fogueira, e então o horror, a piedade, a angústia e uma cólera que se tornou ódio fizeram-no, para vergonha sua, desfazer-se em pranto. Não sabia por quem nem porquê chorava ele dessa forma. A prisão tornava-o fraco.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

…suputava sob o tecto da prisão…

(…)

“Ao regressar a casa, ou seja à prisão, e sabendo muito bem que o resultado dessa doença de encarceração seria fatal, Zenão cansado de tantas argúcias, procura reflectir o menos possível. Melhor seria entrega o espírito a operações maquinais, que o livrariam de cair em terror ou em fúria: agora era ele o doente a quem tinha de manter vivo e de não deixar desesperar. Muito o auxiliaram os conhecimentos de línguas que possuía: conhecia as três ou quatro línguas eruditas, que se estudam nas escolas e, no decurso das viagens e da vida havia-se familiarizado com uma boa meia dúzia de falares vulgares. Muitas vezes lamentara ter de arrastar consigo essa bagagem de palavras que nunca utilizava; há algo de grotesco no facto de se saber qual o ruído ou o sinal que serve para designar a ideia de verdade ou a ideia de justiça em doze línguas. Um tal amontoado tornou-se passatempo: estabeleceu listas, formou grupos, comparou alfabetos e regras de gramática. Divertiu-se durante muitos dias com o projecto de um idioma lógico, claro como a notação musical, capaz de exprimir convenientemente todos os factos possíveis. Pôs-se a inventar linguagens cifradas como se tivesse alguém a quem enviar mensagens secretas.. Também as matemáticas lhe vieram a ser úteis: suputava, sob o tecto da prisão, a declinação dos astros; refez minuciosamente os cálculos referentes à quantidade de água bebida e evaporada, em cada dia, pela planta que por certo murchava na sua oficina.

Reflectiu longamente nas máquinas voadoras e mergulhadoras, nos registos de sons graças a máquinas que imitassem a memória humana, cujos dispositivos ele e Riemer haviam desenhado outrora e que ainda hoje conseguia projectar no canhenho. Tomara-o, contudo, um sentimento de desconfiança para com esses acréscimos artificiais a ajuntar aos membros do homem: pouco interessava poder meter-se pelo oceano, dentro de uma campânula de ferro e couro, desde que o mergulhador, reduzido aos seus recursos, sufocasse no meio das ondas; ou ainda subir aos céus com a ajuda de pedais e outras máquinas, desde que o corpo humano continuasse a ser aquela massa pesada que cai como urna pedra. Pouco importava , sobretudo, que se descobrissem meios de registar a palavra humana, que já por demais inunda o mundo com o seu ruído de mentira.

(…)

Marguerite Yourcenar. A obra ao negro

absurdo/sublime

r2

(…)
Já decerto deplorastes … a sorte das estátuas feridas pela picareta e roídas pela terra; já vos revoltastes contra o tempo que maltratava a beleza. Á mim, no entanto, não me custa a crer que o mármore, cansado de ter conservado por tão largo tempo uma aparência humana, se regozije de voltar a ser simplesmente pedra … A criatura, pelo contrário, teme regressar à substância informe … Fui, logo à entrada, advertido por um cheiro fétido, pelos esforços da boca aspirando, e tornando a vomitar, a água que a garganta já não consegue engolir e o sangue ejaculado pelos pulmões doentes. Mas aquilo a que se chama alma subsistia ainda, e os olhos de cão confiante que não duvida que o dono irá vir em seu auxilio … Não era decerto aquela a primeira vez que os meus julepos se mostravam ineficazes, mas, até ali, nenhuma morte fora, pare mim, mais do que um peão perdido na minha jogada de médico. Mais ainda. à força de combater a sua majestade negra, instaura-se entre nós e ela urna espécie secreta de cumplicidade; assim também um capitão acaba por conhecer e admirar a táctica do inimigo. Há sempre um momento em que os doentes compreendem que nós a conhecemos bem de mais para que, por mor deles, nos não resignemos ao inevitável: enquanto vão suplicando e debatendo-se ainda, já nos nossos olhos podem ver um veredicto que melhor seria não verem. Só quando queremos muito a alguém é que nos apercebemos quão escandalosa é a morte de uma criatura … Pareceu- me vã a minha profissão, o que é quase tão absurdo como considerá-la sublime.
(…)

Marguerite Yourcenar. Obra ao negro

agora o povo é o mais forte

Há uma mulher que parece ter enlouquecido. Ela subiu a um banco e lança pedradas à toa. Depois despiu o mandrião e ficou a bater no peito. Provoca os homens:

– Eh Jack, o que tens no entrepernas? Pedro Canja, onde meteste a tua fala grosssa?

Um polícia quer prender a mulher. Deita-lhe a mão no pulso, mas ela sacadeia e resiste. De repente o polícia curva-se e dobra os joelhos. A mulher deu-lhe uma pegada em mau lugar.

Agora o povo é o mais forte..

*****************

Baltazar Lopes. Chiquinho

apanha do cimbrão

(…)

Os músicos vão retornar o comando da festa. Começa o afinar moroso dos instrumentos. Os rabequistas procuram o tom e dão o lamiré. Melodia triste e nocturna do mi menor. Os dedos dos violinistas emocionam-se nos glissandos. Os violões, afinados um tom acima, dão o ré. O sax solta um lamento prolongado de animal nostálgico. Novamente morna.

Até a gordona está emocionada. Não é a mesma de há pouco, que contava a tragédia das raparigas que caem na vida e fazem quadros vivos e dançam nos cabarés de Dacar.

Jam querê morrê ta sonho
na sombra di olho magoado
de um pequena gentil
di Grupo Perfumado…

Todo o mundo gosta da dança do badio, que se entusiasma e mete na festa um batuque. Canta Diguigui Cimbrom e, na altura devida, ata um pano na cintura e pôe torno. Rebola a bacia, sem mexer as pernas nem o busto. Rapidamente reconstitui a apanha do cimbrão. Os braços balançam o pé do cimbrão, as mãos fazem concha para apanharem os grãos que vão caindo. Depois é um desequilíbrio do corpo todo, catando no chão. A sala está em África pura, sol na achada e paisagem de savana, com macacos cabriolando. O badio leva todo o mundo consigo na sua viagem de regresso de séculos.

(…)

***************

Baltazar Lopes. Chiquinho

Violão

A música espalhou urna neblina de tristeza rio ambiente farrista de ainda agorinha. Os pares rodam muito chegados… Nonó caminha para o interior da sala. Dói ordena paragem das danças.

Vai haver canto, senhores. O jazz diminuiu o bater. Os violões morrem de espasmo nos bordões. A voz grulhenta dos cavaquinhos recolheu-se em surdina. Nonó chama os músicos para o meio da sala e começa a cantar:

Na sê campo simiado di strela,
Nhor Dê fichá Didinha Lua
na tumba di nôte sucuro…

O violão é padre mestre nesta cerimónia. A voz e os bordões dos violões vão muito juntos, acotovelando-se. A uma quebra de Nonó, o violão fica interrogando num meio tom.

**********************
Baltazar Lopes. Chiquinho

Tanha

(…)

O que eu via à minha volta não era de molde a reprimir em mim os gritos da natureza. O amor era assunto que todos tratavam com um realismo desabrido, sem eufemismos. lzé de Silva, Jota Cuscuz, Mané Pretinho foram os meus professores, em consecutivas lições, que eu não aplicava na prática, mas cujos pormenores perseguiam a minha imaginação. Tornava-me olheirento. O meu buço despontava atrapalhadamente, como grama em horta de milho. Com vidro raspava a minha madrugada de barba. Mamãe velha preocupava-se com a minha magreza. Atribula aos estudos. Tanta coisa a meter na cabeça. Eu espigava em altura. Volta e meia la
tinha mamãe de botar abaixo as bainhas das calças e dos casacos. Mamãe velha:

– Este moço precisa de botar corpo…

E a minha pele se arroxeava das ventosas que me deitavam para pegar o corpo. Os meus olhos começaram a crescer para as formas sólidas de Tanha. Eu arranjava sempre pretexto para estar emburlado nela. Mesmo na cozinha ia chaleirá-la, sentir o seu corpo bem presente, sem coragem para lhe falar francamente. Quando ela ia levar comida no trabalho, procurava acampanhá-la. Não me faltava justificação:

– Preciso de ver como Pitra esta espiando os trabalhadores.

Um dia, num fundo, tive coragem para lhe pegar na barra da saia. Ela melindrou-se toda:

– Tira a mão! Menino de não sei que diga!

Depois pôs-se a rir. Mas logo a seguir depôs o balaio na parede, chegou-me a si e começou a fazer movimentos de quem dança o S. João. Nessa mesma noite fui, pé ante pé, ao quarto dela. Tanha mostrou-se surpreendida. Mandou-me embora:

– Menino impossivel ! Amanhã vou fazer queixume a mamãe!

Fiquei todo encolhido, com receio do escándalo que Tanha levantaria logo de manhãzinha.
Subitamente ela puxou-me a si. Envolveu-me num abraço forte e ficou um longo momento chupando-me a boca num beijo penetrante. Saí do seu quarto com a sensação de haver cometido um pecado.

(…)

************************
Baltazar Lopes da Slva. Chiquinho,

Verbo dar

Dei-lhe um braçado de lírios. Dei-lhe dois beijos. Dei-lhe dois beliscões carinhosos. Dei-lhe três frases animadoras. Dei-lhe um livro de poemas, um romance de capa cor de rosa e uma reprodução de uma gravura japonesa. Dei-lhe , em promessa, uma dedicação para a vida inteira. Quando começou a chover, dei-lhe o casaco e o guarda-chuva. Dei-lhe setenta e cinco escudos para comprar um jornal diário e dei-lhe um pacote de pastilhas elásticas. Dei-lhe mais dois beijos.

Depois chegou o namorado dela e ela partiu com ele e com tudo. Deu-me com os pés. Fiquei com os pés dela, mas transido de frio e todo molhado. Deu-me cá um ódio.

escrito em 1990 para o “círculo virtuoso”