aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Janeiro, 2016

1984: discurso terceiro (o nunca lido)

Por partes:

Primeira. pelos amigos ficou decidido que tenho de escrever o discurso de que fui incapaz. não há sugestões para tema nem para qualquer outra coisa. (só: escreve um discurso!) vou escreve-lo e lê-lo no sistema de espelhos do meu círculo de solidão. por cada espelho um eco: por isso ei-lo: o discurso ensurdecedor.

Segunda.camaradas! estamos nas páginas do meio do meu caderno de notas de rodapé: antes destas estão anotados alguns sonhos sinceros, alguma febre, um ideal, dois ou três esboços de movimento para o futuro. uma certa burocracia de idealista. para a frente nem sequer sei o que vai haver e muito menos sei o que representa este discurso ou este momento: — uma ponte entre as águas passadas e o futuro? — uma paragem para pensar e escolher o melhor autocarro para os arrabaldes da tempestade? — uma boca? — uma história de tias? — … um poema?

Terceira. é aos poetas que falo:/ mal nasci que me habituei à ideia da morte / mais depressa que a esta violência da vida / e desde cedo que vivo com ela / como quem vive com a mulher e os filhos e com a mãe do api de um tio afastado / que não tem mais ninguém / e já não se alimenta a si mesma / e definha como se tivesse desistido de morrer.// eu e ela trocamos ideias sobre os instantes / ideais/ aqueles em que valeria a pena despenhar o corpo para fora do último andar / da alma / e não cair / nunca mais // depois de vários anos de vida em comum / decidimos quase ao mesmo tempo / mas separadamente / demonstrar o teorema / que até esse momento não passava de uma conjectura / e afligia por isso tanto os poetas como outros cientistas // chegámos às mesmas conclusões por caminhos diferentes e quando os recitámos / primeiro ela depois eu / e / vimos que deles escorria o mesmo cheiro e a mesma náusea // decidimos então amar-nos para sempre ali mesmo / entre as pilhas de papel da demonstração // e agora somos três os que definhamos/ porque eu e a ideia da morte nos distraímos no instante propício / da morte / e a velha que vive comigo / como já disse / pelo mesmo motivo se tornou eterna.\\\

Quarta. (àqueles que amam a fúria dos elementos naturais, àqueles que amam tanto a luz como as trevas e amam todos os cheiros da natureza, mesmo da industrial e até da humana; àqueles que esperam as gotas de ácido do futuro como esperaram gotas de chuva refrescantes(!) é que eu quero falar. e posso falar-lhes em seu nome e em nome dos que sofrem e lutam. e sofrer porque falo. e falar deles, das suas feridas abertas pelas novas tempestades: de poeira, de abandono, de frio e ácido.) falo por falar: são as palavras que não me deixam calar].

Quinta.camaradas! marx sempre me piscou matreiramente o olho. antes de ler marx, li a sua vida romanceada. gostei dele assim, com o sorriso maroto, antes de ter aquele porte napoleónico que apanhou nas fotografias retocadas pelos russos, pelos chineses e pelos albaneses. …

Sexta. por onde andei eu? já perguntaram até onde estava quando estava a dormir. é que eue estava a dormir enquanto lá fora o povo… o movimento popular… — camarada não é a dormir que se serve o partido e o povo. — , mas, camarada, está na hora de dormir. estive a trabalhar até agora! — os comunistas não dormem! (e acordei estremunhado no meio do pesadelo na reunião do comité).

Sétima. andava dizendo aquilo que fazia pelo povo e fazendo aqui que dizia pelo povo? só aparentemente era! — fui eu quem o disse? ou outra vez a multidão repetia uma lástima como repetia as palavras de ordem unida as palavras de ontem? quem é camarada hoje de quem o foi ontem? acordaram-me quando estava suado de medo: empunhei então a última pistola e disparei pra onde brilhava. estilhacei só ideias, as únicas que eram as minhas.

Oitava. o comité central reivindicou uma vitória real: que tinha expulso das fileiras uma minoria que queria ser maioria. em bom tempo: expulsou uma minoria que organizadamente se despia preconceito a preconceito até à verdade final. é: a minoria ficou nua, na rua e sem reverencial. (gritos: “referencial fora de portugal”)

Nona. mas afinal sempre vos confesso uma coisa: camaradas! na finalidade das formas de luta de um homem está sempre uma forma de expulsão. expulsão é para a liberdade, o sossego, a solidão. por ela se luta com grande dignidade e firmeza. por ela se mente. por ela a negamos. abençoada seja a expulsão. (gritos: “expulsão – revolução”)

<Décimao único grande problema depois é a necessidade, o vício da “vida dupla”. família, profissão, sindicato, cooperativa, … poemas e livros policiais não chegam para tapar da vida aquele grande vício de quem pensou e aprendeu a viver no medo, nos subterrâneos da subversão, quer dizer, aquela fascinação da vida de duas caras. precisa a vida de ter a metade clandestina: temos de a inventar, nem que seja a morte como invenção ou outra forma subversiva de abjecção. talvez seja daí que vem a ideia (pelo menos do meu lado):organização da homenagem esta a nós mesmos — organização de um testículo este onde nos mandemos à merda mas nos glorifiquemos. nem a glória é vã nem é vão a cobiça. (vozes: “glória para a presidência! a cobiça pró ministério da justiça!”) o professor precisa mesmo de rir-se de si mesmo: dar medida à sua lição de tirar lições para o seu avesso da vida. (vozes: — “a vida pra presidência!”)

Décima-primeira. falar ao povo a verdade. e propor-lhe que aceite a nossa candidatura, que, se não lhe oferece uma vida melhor,ao menos não lhe censura a vida dupla, nem os biscates. (vozes: “a presidência é um biscate pró soares!”) a nossa candidatura é feminina como candidatura e democracia. três partes do abismo não propomos avançar, nem recuar. propomos gozar o arrepio do abismo, admirar o fundo, o triogulo das trevas, o que não conhecemos. e a cair: preferir a queda como ela é: feminina. (voz: “a gozar, a gozar — revolução popular!”)

Décima-segunda. para terminar a reflexão ia propor a reflexão sobre duas teses: felizmente ou me esqueci delas ou ficam para o 25 de fevereiro, dia de romper o cerco.

🙂
o meu era este discurso terceiro, este da publicação policopiada depois de por mim ser manuscrita página a página como era costume, ainda ao tempo desses ambientes de grande pobreza (também de espírito?) e desvontade de avançar para o futuro que já não se mostrava tão radioso como era dantes 🙂

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