1990: Sintra

planorca3

  1. O Manuel e o Ruivo partiram ontem para a serra. Começaram a subir perto da meia noite. Pela estrada, claro. Aqueles dois não se cansam por atalhos. Eles têm a noite inteira para subir e se não chegarem a tempo outras noites e outras madrugadas haverá.
  2. O Manuel é pequenito e feio. No convívio com a rapaziada, parece seguro e mostra-se jovial; e quando é preciso fazer alguma coisa mais arriscada ele parece ser o que não hesita.
    Mas mal fica sozinho ou com o Ruivo, Manuel transforma-se num homem amargurado e envelhecido, discute-se, discute tudo, põe tudo em causa. Para ele parece que nada vale a pena.

    O Ruivo é um rapaz alto, bem parecido, de cabelos louros ondulados, uns olhos verdes meigos. No convívio, ele é calmo e discreto. Nunca levanta a voz. As raparigas dançam com ele. As mães deixam as raparigas sair com o Ruivo. Inspira confiança o Ruivo.
    Mas, mal fica sozinho, o Ruivo parece um rapaz calmo que se agarra como um danado à companhia desagradável do Manuel amargurado e desiludido, desejoso de ser um autor maldito, um revolucionário violento, um homem morto pela polícia, um poeta suicida e na maior parte dos dias, nada. Ruivo só quer viver. Mais nada.

  3. Manuel e Ruivo atravessam ambos uma grande crise. Contra tanta coisa. Não sabem bem o quê. Estão muito divididos. Até porque as pessoas, mesmo as mais velhas, gostam muito deles e eles gostam muito das pessoas.
    Sintra é uma colecção de pequenas ilhas, pequenos bairros de gente boa que se entrecruzam. Os mais pobres e os mais ricos cruzam-se no João sapateiro, um velho gordo e calmo, que faz as chumbadas para a pesca e ensina tudo a todos.
    Os miúdos cruzam-se todos no Bilhar, onde o Zorba faz as suas exibições de fúria quando perde às três tabelas e onde o Zorba, com a sua paciência de gigante, ensina os putos e lhes apresenta como amigo o seu amigo famoso Torres do Benfica.
  4. Naquele Sábado de Páscoa, decidiram subir a serra. Para ver o Sol nascer.
    Ninguém lhes levantou qualquer problema. Toda a gente confia neles e toda a gente sabe que se deve ver nascer o sol na serra de Sintra. Para ver o sol nascer.
    No cimo da serra, o céu está pousado na terra. De cá de baixo, parece que uma estrela está a descansar numa das ameias do castelo dos mouros.

    Àquelas horas, as estradas da serra são escuríssimas, raramente rasgadas por faróis de carros ora rapidissimos clandestinos corredores da rampa da pena, ora lentíssimos clandestinos namorados voltando à terra povoada de mães vigilantes.
  5. Enquanto sobem lentamente, Manuel e Ruivo falam. De tudo.

    Das mulheres que pensam que desejam ou amam até ao delírio e a quem não podem dizer mais do que banalidades, dos amigos que os não compreendem e dos quais não esperam compreensão, metafísica e política.
    Manuel chega mesmo a ler, enquanto caminha e com a lanterna de bolso a tremer, o último poema desesperado que escreveu e que mais ninguém leu, nem lerá.
    Ruivo fala também do Técnico. Ainda não compreendeu nada e não sabe se deve ir votar nas eleições para a Associação. Manuel faz-lhe perguntas sobre os tipos do Técnico e o que eles defendem. Ruivo não sabe mesmo nada e Manuel enfurece-se e muda de assunto.

    Quando chegam ao cimo e se sentam numa esquina protegida do vento do castelo dos mouros, já chegaram a acordo sobre várias coisas.
    Manuel defende que não vale a pena acreditar, no sentido de ter fé. Acreditar significa aceitar alguma imutabilidade e significa não aceitar as crenças contrárias. Mesmo quando se diz que se é tolerante. Manuel diz que quando alguém se afirma tolerante em relação a qualquer ideia que lhe é estranha, está já a menosprezá-Ia. E Manuel prefere odiar a tolerar o que lhe é estranho.
    Ruivo dirá que deixa as crenças para os outros e respeitará todas as crenças. Está de acordo que não vale a pena acreditar em absoluto e está de acordo com o Manuel quando ele diz que a tolerância é sempre menosprezo.
    Ruivo fala da páscoa. Dos judeus e dos cristãos. Dos católicos. Ele sabe muito de intolerância e conta alguns episódios acerca da implantação do estado de israel.
    Manuel atalha as considerações do Ruivo, referindo a própria criação da Páscoa, da passagem de Deus pelo Egipto matando todos os primogénitos e esclarece o sentido da sua negação da religião católica ou de qualquer religião em favor da humanidade.
    Ruivo sorri, quando diz que Manuel se está a tomar intolerante em relação à sua própria educação na religião católica e fala de complexos e de Freud. Manuel irrita-se.

  6. Mas no cimo já resolveram muitas conversas e Manuel já não quer mais ouvir falar da Páscoa. Logo mais terão de estar com os outros nas suas Páscoas e de bico bem calado hão-de comer algumas das amêndoas da hipocrisia católica.

    Vão calar-se uma hora, cada um deles metido nos seus próprios pensamentos. Na serra faz um frio dos diabos. Manuel e Ruivo estão de olhos muito abertos, fixos no vazio ou no céu. Embrulhados e muito encostados vão bebendo goles da garrafa de cachaça que levaram para combater o frio. Da serra e da alma – tinham dito quando partiram.

  7. Os primeiros alvores do Domingo de Páscoa apanharam a serra desperta como sempre. O Manuel e o Ruivo é que estavam a dormir encostados um ao outro. Não viram o nascer do sol e quando um raio de sol os acordou já a manhã ia alta e a ressaca ia baixa.
    Meio derrotados, levantaram-se e começaram a descer pela encosta e pela desculpa do nevoeiro maldito que lhes tinha encoberto aquela manhã que devia ser de pura glória.
  8. Cá em baixo, perseguiram a barba que tardava, vestiram roupas de domingo. Às duas horas lá estavam na mesa do costume e fizeram o espectáculo da subida e descida do seu gólgota. O Madeira dos concursos ouvia-os, curioso. Talvez o Madeira tenha adivinhado as insones discussões desesperadas que os dois tinham travado. E pagou-lhes o café.
  9. O Ruivo acabou o curso, passados dois anos. Tendo tudo preparado para o seu casamento com a mulher e a dúvida dos seus sonhos, o Ruivo tinha tudo preparado para morrer. Mas casou-se mesmo assim e morreu logo a seguir.

    O Manuel andou a fazer várias revoluções, a acreditar, a ser intolerante, a estudar, a ensinar, a envelhecer. Talvez que essas noites de pura euforia e de pura amizade o tenham sempre impedido de acreditar completamente no que quer que seja e por isso tenha sido expulso de todas as seitas.

    Da seita Manuel & Ruivo só a morte o expulsou, pensa o Manuel à distância.

    Está quase preparado para voltar a Sintra e ir despedir-se do Ruivo, passados 20 anos. Da adolescência. Da páscoa. Entre as campas, procurará sinais dos castelos dos mouros que assaltaram. Sentado, esperará o nascer do sol. Desta vez acordado. Já ninguém o reconheceria, mas ele vai esgueirar-se colado aos muros do cemitério católico em que o seu amigo esteve por momentos após a sua passagem momentânea pela terra dos homens. □

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Escrito pela páscoa de 1990 para o programa da Rádio Independente de Aveiro, nomeado “Círculo Virtuoso” pela voz de José António Moreira. Decidi república-lo agora por ter recebido a segunda mensagem do sempre vivo ruivo “Sabino” assinada por Paulo Moreira.