a vida entre muralhas

Uma mulher debruçou-se de uma muralha e, em vez de olhar o horizonte separando o céu da terra,  olhou uma pedrinha pequena que tinha deixado cair para esse olhar.

Uma galinha engoliu a pedra e com ela moeu o grão  mais duro.

E o homem, que a tudo assistia da porta da cozinha escura, chamou a galinha para dentro. Esta fugiu espavorida ao encontro da armadilha que o homem sempre arma no ponto depois do ponto de fuga.

Um dia devolve a pedra engastada num anel de ouro.  A mulher devolve um sorriso, que não chega para pagar a gentileza.

De modo nenhum – ouviu-se a voz do homem, pela primeira vez.

A voz da mulher elevou-se para dizer: Nem penses!  Afinal tu não fizeste mais do que devolver-me a esmeralda que eu deixei cair e tu (ou a tua galinha por ti) roubaste .

A voz do homem veio baixa:  Não chames galinha à minha mulher e não te esqueças do anel.

O anel é lindo, mas não é mais do que o embrulho de ouro da minha esmeralda – disse a voz da mulher enlevada de olhos postos na esmeralda.

A esmeralda acendeu os seus olhos e viu-se a gritar: Tirem-me daqui. A mulher deu um safanão no homem e começou a correr. Só parou ofegante encostada à muralha, as mãos para o abismo: o anel para o abismo.

Uma galinha debica pedras. Metodicamente  cumpre  o cerco das muralhas, enquanto os seus galos de combate fazem de homens dentro da arena sitiada.

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