Eu disse-te: “É inaceitável!”

by adealmeida

Eu disse-lhe: “É inaceitável!”
E ela logo respondeu:”Estás a ser parvo, como sempre!”
Quem cala consente e eu fiquei calado durante os dois dias que se seguiram a esta troca de palavras. Andei a pensar sobre tudo o que tinha acontecido e concluí que aquela troca de palavras tinha sido tudo menos justa. Aquele inaceitável não se referia a pessoa ou coisa alguma em particular e, por isso, era referido a tudo no geral. E ela nem sabia se as palavras que tinha articulado lhe eram dirigidas, ao passo que as suas eram claramente dirigidas a mim, já que ninguém mais testemunhou a nossa extraordinária conversa. Fiquei a debater-me sobre a possibilidade de vir a abrir a boca de novo, embora falar na sua presença nunca me tinha dado qualquer felicidade. Ela nunca tomava a iniciativa das conversas. Mas retorquia sempre e com muito mais palavras do que aquelas que eu lhe dava. Pelo sim, pelo não, recomecei a ler depois de ter mudado a mão que segurava o livro pela mão que lhe segurava a mão. Olhei então para ela como fazia sempre nessas ocasiões logo após as grandes mudanças. Pareceu-me ainda mais fria comigo do que antes das últimas palavras. Não, não vou falar com ela!

E saiu-me, sem eu querer, em voz alta: “Eu só quero morrer em paz!”
Passadas algumas horas, pensei, em voz baixa, nessa primeira vez em que não recebi a resposta do costume. Poisei o livro no colo. E procurei uma melhor posição no sofá.