excritor

by adealmeida

Ouço todas as notícias, ouço tudo. Quando leio, falo para mim – só eu me ouço. Quando leio em voz alta deixo de ler e começo logo a inventar e a acrescentar enredos ao texto. Eu gosto de falar em voz alta como se estivesse a ler. Já mais do que uma vez fiz isso: falar como se estivesse a ler.  Já mais do que uma vez tive um desgosto com isso. Mas também já me defendi bem dessa maneira: já disse muitos disparates e não apanhei com uma chuva de dissabores, porque as pessoas pensaram que eu não fazia mais do que ler em voz alta uma página de livro.

As pessoas perdoam-me as páginas dos livros, não me perdoam as opiniões. Quando me ponho a falar, fingindo que estou a ler, deixo perceber um certo tom teatral próprio de quem declama. E as pessoas desligam-me do texto – olham para mim como se fosse um actor, altifalante das palavras de outro. É confortável.

Um dia, subi a uma cadeira de uma esplanada, com os olhos vendados e de livro na mão, recitei um longuíssimo poema, aparentemente decorado. Não era poema nenhum, evidentemente. Eu estava a dizer, com o ar dramático dos cegos, uma ladainha longa em que cada frase era inspirada pela anterior.

Quando caiu a primeira moeda no meu chapéu ao fundo da cadeira, soube que o poema era bom.

Os meus melhores textos nunca foram escritos. Só foram lidos, … e de olhos vendados.

© arsélio martins.  pretextos: maio de 1993