homem.dia

by adealmeida

1.

Até hoje vivi mais das possibilidades do que das certezas, das esperanças mais do que das decisões. E agora decidir é irremediável e o tempo para mim se fez lugar da angústia mais do que  redenção, invejo Moisés que tendo vivido o tempo da promessa, morreu antes de chegar à terra prometida.

2.

Pus o despertador a despertar de hora em hora. De hora em hora vejo a febre. Mantém-se estável. Amanhã levanto-me.

De três em três horas telefono a um amigo diferente. Normalmente ninguém me atende. Às vezes deixo mensagem. Deixo a promessa de ligar de novo. Gosto muito de prometer.

3.

Falei de Moisés sem grande segurança e fui ver à Bíbilia. Agora, quando telefonar de novo, vou deixar no atender de chamadas uma passagem bíblica. Há aqui uma de que gosto por demais: “Ao descer da montanha, seguiam-no multidões numerosas, quando um leproso de repente se aproximou e se postou diante dele dizendo: ‘Senhor , se queres, tens poder para purificar-me.’ Ele estendeu a mão e, tocando-o, disse: ‘Eu quero, sê purificado.’ E imediatamente ficou curado.” E Jesus disse, “Eu quero”… Eu nunca ouvi nada com mais luz. Eu nem consigo imaginar, sem que em aumente a febre, esse homem a correr  por entre a multidão, esse homem a dizer se queres e Jesus a dizer eu  quero … Eu quero… Eu nunca disse nada que me pudesse matar assim de beleza e comoção…

4.

Também penso no que será correr por entre uma multidão.

Penso no querá descer de uma montanha. No que será prostrar-se diante de um homem. No que será dizer “purifica-me”.

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Nunca cumpras todas as tuas promessas. É um modo muito triste de morrer.

Daniel Faria. O apeadeiro 04/05. quasi:2004