aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Março, 2015

Ser velho

Ser velho é a guerra já ter acabado
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis

Joan Margarit. Casa da Misericórdia.ovni. entroncamento:2009

homem.dia

1.

Até hoje vivi mais das possibilidades do que das certezas, das esperanças mais do que das decisões. E agora decidir é irremediável e o tempo para mim se fez lugar da angústia mais do que  redenção, invejo Moisés que tendo vivido o tempo da promessa, morreu antes de chegar à terra prometida.

2.

Pus o despertador a despertar de hora em hora. De hora em hora vejo a febre. Mantém-se estável. Amanhã levanto-me.

De três em três horas telefono a um amigo diferente. Normalmente ninguém me atende. Às vezes deixo mensagem. Deixo a promessa de ligar de novo. Gosto muito de prometer.

3.

Falei de Moisés sem grande segurança e fui ver à Bíbilia. Agora, quando telefonar de novo, vou deixar no atender de chamadas uma passagem bíblica. Há aqui uma de que gosto por demais: “Ao descer da montanha, seguiam-no multidões numerosas, quando um leproso de repente se aproximou e se postou diante dele dizendo: ‘Senhor , se queres, tens poder para purificar-me.’ Ele estendeu a mão e, tocando-o, disse: ‘Eu quero, sê purificado.’ E imediatamente ficou curado.” E Jesus disse, “Eu quero”… Eu nunca ouvi nada com mais luz. Eu nem consigo imaginar, sem que em aumente a febre, esse homem a correr  por entre a multidão, esse homem a dizer se queres e Jesus a dizer eu  quero … Eu quero… Eu nunca disse nada que me pudesse matar assim de beleza e comoção…

4.

Também penso no que será correr por entre uma multidão.

Penso no querá descer de uma montanha. No que será prostrar-se diante de um homem. No que será dizer “purifica-me”.

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Nunca cumpras todas as tuas promessas. É um modo muito triste de morrer.

Daniel Faria. O apeadeiro 04/05. quasi:2004

o caçador de orquídeas

(…)

Peguei no Mein Kampf, um livrinho negro

que julguei profundo. E comecei

pelo lugar mais sujo da literatura.

As palavras de Hitler, tão vulgares,

mostravam um poço negro.

Não o esqueci apesar de não o lembrar.

Por sorte, choquei com a realidade.

Foi aí que começou a poesia,

nada fácil, sem fácil esperanças.

Eu sempre fiz como o javali,

que busca e, delicado, escolhe e come

o bulbo, chamado orquis, da orquídea.

 

Joan Margarit. Casa da Misericórdia. OVNI. Encontramento:2009

exemplos que ensinam

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(…)

Quando o grande matemático alemão David Hilbert, na virada século, estruturou em bases lógicas inatacáveis os fundamentos da geometria de Euclides, tudo leva a crer que boa parte de sua motivação foi de natureza metodológica, determinada pelo desejo de oferecer às gerações uma apresentação da Geometria que fosse livre de lacunas no encadeamento lógico das suas proposições  atingindo assim, efectivamente, o ideal de perfeição perseguido por Euclides. E, de facto, vários compêndios escolares chegaram a ser  organizados nos moldes da axiomática de Hilbert.

Cedo  porém se constatou que, a fim de colocar em bases lógicas correctas certas noçõess intuitivas como a ordem dos pontos numa recta, ou a sua continuidade, é necessário passar por uma sequercia de proposições de natureza técnica que pouco têm de geom.tricas, que contêm enunciados completamente óbvios do ponto de vista intuitivo, mas que necessitam de demonstraçõess, às vezes muito subtis, pois não estavam explicitamente admitidos entre os axiomas adoptados.

Desenvolver essa tarefa enfadonha até atingir um ponto onde são permi­tidos os raciocínios e as construções geométricas tradicionais da Geometria Euclidiana pode ser um trabalho logicamente necessário, mas é didactica­mente desastroso.

Hoje em dia prevalece o ponto de vista de que, para apresentar a Geome­tria sob a forma sintética (isto é, sem coordenadas) deve-se usar o método da  axiomatização local,  onde se admitem sem demonstração alguns factos bá­sicos, intuitivamente plausíveis, muitos dos quais poderiam perfeitamente ter o estatuto de teoremas. A partir deles desenvolvem-se temas geométri­cos (como áreas, volumes, semelhança, etc.) de forma consideravelmente rigorosa.

(…)

Elon Lima. Matemática e Ensino. Gradiva/SPM.Lisboa : 2004