aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Fevereiro, 2015

um tweet e a piada perfeita

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O criador do Twitter explicou que o comprimento máximo de de um tweet tinha sido fixado em 140 caracteres porque esse é o comprimento da piada perfeita.

No debate das presidenciais americanas de 22 de Outubro de 2012 quando Mitt Romney se pegou com Obama acusando-o de não fazer da Defesa nacional a sua prioridade, o presidente replicou:

(…)

You mentioned the Navy, for example, and that we have fewer ships than we did in 1916. Well, Governor, we also have fewer horses and bayonets

(…)

(com 141 caracteres)

Andrew  Watts, Spectator(24/1/2015),  

Extractos no Courrier international (fr), nº 1269.

(a piada em português: A propósito da Marinha, disse que temos menos navios agora do que em 1916. Pois é verdade, também temos menos cavalos e menos baionetas.

Fez-me lembrar itens dos precisos no reconhecimento cartográfico do exército que  incluía, em 1974(!), localização de cereais para alimentação das mulas, para além da água  vital não só para as mulas, da religião predominante….)

ciúme

dobra

Abandonadas por seus amantes, duas mulheres almoçam sandes, num banco do jardim público. A solidão era tão forte que pensam viver juntas. A que primeiro oferecera a sua casa ,  ao preparar-se para dormir, sentiu a outra tão atraente que desejou fazê-la adormecer no lado do leito que, habitualmente, ocupava, tomando para si o lado do homem que amava. E ao perceber que olhava para a sua amiga como ele a teria olhado, sofreu com os ciúmes.

Tonino Guerra.

é sabido que a velhice…?

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É sabido que a  velhice, muitas vezes esquecida da grande parte da vida já passada, recorda com limpidez cada vez maior a infância.E como também já se disse  que só pela infância se tem acesso ao reino dos céus, parece de toda a justiça despojarmos-nos de quaisquer outros bens só por essa posse. Uma posse que talvez só se realize com a morte.

O velho mais confuso reveste-se do segredo de um Áugure quando começa a contar coisas da sua infância. A vida abrandará o seu ritmo em volta dele,  rodei-lo-ão estranhos silêncios, e nem a criança mais traquina poderá resistir-lhe. Naquele momento ele parece dotado de poder augura. De facto, está a indicar à criança uma meta: já não o seu passado, mas o seu futuro, o futuro da sua memória de adulto.  Nem um nem o outro o sabem, senão pela qualidade numinosa das palavras que os envolve a ambos no mesmo fascínio. Tão simples são aquelas palavras.  E todavia ouve-se muitas vezes a criança interromper, querer saber mais, insistir quanto à forma daquela fogaça, ao tamanho daquele jardim, à cor do trajo da bisavó durante aquele tal passeio ou tal festa.E se não se levantarem perguntas semelhantes à criança, se ela não for dotada de atenção poética, não deixará de perguntar sempre ao velho, franzindo o sobrolho, quantos anos tinhas tu nessa altura. É o seu esforço de vencer o espaço, o pavor da viagem entre ela e aquela outra criança passada aguardando lá no fundo do seu futuro. Criança sem idade, ancião disfarçado, como os negros meninos dos ícones. Uns seis anos, sete anos, dirá o  velho, e quase num responso secreto acrescentará como tu , um a menos, um a mais que tu. Cabala cega e perfeita que mantém suspenso em volta de ambos, tal como em volta do adormecido de Proust, o fio das horas, a ordem dos dias e dos anos.

(…)

Crisitna Campo, Os imperdoáveis. Assírio Alvim