manuel antónio pina: carta a mário cesariny no dia da sua morte

by adealmeida

Hoje soube-se um coisa extraordinária,

que morreste; talvez já to tenham dito,

embora o caso verdadeiramente não

te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

 

Algo, de facto, deve ter acontecido,

porque nada acontece, a não ser o costume,

amor e estrume, quando ao resto

tudo prossegue de acordo com o Plano.

 

Há apenas agora um buraco aqui,

não sei onde, uma espécie de

falta de alguma coisa insolente e amável,

de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

 

Depois, de gato para baixo, mortos

(lembrei-me disso de repente,

agora que voltaste malevolamente a ti)

estamos todos. A gente vê-se um dia destes por A’i

26/11/2006

Manuell António Pina. Como se desenha uma casa. Assírio & Alvim. Lisboa:2011