Göran Palm disse em sueco:

(…)

66

Há rostos que permanecem de perfil mesmo quando a gente os observa de frente. É impossível verem-se os dois olhos ao mesmo tempo.

114

Porque é que as noites não têm nome? Porque metade da vida, exactamente metade da vida, é-nos desconhecida. A qualquer um de nós.

(…)

e eu  transcrevo  em português de Ana Hatherly o que por Göran  foi escrito em sueco

o raciocínio exige mediações que a intuição exclui

 

(…)

A demonstração, escreve Leibniz, é  “um raciocínio pelo qual uma proposição passa a certeza”. Mas o profano espanta-se sempre que seja preciso um raciocínio  para validar  proposições geométricas que à primeira vista lhes parecem “evidentes”. (Do mesmo modo, as crianças ficam sempre um tanto desconcertadas  nos seus primeiros cursos de geometria). Schopenhauer  comparava de forma burlesca  o matemático a um homem que corta as duas pernas  para poder andar  sobre canadianas. Porquê substituir por bengalas do raciocínio 0 impulso espontâneo e imediato da intuição?

(…)

A. Vergez ; D Huisman. Logique. Nathan. Paris:

labor

quando falamos do que fizemos,  estamos a falar do que fizemos bem?

quando falamos do que outros fizeram, estamos a falar do que fizeram mal?

ou quando falamos do que os outros fizeram, estamos a dizer o que eles fizeram mal e a dizer como teria sido se soubessem o que não podiam saber, esse saber que só a experiência desvendou?

quem faz, faz o que pode e nem sempre pode fazer o que deve. quem fala do que faz, fala do que deve?

o que deve ser é o quê, definido por quem, para quê, como, porque….?

 

————————————————-

na capa da Labor, IV série, número 3, Aveiro: 12/2000

1974-1999:25 anos de escola

Depoimentos de dirigentes das escolas de Aveiro – um jogo com espelhos

manuel antónio pina: carta a mário cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se um coisa extraordinária,

que morreste; talvez já to tenham dito,

embora o caso verdadeiramente não

te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

 

Algo, de facto, deve ter acontecido,

porque nada acontece, a não ser o costume,

amor e estrume, quando ao resto

tudo prossegue de acordo com o Plano.

 

Há apenas agora um buraco aqui,

não sei onde, uma espécie de

falta de alguma coisa insolente e amável,

de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

 

Depois, de gato para baixo, mortos

(lembrei-me disso de repente,

agora que voltaste malevolamente a ti)

estamos todos. A gente vê-se um dia destes por A’i

26/11/2006

Manuell António Pina. Como se desenha uma casa. Assírio & Alvim. Lisboa:2011

página 82 terceiro parágrafo

(…)

Teodoro virou-se de repente e viu Óscar atrás dele e talvez pela tristeza que sentia, por aquela ser uma das últimas viagens do comboio a carvão, quis colocar-lhe o braço por cima, o que repugnou Óscar, apanhado no meio daquela maquinação de rodas de ferro. Imaginava ainda os sapatos do avô nos carris, com as moedas de cinquenta centavos, que ficavam espalmadas pela compressão, “o meu avô ficou todo debaixo do comboio. Como é que esse comboio passou por cima do meu avô e o esmagou e continua a circular e a passar por aqui todos os dias? Esta máquina, com aquele mesmo maquinista. Foi ali à frente ao pé daquela árvore. Ninguém me deixou ver, mas eu sei, cortou-o em três partes, cabeça, tronco e membros, como no livro de Ciência”. Era nisto que Óscar pensava enquanto aparecia mais gente debruçada sobre o muro da (….)

 

citado de

Tiago Patrício. Trás-os-Montes. Gradiva (Romance). Lisboa:2012

Daily Prompt