carnaval de 1990

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círculo virtuoso: 1990

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o carnaval

Ao quadragésimo dia, Deus condoeu-se da chuva. Noé não podia esconder o seu estupor perante a novidade. As gotas caíam agora lentamente, cada uma com o seu pequeno para-quedas.

E este chuviscos pós-diluvianos tomaram o lugar das mantas de água. Ainda antes de parar de chover, já Noé tinha fechado o seu guarda-chuva. Foi até às celas da Arca e soltou todos os animais. Por fim soltou os filhos e a mulher. E começou o carnaval.

a coruja

Uma coruja voou contra a escuridão que cobria o espelho das águas.

De repente, alguém acendeu uma luz e a coruja estampou-se. O rato que trazia nas garras caiu então na banheira em que Luva de Cozinha  tomava o seu banho.

Ao ver o rato, Luva de Cozinha saiu a correr pela casa, nua como Deus a deitou ao mundo.

O que safou o rato foi o seu sangue frio de rato do cano de esgoto. Nadou até ao fundo, abriu o ralo da banheira e deixou-se levar na corrente.

A coruja ainda lá está encostada à parede, com os olhos brilhantes mas cegos, e cheiínha de sais de banho.

 

o bobo

D. João II virou-se para Marramaque e ameaçou:

– Vou mandar-te para morreres sozinho como um cão no Poio do Judeu.

Marramaque tornou-se mais corcunda, mais anão e mais feio e disse imitando o rei:

– Vou mandar-te para morreres sozinho como um cão no Poio do Judeu.

Desatando a correr, como se fosse a fugir do rei, Marramaque foi estatelar-se no colo da dama de honor do casamento que ali estava a preparar-se. Deu um beijo no seio da dama entretanto descoberto. E o rei acabou por lhe acertar com uma perna de porco nas trombas.

Meio combalido, Marramaque meteu a perna de porco no saco e fugiu para Loures. Durante três dias reinou sobre aquela vila como D. Marramaque, o Bobo.

Quando D. João II descobriu, já Marramaque tinha embarcado numa nau para o Poio do Judeu. Lá o foi buscar  D. João II, com um nó corredio ao pescoço. Quando  viu o rei, Marramaque não viu outra exigência a fazer senão aquela do mundo às avessas nos três dias de Loures. O rei não não podia aceitar, mas fê-lo par do reino e consultor civil da Causa Militar da Residência da Ré Pública. Marramaque passou a usar muita brilhantina, penteou as suas barbas e aos costumes disse cavaco.

 

a boba

Faz hoje anos que morreu o seu avô – galhofava D. Rosa, equilibrada na perna direita enquanto com a esquerda coçava a sua orelha direita.

D. Maria I hesitava em perdoar aquele desaforo à sua boba. Mas D. Rosa já se sentava no leão de pedra e abria a sua boca desdentada para dela saírem bolas de sabão.

A rainha ainda correu para tentar agarrar a boba, mas esta, dando mostras de uma agilidade espantosa, já estava pendurada de cabeça para baixo e com as duas dobras das cortinas simulava o martírio do Duque de Aveiro. D. Maria I acabou por desatar a rir-se. O cronista não soube descortinar a razão de tanta gargalhada real: as maluqueiras de D. Rosa e suas raquíticas pernas ao léu, ou as traquinices do seu avô brincando com o sol de pombal e oeiras?

D. Rosa parecia que ia cair de cabeça. Mas deu uma cambalhota e caiu com a boca mesmo ao pé da orelha de D. Maria I, tendo começado a cochichar logo logo. O cronista suspendeu a pena e a tremura nervosa apoderou-se dos seus lábios. Ele era o primeiro a não se esquecer do que tinha escrito às ordens do desterrado de Pombal.

arlequim

Quando os estudantes cercaram o Arlequim, a mando da praxe, só pensavam pregar-lhe um susto e tirar-lhe aquela máscara negra que ele sempre usava.

Mas acabaram por exagerar, principalmente para vencer o terrível medo que se tinha apossado  de Arlequim e lhe dava forças sobre-humanas.  Quando Arlequim caiu finalmente, violentamente agredido, só o Rui Sérgio ficou a apoiá-lo. Da fenda aberta na porcelana da máscara negra de Arlequim, escapava-se um fio de sangue. Rui Sérgio ainda tentou tirar a máscara de Arlequim. Não era propriamente uma máscara, verificou então. Era um rosto.

Enquanto chorava, com o coração destroçado, Rui Sérgio construiu a sua máscara negra e aprendia  todo o dialecto bergamasco. Quando abriu os olhos para a luz do sol, virou as costas às aulas e passou para dentro de la Commedia dell Arte.

columbina

Columbina traz a sua máscara negra e nela pregado o seu olhar de serviçal. Esconde-se atrás do anúncio, enquanto os dois rapazolas passam cuspindo pastilhas elásticas que ficam coladas no céu.

Columbina não sabe de que tem medo. Mas algumas notícias de que há quem persiga os que usam máscaras negras provocam-lhe calafrios quando se tem de deslocar pela mundo dos personagens. Já pensou em tirar uma das máscaras brancas de um outro personagem da Comedia, mas duas máscaras é demais.

Columbina chega finalmente à falésia altíssima. Atira-se para fora desta Commedia della Vita. Abre as asas e fica a pairar. Quando finalmente are os olhos para o público, percebe que já é uma personagem Commedia dell Arte e fica tranquila.

trabalho de arlequim

Arlequim vestiu o seu fato de losangos de várias cores. Saltou do anúncio em que  o querem prender e disse trinta e cinco palavrões no seu dialecto bergamasco. Afivelou a sua bela máscara negra antes de sair para a rua e para o seu novo emprego.

Arlequim já foi expulso de cinco empregos que tinha ganho por méritos próprios, porque não aceita tirar a sua máscara enquanto os outros também não tirarem as deles.

Hoje como é dia de carnaval, Arlequim não será despedido no seu primeiro dia de trabalho.

auto

Os professores não vão em Carnavais.

A professora levantou o dedo e apontou a porta da rua. O menino, mascarado de diabo, saiu da sala, balbuciando desculpas. A professora marcou a falta com tinta vermelha e registou qualquer coisa na caderneta,

Só depois disse: Meninos, hoje vamos representar o auto da barca do inferno!

surdo de jesus

Surdo de Jesus tinha nascido num dia aziago.

Seu pai, Margarida de Campos Lodosos, tivera uma zanga com sua mãe., Márcio Sax Alto e Borgonha, momentos antes de esta ter dado à luz.  A violenta discussão tinha origem na oportunidade do nascimento do mais tarde baptizado Surdo de Jesus. De facto, Margarida dos Campos Lodosos entendia,  e não deixou de o dizer a Márcio, sua mulher,  que se deveria adiar o nascimento  até daí a seis meses, mais pelo calor. Márcio contrapôs que não era bom ter um filho  de quinze meses, além de que já andava cansada de transportar e, ele ou ela, andava batendo à porta da pele cada vez mais insistentemente, avisando que ansiava pela luz. Não podia ser. Ela, Márcio, já tinha decidido dar à luz. E seja o que Deus quiser! – rematou Márcio.

Margarida gritou-lhe que, se o bébé fosse dado à luz durante aquele dia, não era ele que se consideraria pais, até porque se lembrava muito bem de ter regressado, fazia agora dois anos, da Arménia onde tinha estado a fazer escavações durante seis dias. Márcio não se conteve sem lhe dizer: Antes assim, que ser filho de uma múmia!

Margarida tinha saído de casa, batendo com a porta. Estrondosamente! – disseram os vizinhos. Passados minutos, Márcio dera à luz uma linda menina. Tinha-lhe posto o nome d e Surdo, por ser muito parecida com o pai e porque tinha dado provas de não ter ouvido a violenta discussão que precedera o seu nascimento.  O pediatra tinha garantido que Surdo não guardara qualquer traumatismo das dramáticas circunstâncias do seu nascimento e, à parte  aquele ar apalermado,  era uma criança saudável e apta a fazer qualquer guerra da Crimeia que entretanto alguém decidisse desencadear, para dar  sentido às crianças  nascidas na época. Dessa primeira consulta a respeito da saúde de Surdo, datam os primeiros arrufos entre a mãe de Surdo e o pediatra espeleólogo. Nunca se confirmou o caso de Márcio, mãe extremosa de Surdo,  com o pediatra Arturia Espnhosa de Jesus. Mas as más línguas atribuem o apelido de  Jesus de Surdo ao facto , nunca provado, de haver uma antiga ligação entre Márcio e o pediatra.

Até ao s seis anos, Surdo de Jesus cresceu rodeada de todos os carinhos maternos  mas sem ter conhecido pai. Margarida de Campos Lodosos escavava agora uns campos de arroz na Tailândia, procurando vestígios da passagem dos americanos pela guerra do Vietname. Essa intervenção americana refira em diversos filmes de épocas remotas, mas suspeitava-se que tal não passaria de ficção. Quando Margarida voltou a casa, num interregno do seu trabalho de arque´logo, já Surdo andava de capacete. Só devido a a esse facto e porque Surdo chegava e partia velozmente na sua motorizaada é que Margarida nunca pôde verificar   as tremendas parecenças que tinha com a filha enjeitada.

Surdo não grande grande importância àquele velho que estava em sua casa. Não sabemos se foi por causa do capacete que  não ouviu as explicaçõess patéticas da mãe, ou se era verdade aquilo que toda  a gene sabia: que Surdo era surda.

Márcio teceu duas mantas para o acampamento de Margarida, enquanto este bebia chá e mascava sem parar alguns chicletes que tinha desenterrado na escavação da Tailândia onde afinal sempre encontrara vestígios de desertores americanos e russos. Um dia Margarida dos Campos Lodosos voltou a partir, agora para o Afeganistão,  onde esperava encontrar vestígios de russos e com certeza também de americanos.

Quando Surdo viu a fotografia de Margarida, tirada na cerimónia de entrega dos troféus da primeira eliminatória de arqueólogos, percebeu que aquele  devia ser o seu pai. Surdo, surda a todos os apelos de Márcio, sa mãe,  pegou na pá e na picareta e foi desenterrar o seu pai e o seu passado.  Encontrou-o a comer mariscos na cratera de uma bomba atómica  aberta a trinta quilômetros do atol Máláviáda, entre duas indígenas jovens, as irmãs Momo.