Carnaval (1990)

Faz hoje anos que morreu o seu avô – galhofava D. Rosa, equilibrada na perna direita enquanto com a esquerda coçava a sua orelha direita.

D. Maria I hesitava em perdoar aquele desaforo à sua boba. Mas D. Rosa já se sentava no leão de pedra e abria a sua boca desdentada para dela saírem bolas de sabão.

A rainha ainda correu para tentar agarrar a boba, mas esta, dando mostras de uma agilidade espantosa, já estava pendurada de cabeça para baixo e com as duas dobras das cortinas simulava o martírio do Duque de Aveiro. D. Maria I acabou por desatar a rir-se. O cronista não soube descortinar a razão de tanta gargalhada real: as maluqueiras de D. Rosa e suas raquíticas pernas ao léu, ou as traquinices do seu avô brincando com o sol de pombal e oeiras?

D. Rosa parecia que ia cair de cabeça. Mas deu uma cambalhota e caiu com a boca mesmo ao pé da orelha de D. Maria I, tendo começado a cochichar logo logo. O cronista suspendeu a pena e a tremura nervosa apoderou-se dos seus lábios. Ele era o primeiro a não se esquecer do que tinha escrito às ordens do desterrado de Pombal.

círculo virtuoso: 1990
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