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Em 2015, que hei-de eu fazer?  Talvez copiar o que já escrevi na década de 90 do século passado ou escrever novas páginas?

Vou começar pelo século passado, no tempo em que escrevia não para ser lido, mas para ser ouvido pela voz de José António Moreira.  O que eu escrevia, ele corrigia para o poder ler e dar-lhe o sentido necessário a quem eventualmente ouvisse ou viesse a ouvir. O que aqui se apresenta, agora  para ser lido, é o que eu escrevia, sem as correções e anotações dele, é a escrita e não a leitura que dela se fez. Em 1990, já depois de outras aventuras radiofónicos como “o dedo no ar”  e antes dos “pretextos”, eu escrevia uma média de 35 páginas “a5” por semana,  para o programa “círculo virtuoso”  na Rádio Independente de Aveiro. Escrevia o que queria sem mandamento nem lei alguma e o José António afinava a coisa para a leitura dele, escolhia o som, a música, era o técnico e o artista. E eu era o escriva ou o escribista para ser qualquer coisa mais perto de artista. Estes textos deste  princípio de ano, partem dessa liberdade tremenda, não é a obra em que participei, é a escrita sem música para uma nova leitura sem intermediário. Muito mais triste e cinzenta  esta obra. Quando o André Moreira me falou n’ O círculo virtuoso, confessei-lhe que não lembrava o detalhe forma e conteúdo. Só posso agradecer-lhe ter-me mostrado e chamado a atenção para mim mesmo. Muito Obrigado, André.

Dedicada ao José António Moreira, claro! Em 2014 saiu da nossa  casa comum, terra alugada, morada provisória,.

Perguntei-lhe: – Vamos?  e ele, batendo as asas, respondeu: – Vamos! E subiu.

E eu, deixado aqui cabisbaixo, percebi finalmente o que me tinha acontecido: ele tornara-me (pelo menos para mim) um bendito escritor que não escreveu para ser lido, mas para ser ouvido.