1990: vaticínio e intriga

Vaticínio Kaspa tinha decidido escolher uma segunda pátria. A sua pátria já não lhe chegava. Ou melhor, Vatic já não cabia na sua pátria.

Procurava uma pátria, desesperadamente. Vatic  Kaspa chcgou mesmo  a procurar nas páginas amarelas anúncios de pátrias com futuro. Um dia, em conversa  com  a sua amiga Intriga  Stalladone,  ouviu-a falar de uma pátria com passado e para a qual se previa um  grande  futuro. A sua amiga Intriga asseverava que havia muitas hipóteses de fazer dessa pátria com passado uma pátria com futuro.  E  chegou a dizer a Vactic que tal pátria só estava  à  espera da sua chegada para arrancar para o futuro.

Vatic  procurou esclarecer o significado das palavras pátria  e  futuro.  Com  Intriga leu alguns trechos de física teórica e leu cinco dicionários, mas não fez mais do que aprofundar as suas dúvidas. Discutia período a período com a sua amiga e via que as palavras  ganhavam um  novo sentido, quando  as  ouvia  da  boca da sua amiga. Em Vulgar, aldeia  em  que se  tinham  isolado, aqueles que tiveram a felicidade de com eles conviverem viram que Vatic bebia  as  palavras da boca de Intriga. Não era usual beber palavras, naquela aldeia.

Foi sem ter descortinado uma pátria que Vatic se separou de Intriga, depois de cinco anos e violentas discussões sobre as palavras. Vatic só não ficou surdo, porque bebia mais as palavras do que as ouvia. Dessa discussão nasceu a Luz, o Vatic Júnior e ainda o Curso de Filologia, que os dois abandonaram  à  caridade da aldeia adoptiva.

Vaticínio continuou a sua busca de pátria. Vatic, que se tinha mostrado incapaz de criar os seus próprios filhos, queria adoptar uma pátria. Foi, por isso, que tentou apagar todos os vestígios da sua passagem por Vulgar.

Até que um dia, num bar perto do aeroporto de Lisboa, Vatic ouviu por acaso falar Agostinho da Silva. Agostinho da Silva falava da manha do nascimento de Portugal e do extraordinário passado de Portugal. Ouviu falar dos descobrimentos, daquela explicação estranha de Portugal ter trazido o mundo até perto dos olhares da Europa. E ouviu o vaticínio nebuloso de que  as  crianças portuguesas  hão-de  instaurar um futuro feliz, uma idade do ouro ou do espírito santo.  Vatic  ficou estupefacto. Nunca lhe tinha passado pela cabeça adoptar esta pátria, mas naquele dia decidiu que não partiria no próximo avião. Com os olhos vazios, esperou no bar oito  dias  até que Agostinho da Silva voltasse a falar. Os empregados  do  bar já se tinham habituado ao cheiro daquele bife que dormitava durante  a  madrugada  e  a manhã e  à  tarde e noite não despegava os olhos do pequeno écran enquanto despejava cerveja  atrás  de cerveja. Na semana seguinte, Vatic ouviu Agostinho  da  Silva falar de que tinha sido professor do presidente da república  e,  de novo, do portugal messiânico. Ficou ainda mais curioso  acerca  desta  possibilidade  de pátria  a  adoptar.

Decidiu-se  definitivamente  quando ouviu dizer que Mário Soares, o Presidente da República, teria dito que Portugal era o modelo de transição para a  democracia,  que o 25 de Abril tinha inspirado o mundo inteiro e que as actuais  modificações no  mundo  ern  busca de democracia política  poderiam  ter sido apontadas  pelo  dedo de Portugal.

Não havia dúvidas que tinha encontrado urna  pátria, se  não  com futuro,  pelo  menos a  indicar o futuro ao mundo.

Vatic  levantou-se do bar. Foi até ao aeroporto, levantou as malas e foi entregar­-se  à  polícia. Pediu asilo político. E declarou que queria ser português.

Intriga soube por acaso que Vaticínio já tinha iniciado um processo de adopção de uma pátria e soube que tudo estava bem encaminhado, até porque a pátria portuguesa,  também  ela, gostava do Vaticínio.

Soube  também  que a pátria adoptada já tinha manifestado vontade de ter um verdadeiro lar e influenciava Vaticínio a voltar ajuntar-se a Intriga. Por ela tudo bem. Sempre tinha querido ter uma filha como a pátria portuguesa.