1990: tempo de páscoas


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1

Para a criança que fui, a Páscoa era a festa da ressurreição de Cristo. Realizava-se uma vez por ano. Mal eu sabia o que a Páscoa tinha sido, mal eu sabia as disputas que a Páscoa tinha sido.

Sabia do verdadeiro massacre que tinha sido a primeira Páscoa e aceitava-o corno legítima obra de Deus. Talvez por isso, compreendesse e aceitasse uns massacres enquanto condenava outros massacres. Prepararam-me para aceitar os massacres feitos pelos cristãos. Preparei-me para aceitar os massacres que eram ditados pela defesa das minhas boas ideias. Desculpei tantas Páscoas, antigas e modernas, cruzadas, conquistas e goulags . Condenei outras tantas.

E hoje não me consigo desculpar. Não tenho desculpa nenhuma. A minha humanidade tem índios, judeus, negros, mouros, cristãos, ateus.

E tem novas cruzadas. Tem sempre homens vestidos de lobos do homem. Se eu tivesse vergonha, já me tinha mudado. Mas não posso recusar-me a ser o que sou: um entre outros.

2

Judas

“No primeiro dia dos ázimos, quando se sacrificava a Páscoa, os discípulos perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para a Páscoa?» Enviou, então, dois dos seus discípu­los e disse-lhes: «Ide  à  cidade e lá encontrareis um homem com uma bilha de água. Segui-o e onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O mestre manda dizer: Onde está a sala em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ Mostrar-vos-á uma grande sala no andar de cima, mobilada e já pronta. Fazei lá os preparativos.

Os discípulos partiram e foram  à  cidade; encontraram tudo como ele lhes tinha dito e prepararam a páscoa”.

Judas chegou tarde. Não deixou de comer de acordo com o rito antigo. Mas preparava já um novo rito. De vez em quando, apalpava a sua colecção de trinta moedas.

3

“Vais para a sombra das oliveiras. Lá encontras o espírito. Ordenas um sentido ao vento, falando a voz dos espíritos das areias do deserto. Às águas do rio ordenas que deixem de correr.”

A pomba branca desliza da tua mão para a beira d’ água.

O soldado que dispara  é  cego. Não vê que o sangue da pomba tingiu todo o rio e todo o mar. Mas tu vês. Tu vês. Tu vês. Tu não podes deixar de ver, mas não sabes a qual Deus pedir contas.

4.

espamtalho

O homem  tinha dois braços. Uma boca e dois olhos. Duas orelhas nos sítios certos. Mas havia alguma coisa de estranho no brilho fixo dos seus olhos. Era de facto um estranho.

Durante alguns dias, manteve-se encostado ao cabanal.  Sempre quieto e calado, de tal modo que a pardalada pousava nele.

No dia em que o homem abriu a boca para dizer que gostava daquela terra e que queria ficar, porque a amava mais do que ninguém, e para o mostrar começou a morder o pó, os homens da terra penduraram-no na árvore da igreja e queimaram-no como costumam fazer a Judas todos os sábados de páscoa.

Para me consolar, a minha mãe começou por me dizer que era um fantoche, um espanta pardais. Depois, já muito irritada com os meus prantos, gritou-me que havia muitos iguais nos campos. E que alguém linha de dar um Judas prá fogueira.

Guardei os dois vidros dos olhos de Judas Cabanal.

4.

 

À frente vem o miúdo com a campainha a avisar. Logo atrás, o cortejo. Entram na sala. O homem dá a beijar a cruz. O padre asperge com água benta a casa. E diz umas palavras, apressado. Um outro homem recolhe do pratinho o dinheiro que lá está para ser levado. Os miúdos atiram-se às amêndoas de açúcar, enquanto os mais velhos bebem uns golinhos de vinho doce. E saem a correr, como se fossem perseguidos. O miúdo põe as amêndoas num saco e recomeça a dar à campainha.

As pessoas que estavam na sala, saem apressadamente para o quintal e dirigem-se apressadamente para a sala do vizinho, enchendo a sala. Quando o cortejo lá chega já está a sala cheia de gente para beijar a cruz e ouvir a ladainha apressada do padre.

E vai mais um copo.

5

“Nessa mesma noite, comer-se-a a carne assada ao fogo com pães sem fermento e ervas amargas. Não comereis dela nada que esteja cru ou cozido em água, mas somente assada ao fogo; comê-lo-eis com a cabeça, as patas e as entranhas. Não deixareis nada para o dia seguinte, e se ficar algum resto, queimá-lo-eis. Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão. Comê-lo-eis apressadamente, pois é a Páscoa do Senhor.

Passarei nesta noite através do Egipto, e ferirei de morte todos os primogénitos nascidos no Egipto, desde os homens até aos animais, e exercerei a Minha Justiça contra todos os deuses do Egipto, Eu, o Senhor.”

O livro sagrado do ocidente enche-se de noites de maldição como esta da Páscoa de Deus. Herodes Antipas faz-se de Deus dos Hebreus quando o imita na tragédia. E divide o seu povo e o mundo, pela oportunidade de uma profecia. E ainda hoje, de cada lado do mundo, se levantam os punhais escondidos nos mantos e esfaqueiam sem piedade os outros, os eternos outros.

6.

O  Senhor disse a Moisés e a Aarão: «Esta é a Lei referente à Páscoa: estrangeiro algum poderá comê-la. Depois de circun­cidado, todo o escravo adquirido a dinheiro, comê-Ia-á: mas o estrangeiro e o mercenário, não poderão comê-la.»

Estrangeiro que sou, pedi a Woody Allen que me deixasse comer a sua Páscoa e ele repetiu a velha lei. Tendo-me recusado à cir­cuncisão,  fiquei olhando pela sua janela de Greenwich Village, enquanto ele comandava a Mia Farrow e a prole nos ritos da Páscoa. Um escravo, comprado a dinheiro para ser anotador no último filme do Woody, compartilhava a Páscoa.

Um mercenário também compartilhava a Páscoa, mantendo em respeito toda a família do Woody com a sua metralhadora ligeira.

7.

Paixão

Ele cantava litanias. Não sabia o que era isso de litania, mas cantava.

Desafinava a avenida e esta atraída pelo ar gingão do cantor ia atrás dele, quase como se estivesse hipnotizada.

Quando o cantor de litanias caiu como qualquer bêbedo perdido à porta da estação é que a avenida viu que se enrolara como um tapete atrás dos passos do cantor.

Não conseguiu auto-criticar-se de tanta falta de senso. Dificilmente se desenrolou. Uma boa parte das árvores ficou mesmo perdida e a avenida ainda não sabia se tinha ouvido bem: litanias ou ladainhas?

O que ela sabia de cor era a cor daqueles olhos do cigano cantor:

8.

Dia santo

A próxima sexta feira é santa. E calha a 13. Os ramos das árvores, os fios eléctricos e os fios telefónicos não chegam para as aves negras que  já  compraram bilhete para assistir ao espectáculo do meu azarado dia santo.

A delegação dos gatos pretos e dos espelhos prontos para partir já se encontra na cidade, ocupando um hotel inteirinho.

Um escadote fatídico já tem o pintor e o balde de tinta. E eu que sei disso tudo, vou sair de casa pelas ruas do costume.

Costumo assobiar para afastar o azar. O destino que não  é  surdo segue-me e é ele que leva o azar cego pela mão.