1990: são tomé

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1

O meu amigo cubano deu-me o braçado de havanos e a garrafa de rum. Não me disse grande coisa. Não me abraçou.

Mas eu passeei-me por toda a cidade capital a fumar aqueles havanos, como quem passeia o abraço de um irmão. As ideias discutem-se. Mas um abraço, não.

 

2

A nêga ia passando pela minha barraca sem nem reparar. Ondulante. O movimento do seu corpo ou seu corpo ficava a pairar, desenhado no ar, depois de ela passar.

Gritei: Vai um tirinho?

Ela olhou-me. Trespassado pelos olhos negros, vi-a avançar para mim, pegar na espingarda e apontar bem para onde tenho o coração.

Não sei se disparou. Sei que  guardo a bala, dentro do peito, como uma língua de fogo.

3

Uma bicicleta chinesa era o que mais queria.

Jorge Vacas prometeu ir pensar no assunto. Um comerciante nunca diz que não vende. Em S. Tomé pode não haver nada, mas um comerciante português pode sempre vender alguma coisa.

Mandou esperar um momento, enquanto atendia a mulher do camarada presidente que não queria outra coisa senão uns cigarros de contrabando , esguios e muito americanos.

E lá arranjou uma bicicleta chinesa por duas mil dobras, como também arranjos rádio, dois relógios, uma máquina fotográfica e o diabo que carregue o Jorge Vacas.

Devo confessar que nunca gostei tanto de andar de bicicleta pasteleira como em S. Tomé. E que nunca gostei tanto de ser enganado como pelo Jorge Vacas, português, comerciante de loja vazia que não tinha mãos a medir. Nunca vi vender tanto a quem tão pouco tinha para vender. Pelo menos à vista.

4

Os caranguejos adivinharam as chuvadas intensas. Em bandos saem do mar e ficam a aguardar em filas compactas ali na borda da areia. A chuva tamborila  nos dorsos daquele chão falso de caranguejos.

Quando para de chover eles cheiram a humidade que ocupou as ruas todas e então começam a deslocar-se ao longo das ruas. Quando a luz os assalta eles encostam-se às casas e continuam a caminhada  pelos fios de sombra e humidade. Não têm qualquer dificuldade nessa caminhada. Porque andam de lado. Em cada porta fica um. Na sombra. Ficam tensos , talvez por terem ido longe demais e pressentirem que já não há humidade que chegue para o regresso.

Quando aro a porta para sair, o caranguejo ataca. Bato em retirada por momentos.  Depois, com o eito cheio de ar e uma vassoura, vou empurrar mansamente o caranguejo. Só então reparo que o chão está juncado de caranguejos pisados pelos inquilinos. E, romano entre romanos ou membro de uma multidão assassina, com uma pancada seca da vassoura esmago o atacante.

Outras vezes são as palavras que tomam as ruas. Incapaz de as esmagar, mando os canhões  apontar para a boca

 

5

Não se pode perder o que se não tem. Com estas e outras frases, mais ou menos batidas pelas ondas, Eustáquio virava as conversas como quem vira mesas, no meio de uma discussão salutar tipo “acaba em pancadaria”.

Naquele dia, Eustáquio exagerou. Não só disse uma das frases definitivas, como virou as costas àquele que dizia que ele o estava a fazer perder o seu preciso tempo.

Virar as costas é feio – disse-lhe a mulher quando ele chegou no seu passo elástico para o desafio diário de ténis e para a sua torradinha barrada com uma margarina que faz bem ao coração.

Estava Eustáquio sentado no banco do jardim. E contava mentalmente o número de verdes que ia discriminando, a olho nú, na folhagem dos arbustos. A seu lado, a esposa de Eustáquio, que não é chamada para a discussão, tinha os olhos, como brilhantes, perdidos nos movimentos de uma criança que se mantinha, ia para quinze minutos, prestes a cair no lago verde azeitona.

Estava pois Eustáquio  em sossego, colhendo do mês de Maio os doces frutos, quando se ouviu o trovão da discussão atravessando o céu de um extremo ao outro da linha do horizonte. Eustáquio viu que os verdes se tinham tornado mais sombrios. E, antes de acabar uma frase iniciada sobre os verdes sombrios, uma tempestade de palavras desabou.

Não era uma chuvada qualquer. As palavras caíam grossas do azul cinzento dos céus. Eustáquio acrescentou maquinalmente: E há quanto tempo a não via e que saudades, deus meu!

A esposa de Eustáquio sentiu as palavras a cair-lhe na cabeça com extrema violência. Em poucos segundos ficou encharcada de palavras. Olhou para o marido e começara ambos a correr para  o primeiro abrigo.

Bem encostados à parede da casa de chá, Eustáquio e esposa abraçados ficaram a observar a cortina de palavras caindo dos beirais. Viam-nas. Não as ouviam.

A tempestade durou uns minutos. Quando a chuva de palavras amainou, Eustáquio e esposa saíram do seu abrigo e voltaram ao seu antigo banco.

Eustáquio voltou a procurar os verdes, agora mais brilhantes. A esposa olhou para a borda do lago verde azeitona. E lá estava a criança. A tempestade parecia não ter afectado. Olhava interessada os círculos concêntricos em volta das palavras que, empurradas pelo vento da ira, caíam no lago.

Eustáquio ainda disse, como se murmurasse: – Eu não lhe podia ter roubado o tempo. Toda esta discussão foi um disparate.  A esposa disse: – Não devias ter-lhe virado as costas. A discussão não deixa de ser enquanto a sua nuvem não se desfaz.

E calaram-se.

Ao longe ainda ribombam algumas palavras. Não se compreende o sentido do que troveja. E a voz da criança começou a dominar o espaço, só quebrado pelo ralho do cisne de pedra.

círculo virtuoso: 1990