1990: sábado, evidência, verdade

1

1. Sábado

Sábado acordou com os pés frios. Tiritando, Sábado meteu os pés debaixo do  cobertor. Mas já era tarde. Começou a espirrar com violência e desistiu de adormecer de novo.

Acendeu a luz do candecirinho partido que tem na mesa de cabeceira e pôs-se a ler o livro da noite.

No exterior, a escuridão tinha tomado o lugar de todos os objectos, das ruas, das casas, das pessoas. Os olhos perdem a utilidade nesse exterior.

Por isso, Sábado descalça as luvas e antes de dar qualquer passo no absimo que a escuridão é, para além de tactear o caminho com as pontas das botas, verifica com as mãos nuas, atiradas para diante, que a escuridão não é sólida.

Na escuridão, Sábado nunca recua. Se quer tomar outro sentido, vira-se lentamente, apalpando cada fatia de círculo rodado. Quando vagueia na escuridão, Sábado perde a noção do tempo e do espaço e não identifica os objectos que o rodeiam, tão habituados a ele. Os objectos não se esquecem de Sábado e são eles que se escondem nesses momentos em que cheiram a escuridão de Sábado.

Na noite, calma e sem núvens, não há lua, nem estrelas se vêem, e, no entanto, destacam-se formas de mulheres nas varandas. Vêem-se os olhos brilhantes, coruscantes como estrelas. De vez em quando, como se obedecessem a uma ordem, os olhos das varandas fecham-se e a escuridão é então total.

Elas são as mulheres que esperam a vinda de Sábado. Sábado há-de chegar no seu jeito de cego, com os braços esticados para diante e os olhos vazados pela ignorância que a escuridão cria. E Sábado não deixará de chegar como habitualmente.

Quando Sábado chega, mudo e cego, e toma o seu lugar de estátua no meio da praça, as mulheres voltam para dentro das varandas e acordam os maridos e os amantes.

Os médicos não têm solução para o Sábado. O diagnóstico foi feito, mas todas as tentativas de cura falharam completamente. Nem a hipnose deu qualquer resultado. Sábado sempre punha os pés fora do cobertor e acordava tiritando. Qualquer livro de cabeceira era livro da noite e quando o livro caía, dos dedos abertos de sono, Sábado levantava-se sonâmbulo para enfrentar a sua escuridão de pesadelo. Os médicos experimentaram mesmo iluminar com holofotes a avenida do abismo e elas não acordaram o Sábado.

Só a morte poderá salvar o Sábado. Sábado sai para a avenida da noite e com seus gestos cautelosos toma o eixo da avenida deserta. Pára. Durante uma hora, será a estátua de Sábado.

Uma equipa de professores insones, contratados pela Câmara Municipal, ocupa as margens do rio que corre ao longo da avenida do abismo de Sábado. Foram contratados para ensinar Sábado. Escrevem no quadro preto que a noite é um sumário para Sábado. Dois deles, os mais possantes, agarram Sábado pela cabeça e pelos pés. Arrastam-no, abrem uma brecha na fila de professores e, tomando balanço, atiram o Sábado bem para o meio do rio.

Os professores estudaram o problema de Sábado e sabem que, em contacto com a água fria e mal-cheirosa do rio, ele vai acordar e, respondendo aos seus gritos de comando, Sábado começará a esbracejar e desesperadamente procurará a margem oposta ao seu pesadelo. Provarão que os médicos não podem ensinar caminhos de saída. Professores modernos sabem que nadar não se ensina, aprende-se.

Não vêem nada. Mas acreditam que se Sábado não acordar é porque tomou o caminho do fundo para sair do abismo. Ainda hoje defendem que o Sábado prefere ser afogado a acordado.

2. Evidência e Verdade

A Evidência encontrou-se com a Verdade numa tarde de Sábado. Sábado sempre tinha guardado as tardes para a Evidência e as manhãs para a Verdade.

Sábado acreditava na Tradição. E a Tradição garantia que a Evidência surge tarde, enquanto a Verdade pode nascer com o sol, mas esconde-se à medida que a luz ilumina a Evidência.

Quando a Verdade encontrou a Evidência na casa de Sábado, ficou verdadeiramente indignada e procurou saber de quem se tratava e insistiu especialmente em saber qual a sua relação com a nova inquilina.

Ninguém estava preparado para responder à Verdade. E a Evidência, que é surda e muda e cega, parece que olha para a Verdade quando esta a questiona, mas não lhe responde. Porque a Evidência é vidência, visão, ela mostra-se  simplesmente.

A Verdade – confessa o Sábado – que não sabia das deficiências físicas da Evidência, teve razões para se irritar durante a altercação.

O problema maior foi esclarecer as ligações que existem entre Evidência e Verdade. Porque a Evidência não  é  um facto, um corpo em si, mas Verdade do facto, Verdade do próprio corpo que Evidência mostra.

Verdade tinha razão. Sábado estava agora a convencê-Ia que, por intermédio de Evidência, as pessoas se aproximavam da Verdade e que esta só tinha que aceitar Evidência e estar-lhe grata por existir, apesar das deficiências físicas que apresentava. Sábado explicava pacientemente a Verdade que não valia a pena preocupar-se com Evidência, até porque esta, ao contrário da Verdade, só existe  no  seu presente e no passado presente.

Verdade ficou ainda mais irritada, por ter descoberto que afinal Evidência é uma espécie de borboleta efémera e que, havendo Evidência sempre, a Evidência de hoje, habitando a tarde do coração de Sábado, não  é  a mesma de ontem e não  é  a do próximo Sábado. Verdade sabe que ainda  é  muito mais difícil competir com Evidência, se esta se apresenta variada e nova aos olhos de cada Sábado.

Sábado, para tentar acalmar a Verdade, acabou por lhe dizer que, enquanto a Evidência morre em cada Sábado, para renascer para cada Sábado, o mesmo não se passava com Verdade. E para reforçar o seu argumento, Sábado disse-lhe mesmo que a Verdade era velha, até eterna que seria a mesma todos os Sábados. Aquilo que ele disse, como uma mentira piedosa, acabou por transtornar Verdade, definitivamente.

Aos gritos, Verdade desceu as escadas de Sábado.jurando que não mais voltaria. Sábado, desesperado, entrelaçou os dedos da manhã nos dedos da tarde e ficou-se prostrado de dor. Já pensava cm pedir a Evidência que saísse para o deixar só.

Mas Evidência, que se guia por impulsos e deixando ele receber sinais de Sábado, corria atrás da Verdade, como sua sombra.

Sem Verdade, nem Evidência, Sábado ficou mergulhado na sua parte de noite. Levantou-se lentamente e  foi procurar, como um cego, outras luzes, outras mulheres.

Embrutecido pelo álcool, pelo barulho da discoteca e pelas luzes artificiais, Sábado imaginou outras manhãs e outras tardes que lhe pareceram artificiais, mas compensadoras.

Sábado caíu de borco num beco. Domingo só teve de o apanhar do chão e lançá-lo no contentor de lixo.