1990 professores

1

Manuel Caldeira de Sousa

Manuel Caldeira de Sousa caminha sem pressas. Na manhã. À mesa do Palácio, troca algumas palavras corteses com o Senhor Amadeu. Abre a sua pasta pequena. Meticulosamente, coloca sobre mesa algumas folhas de papel e escolhe a caneta.

Com cuidado, sem pressas, Manuel Caldeira de Sousa escreve. Cumprimento-o. Falamos de algumas pontas soltas. Logo mais nos encontraremos  na escola e ataremos as pontas. Com a sua letra bem desenhada e respeitando uma organização experimentada, Manuel enche uma página. Dessas linhas bem escritas respira-se alguma emoção estética, mas principalmente retira-se uma satisfação íntima de coisa legível, ordenada e pronta para si e para os outros.

Manuel Caldeira de Sousa, professor de Matemática, escreve assim Matemática. E escreve assim tudo. Livros de termos, horários, recados, despachos. Para nós, os outros, percebermos tudo sem grande esforço.

Não nos aflige com pressas, mas também não nos aflige com coisas ainda por fazer. Não se adia. Quando é preciso trabalhar muitas horas, trabalha muitas horas metodicamente. E nós, os outros, sabemos que ali está a companhia discreta de todos os dias, realizando todos sos dias os trabalhos da nossa rotina. Sem cair na nossa tentação de os deixar para amanhã. E ajudando-nos quando a nossa tentação foi grande.

Manuel Caldeira de Sousa compreende-nos. Desculpa-nos. Ele e a Maria Teresa chegarão no momento mais oportuno para nos resolver o problema mais complicado.

Ela desperdiçará uma energia imensa, uma ânsia de ajudar os outros, uma inteligência viva, uma compreensão rápida dos diversos pontos de vista. Ela saberá resolver o puzzle, da adequação das directivas à realidade de cada um dos colegas.

Ele permanecerá no fundo de alguma sala, elaborando minuciosamente um quadro, passando a limpo um horário. Sem pressas para que o objecto das nossas pressas esteja pronto a tempo.

Ela ouvirá as reclamações, procurará  entender com toda a paciência, construirá as pontes impossíveis. Ela ouve as recriminações, as insinuações, as tolices e fará o seu trabalho apesar disso.

E ele estará lá. Sempre esteve lá, mais ao fundo da sala. Escolhendo uma caneta para isto, outra para aquilo, com as suas borrachas, os seus clips, as suas lâminas, os bocadinhos de papel colante. Para que fique bem escrito e pronto a ser lido, como um jornal mural laboriosamente construído.

Ele sempre esteve lá, para nos ouvir as urgências e as impaciência. Ele sempre esteve lá para nos fazer a lista dos precisos e nos devolver algumas palavras tranquilizantes. Mas não entorpecentes. E quando isso nos foi preciso, para nos contar instantâneos da sua vida, os exemplo  como contra-exemplos.

O Eduardo Júlio Bizarro contou-me que as aulas de Matemática de Manuel Caldeira de Sousa assim fluíam: escrita meticulosa e metódica, com economia científica e sem grandes deambulações. Discurso rigoroso e despido  de toda a retórica. Matemática simplesmente vivida, transmitida, discutida e exercitada em limites precisos. Matemática ensinada.  Assim sem mais. O Eduardo Júlio, professor de Matemática, não se preocupa em esconder o seu modelo. Assim sem mais. Só temperado pelas coisa do seu tempo e algumas preocupações que não despreza, mas menospreza.

O António Aurélo, professor de Matemática disse que nunca conseguiu tratar por tu o Caldeira.  Carinhosamente chamamos-lhe o Caldeira.  Os Caldeiras. Mas nunca usámos outras formas de tratamento senão  professor Caldeira ou doutor Caldeira A primeira vez que dizia  “o Caldeira” ou o “Aurélio” percebi que tinha deixado de ser o que vem de fora. Primeiro dei por mim a pensar que envelhecera. Depois percebi que só tinha passado para o interior de um círculo virtuoso. Afinal os protagonistas dessa história são protagonistas desta história. Se o José António Moreira quisesse entrar bastaria dar-lhe dois dedos de fala para dizer: ” Uma caneta Rötring não pode ser usada assim. Se fosse 0.1 era um desperdício. Também não saberiam escrever com ela”. E deixar entrever  Manuel Caldeira de Sousa  escrevendo com a errada posição de caneta deitada, sem a mais leve hesitação. Mesmo eu, o que escreve, vivo dentro da história das deambulações pela vida de Manuel Caldeira de Sousa.

Manuel Caldeira de Sousa levanta-se da mesa, depois de ter arrumado muito cuidadosamente os seus papeis e as suas canetas.  Eu ainda fico uns momentosa conversar com a manhã.

 

Na última quinta feira de Janeiro, Manuel Caldeira de Sousa levantou-se. Doseou os analgésicos de modo a poder ir dar as aulas. Viveu a última sexta feira e viveu o último sábado de Janeiro. No domingo, talvez por não ter aulas, Manuel Caldeira de Sousa pôde descansar e  esquecer-se que tinha alunos sua espera. E morreu.

Dei por mim a sentir-me dorido e triste, como se tivesse arrancado um pedaço de mim, um pedaço guardado. E a segunda feira foi chuvosa e fria.  Um vendaval esticou uma corda na minha alma, por onde se passearam sonâmbulas guinadas de dor.

A terça feira amanheceu fria mas brilhante e sem chuva. Acompanhei  Manuel Caldeira de Sousa num último passeio pelas ruas de Beja. Foi-me recordando algumas pontas soltas de antigas conversas. Deu-me contra exemplos contra a dor.

Ri-me de alguns tiques virtuosos que o Matos Santos ou o Nelson  ou a Aurora pensam que não têm. Percebi que afinal  Manuel Caldeira de Sousa vai estar onde sempre esteve. Ali, ao alcance da mão. Ele está onde sempre esteve.

Eu herdei uma cumplicidade a respeito de canetas, da preocupação com a escrita. E uma pontada de espírito de serviço que se amaldiçoa, mas vive conosco tão  naturalmente como se a nossa lama fosse casa sua. Aí está o Manuel Caldeira de Sousa limpando  a caneta antes de a colocar com cuidado no estojo, tomando o lado de fora do passeio, como se fosse preciso proteger-me e dar-me a mão para atravessar a rua.

Ouço um roçar de asas num canto do coração. E aberto-me de uma conversa calma sobre um problema que tem a forma de nuvem. Manuel Caldeira de Sousa conta como foi que resolveu há muitos anos um problema que tinha a forma de nuvem. Ele está onde sempre esteve.

 

Paro. E parto as minhas unhas a querer pendurar-me na janela da eternidade. Depois, bato com o guarda chuva na pedra solta da alma e recomeço a caminhar.

 

2

Feliciano de Castilho

Feliciano de Castilho tacteou à procura do jornal. Sem abrir os olhos, Feliciano de Castilho pôde adivinhar o grande título de  sexta feira: Governo aprova estatuto da carreira de educadores e professores do básico e do secundário.

Imaginou o título a vermelho. E não imaginou mal.

Embrulhou-se no roupão e levantou os olhos até à altura do lugar do espelho. Deu uma arrumada à sua comprida barba e com os dedos das suas mãos nodosas revolveu a cabeleira. Às apalpadelas encontrou e vestiu as calças, a camisa, o colete e a casaca. Maquinalmente ajeitou o laço.

Passou água pelas mãos e pela cara. Maquinalmente limpou-se ao lenço das mãos. Com a bengala na mão, Feliciano de Castilho saiu pela porta da frente. O miúdo escanzelado, que o observa todos os dias àquela hora e lhe costuma passar a rasteira a que Feliciano já se habituou, grita: Professor é cego.

Enquanto se dirige para escola, Feliciano de Castilho sorri e cumprimenta à esquerda e à direita. Os vizinhos já se habituaram e não ligam. Feliciano não vê ninguém  enquanto caminha, mas tem um tique cumprimentador e as pessoas que por ele passam murmuram  “Bons dias senhor Professor. Hoje vai muito contente!”

De facto! – pensa Feliciano de Castilho. E revê o título do jornal que o seu colega de quarto, São Bernardo, lhe levou logo de manhã, como de costume. Apetece-lhe dizer: “Vocês não sabem! Vocês não sabem! Vocês nem imaginam o que este estatuto vai modificar.”

Ao entrar na sala de aula, ainda a pensar no assunto, Feliciano de Castillho não se lembrou da cova de lama que ali se formou com as primeiras chuvas, tropeçou e caiu. Os rapazes riram-se.  Feliciano de Castilho procura limpar-se o melhor que pode. Agora o jornal está cheio de lama. Agora o jornal está cheio de lama. Feliciano de Castilho imagina o título a vermelho, agora com raiva. Os rapazes  ficaram lá fora, enquanto Feliciano de  Castilho verifica, com amargura, que o pequeno nadador continua a variado.  Chama o São Bernardo, seu companheiro de quarto, e abraça-o.

Quando entra o delegado e lhe comunica que se vai suspender o funcionalmente da sua escola, Feliciano de Castilho não reage. O delegado pergunta-lhe que diabo é que lhe aconteceu para estar assim todo molhado e sujo. Feliciano de Castilho não responde. Chama o São Bernardo, seu companheiro de quarto e seu melhor aluno, mete o jornal de lama debaixo do braço, pega na bengala e sai. Volta a tropeçar na poça de lama. Os rapazes riem-se enquanto ele tenta salvar o resto do jornal. “Com Camões”, dizem os rapazes.

Nem pensa na Dulce. Felizmente que o médico insistiu com ela para que ficasse a convalescer em casa dos pais. Duce Castilho acordou de manhã cedinho. Também leu a notícia da aprovação do seu estatuto de carreira.  Já não apanha a sua boleia para Fenícia. Está calada. Pode ser que alguma coisa melhore – pensa com os seus botões – e mantém-se em casa, como manda o médico.

Que estará o Feliciano a fazer agora? Gostava de poder falar com ele, mas só no fim de semana.

Terão mudado o aquecimento do jardim de Fenícia? E vem-lhe. de novo  à memória, aquelas horas em que queimou a cara e as mãos para evitar que as crianças se queimassem. Com a cara queimada, pôs as crianças fora da sala e mandou-as para casa, antes de pedir ajuda à colega da primária.

O estatuto terá mudado o sistema de aquecimento da sala do jardim? – pergunta Dulce de Castilho, enquanto as lágrimas lhe queimam a sua nova pele.

3

Zeca Trusta

. Quem quer fazer alguma coisa, descobre um meio. Quem não quer, inventa uma desculpa! – disse. E continuou: – Até agora os colegas diziam qe o sistema não merecia qualquer esforço.  Éramos mal pagos, não havia condições de trabalho, nem sequer tínhamos um estatuto de carreira. Agora que temos um estatuto, devemos começar a agir no sentido de provar que os professores são capazes de realizar um trabalho que projecte uma imagem realmente digna do nosso magistério. Só desse modo, poderemos fazer jus ao estatuto que obtivemos após tantas lutas.  Não é o estatuto ideal, pois não, mas foi o que conseguimos de melhor.  Temos de nos organizar para alterar a actual situação das escolas. É preciso criar um movimento potente que contrarie a ideia que tudo ficou resolvido com a publicação do estatuto e lance a exigência de novas escolas. Apesar de tudo, há condições para abrir novas perspectivas para a educação em Portugal.

Assim falava Zeca Trusta, entre os dois toques de campaínha e com um rissol na mão.

 

4

Aureliano Virguloso

Aureliano Virguloso pousou a chávena. Isaménia Túlia  já tinha lido a notícia duas vezes. Entredentes, comentou qualquer coisa como: – É aos sindicatos que se devem as coisas boas do estatuto. Ricardo Soares, do outro lado da mesa, procurava chamar a atenção para um poema que acabar de sublinhar. Como ninguém lhe ligou, Ricardo Soares virou a folha do livro, enquanto levava a chávena do Aureliano  à boca.  Sebastião da Gama abriu os olhos sonhadores e disse: – O estatuto é um papel pintado. Não vai ser um estatuto que melhorará a nossa profissão. Os professores vão continuar a trabalhar com as suas mesmas cabeças e olhando para os alunos com os seus mesmos olhos. O que seria preciso mudar? A nossa visão.  Frederico Zuído afagou maquinalmente a mão de Ismênia Túlia e disse: – Que interessa o estatuto se vamos continuar a dar aulas naquelas salas estragadas e vamos continuar sem ter tempo para conversar com os alunos. Mal acabo as aulas, começo a minha maratona Albergaria- Porto. Isso não vai mudar. Aureliano Virguloso verificou que a chávena estava vazia e grunhiu irritado. Ricardo Soares fechou o livro e concluiu:  – Acabou a hora de atender os pais.

 

5

Afrânio Pinto

Uma manhã , Afrânio Pinto encontrou-se com o sue periquito. Travaram um diálogo bem interessante. Disse o Afrânio: – Não te tenho visto. Andaste fugido. E o periquito respondeu: – Não é que não goste de si, meu caro benfeitor, mas até os periquitos precisam de experimentar alguma liberdade e autonomia. Afrânio calou-se por momentos. Quando voltou a falar, foi para perguntar: – Queres voltar para a gaiola? Ao que o periquito, de asas caídas, respondeu: – Pim. Pim.  Afrânio explicava-lhe pacientemente que não se diz PIM, quando sentiu a queda de mais um PIM na cabeça.

 

6

Alves  dos Campos

Franqueava-se um grande portão de ferro e, antes de entrar no grande edifício, percorria-se uma estrada rodeada por bancos vermelhos, plantados nas margens de um grande jardim, mais ou menos selvagem em que cresciam palmeiras ao lado de grandes macieiras e outras árvores de grande porte. Do meio da selva, destacavam-se duas esculturas  de ferro. Uma delas estava corroída pela chuva. Adivinhava-se que devia ter sido uma mão  rasgando a terra e que nessa luta teria perdido quatro dos cinco dedos de tubo metálico.

De ambos os lados do edifício, dentro dos muros, adivinhavam-se  grandes superfícies pavimentadas, de onde voava uma vozearia juvenil.

Ao edifício tinha-se acesso por um outro grande portão de ferro. Desembocava-se então num grande átrio de pé muito alto. Em grandes placardes podiam ler-se instruções e informações de actividades.

Amaral Dias Nunes parou no átrio. Hesitou, por momentos, antes de se dirigir a uma funcionária alta e magra, muito morena, que parecia estar ali plantada  para controlar as entradas. Tossiu. A funcionária virou os seus olhos negros e brilhantes para o intruso e ficou à espera. Amaral Dias Nunes tossiu de novo, como se fosse para aclarar a voz. De facto, Amaral Dias Nunes tossia para ganhar tempo. Mas a funcionária olhava-o persistente  e Amaral não pôde deixar de se apressar e perguntar, em voz menos segura do que tinha ensaiado, onde é que poderia obter algumas informações. A funcionária olhou-o de cima para baixo e disparou: – Quais informações? Amaral Dias Nunes não soube imediatamente o que responder.  Não sabia muito bem o que perguntar e ficou-se a sorrir e com os olhos piscos. A funcionária  deixou de esperar pela resposta à sua pergunta , pegou numa vassoura, que ele não tinha visto,  e começou a varrer um átrio que lhe parecia muito limpo.

Amaral ficou por instantes a olhar para os gestos enérgicos da funcionária que parecia ter-se esquecido da sua existência. Quando lhe pareceu que aquela funcionária fardada já não se lembrava dele, Amaral caminhou para o corredor, lentamente, sempre à espera de ouvir a irada voz da funcionária a perguntar-lhe para onde é que ia. Mas não aconteceu nada e ele progrediu no corredor à direita. Virou na segunda porta à direita, que estava aberta, e espreitou.

Lá dentro, num gabinete pequeno para tanta gente, várias pessoas falava ruidosamente, como se ralhassem umas com as outras. Amaral ficou um pouco intimidado, até que descobriu, ao fundo, sentada  e debruçando-se sobre  uma montanha de papéis, a sua velha amiga, Alves dos Campos. Era o que tinha pensado. Ali estava ela ouvindo os outros sem ouvir, meio perdida por detrás daquela mesa enorme, escondida por um monte de papeis..

Durante uns momentos, esteve por ali a espreitar a sua amiga. Teve tempo para ver os vincos nos olhos pequeno e o cabelo branco. E teve tempo de ver a distância que o separava da sua juventude.  Por fim, tossiu. Alguns olhos voltaram-se para ale, mas só por momentos enquanto não retomavam a animação da conversa, cortada por algumas gargalhadas. Finalmente  viu os olhos de Alves dos Campos a fixa-lo por trás dos papeis e ouviu a sua voz: – Entre, entre! Diga lá qual é o seu problema.  Amaral Dias Nunes entrou hesitante e avançou por entre as conversas. Quando chegou perto do fundo da mesa, murmurou para a figura pequenita de Alves dos Campos, mergulhada de novo na montanha de papeis: – Olá , Alves dos Campos!  Alves dos Campos ouviu o murmúrio e estremeceu: – Não pode ser! Só uma pessoa podia lembrar-se de lhe chamar Alves dos Campos e essa  estava perdida na sua adolescência. Olhou de esguelha para o recém-chegado. Não o reconheceu imediatamente naquele bigode branco, nos óculos redondos, na calva luzidia. Disse: – Como disse?  E levantou-se, ficando defronte do intruso. Intruso?

De repente, estavam defronte um do outro, de mãos dadas. E começaram uma conversa lenta sobre tantos anos sem se verem e como é que ele a tinha descoberto ali. Dali sairam para o corredor e para o rio.

A funcionária fardada viu passar os dois, disse  boa tarde, setôra e voltou para dentro da sua posição de vigilância aparentemente agressiva. Só mais tarde reparou nos dois, ali sentados a conversar no banco, de mãos dadas. Deve ser um irmão da setôra – pensou, pois toda a ente sabe que a setôra não é casada. Passados uns tempos foi comentar com a telefonista  e ficaram as duas a espreitar a cena, pela janela do PBX.  Houve momentos em que lhes parecia que a setôra encostava a cabeça no ombro daquele velhote e, também lhes pareceu, que ela chorava. Não sabiam o que haviam de fazer.Nem sabiam se havia alguma coisa a fazer.

Na hora de assinar o correio, viram passar uma funcionária da secretaria que foi trocar umas palavras com a setôra. Esta levantou-se e entrou na escola.

Amaral Dias Nunes manteve-se sentado no banco vermelho. Puxou de um cigarro e ficou a olhar as nuvens de fumo, pensativo.

Alves dos Campos assinou várias vezes o seu nome A. de Campos e quando acabou, disse: – Vou sair. Não sei se volto hoje. Não deve ser preciso nada. Volto amanhã. E saiu, depois de pegar na pasta. Passou pela telefonista e disse: – Até amanhã!

Amaral Dias Nunes  já se tinha levantado. A mão de Alves dos Campos acariciou-lhe  acara e, lado a lado, saíram para a rua. Mil olhos nas mil janelas viram partir Alves dos Campos com o desconhecido. Nunca a tinham visto sair tão cedo.

No dia seguinte, viram entrar a setôra, serena como sempre. Os estudantes repararam que a voz da setôra estava mais vibrante, mas fora isso, não notaram nada de especial e não tiveram coragem de brincar, como faziam sempre. E bem lhes apetecia  perguntar sobre o que tinham ouvido dizer do namoro da setôra.

As colegas repararam que havia qualquer coisa de novo, mas não tocaram no assunto.

A funcionária do expediente reparou que a setôra assinava agora Margarida Campos. Pela primeira vez, assina como mulher – pensou e sorriu. A setôra reparou no sorriso e sorriu, ao seu modo tímido.

Amaral Dias Nunes não voltou nesse dia, quando todos o esperavam. Nem nos dias seguintes.

Uma das colegas de Margarida Campos não pôde deixar de insinuar uma pergunta e esta respondeu enigmaticamente: – O Amaral e eu fizemos uma viagem aos nossos 19 anos.  A colega insistiu: – E então?  Margarida sorriu e disse. – Fizemos a viagem de ida e volta, minha querida. – E na volta?Ele ficou na mesma estação de sempre. Eu voltei para a escola – concluiu Margarida.

Com os dedos, Margarida ajeitou o cabelo e sentou-se.

A reunião com a Associação de Estudantes ia começar daí a pouco e Margarida de Campos ainda tinha muito que fazer.

 

círculo virtuoso: 1990

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