1990: o caso do homem

As árvores vergavam-se ao Vento. O Vento tudo vergava, porque não haveria o vento de vergar as árvores que lhe tolhiam os passos.

Nos prados, as ervas ondulavam como ondula um mar verde fustigado pelo Vento. A chuva que se cheirava, começou a cair em grossas gotas, apesar do vento, como se o vento não fosse capaz de as dispersar. Depois, grossas bátegas começaram a fustigar os passeios e um ribeiro de lama formou-se na esquinada rua. Aumentou rapidamente de caudal e arrastou os ramos quebrados das árvores pela encosta até ao prado, onde se perdia. Ao fim da pequena encosta, antes das ervas ondulantes do prado, viam-se as pedras, os paus, os ramos afogados, garrafas com mensagens para esse destino de lama.

As árvores vergam-se ao vento que não deixou de soprar. As árvores vergam-se à chuva que, empurrada pelo vento, come os corpos das árvores. As mais fortes mantêm-se de pé. Pelas faces das árvores antigas escorrem as águas da chuva e as lágrimas de seiva que golfam das feridas abertas nos troncos. Limpam-se com os seus grandes ramos ondulantes, como se tivessem vergonha de serem vistas a chorar.

A mulher, vestida de preto, ou pelo menos coberta com um grande xaile preto, caminha tropeçando pelo prado. Vista de longe não é mais do que um ponto preto em movimento, ondulando como a erva alta ondula ao vento. A mulher não é mais do que uma erva preta castigada pelo vento e pela chuva. E é porque não é mais que uma erva preta entre as outra ervas que ela se mantém de pé.

A mulher de preto tem uma face como as árvores e um corpo esguio como as ervas.

Mas ondula e avança. Nada a prende ao solo e é só isso que a distingue das  ervas altas e esguias.

Quando chega a meio do prado, pára e tira uma foice de dentro do xaile.
Por momentos, no meio da tempestade, a folha lavada da foice mostra o seu brilho de aço como um relâmpago. A mulher baixa-se e, com movimentos fortes, corta as ervas que ficam a repousar numa pequena clareira aberta no meio do prado.

Durante uns minutos, a mulher de preto mantém-se acocorada e repete os mesmos gestos de degolar as ervas e amontoar os seus corpos ainda com vida na clareira aberta. Depois, faz uma corda com algumas das ervas e, mantendo bem presas debaixo dos joelhos as ervas degoladas, ata-as num feixe de erva e água. Põe uma rodilha na cabeça, com um movimento bem calculado, levanta o feixe no ar e pousa-o na cabeça. Vê-se que arruma a foicinha na dobra da cintura, antes de iniciar o caminho de regresso, pelo meio do prado e contra a fúria do vento, da chuva e das ervas ondulantes. Pela cara, escoam-se as suas próprias lágrimas, a água da chuva, a água do feixe e o sangue das ervas degoladas.

A mulher de preto sobe a encosta pelo carreiro transformado em cascata de água e lama. De vez em quando, uma das suas mãos é uma garra que segura um renque de ervas a que se agarra na subida. Parece, nesses momentos, que a mulher progride como uma cobra. O xaile de escamas pretas brilha a espaços.

Quando chega a casa, a mulher de preto dirige-se aos currais e aos gritos de “chega para lá castanha!”, “quieta torina! ” descarrega e desfaz o feixe de erva na manjedoura. .
Só então se dirige à cozinha da casa que é a casa. Lá passa-se tudo ou quase tudo. A mulher acende com gestos calculados uma fogueira.

Quando algumas chamas se levantam para serem vistas, a mulher começa a despir-se. Tira o xaile e sacode-o com violência até que grande parte da água que o ensopa vá ensopar o chão. Depois tira as botas de borracha, a blusa e a saia e fica a enxugar-se e aquecer-se bem perto da lareira. Há uma certa volúpia nesses momentos de descanso em frente da fogueira.

A mulher agora de branco revê a sua viagem ao prado. Ela sabe ou acha que sabe que a mulher é o único animal doméstico criado em cativeiro, que é capaz de enfrentar a tempestade para procurar alimento. E tem saudade do tempo em que os seus bois e as suas vacas eram animais em liberdade e procuravam pachorrentamente o seu alimento, sem ficarem espavoridos com a tempestade. Ela não conhece esse tempo, mas sabe que ele existiu em algum lugar do tempo.

Uma galinha espreita à porta da cozinha. A mulher sente-se vigiada pelos olhos saltitantes da ave e pegando numa farpela seca veste-se apressadamente. A mulher de preto levanta-se, pega num cesto com couves, acrescentado de um punhado de milho que tira do saco e vai despejar tudo no galinheiro.

O homem chega da taberna com os olhos turvos e pergunta pelo jantar.

A mulher de preto resmunga qualquer coisa enquanto se afadiga a descascar batatas para a bacia. A mulher de preto pensa que o homem é o único animal doméstico que quando cai a tempestade corre a recolher-se na taberna, solta palavrões contra o S. Pedro e joga as cartas, não para ler o seu destino, mas para fugir dele.

O homem pousa a cabeça na toalha de quadrados e começa a sonhar com o jantar.