1990: javardo

Até ontem, o meu nome era para mim um mistério. Não tem sido fácil apresentar-me corno Javali Fogo Negativo. Até porque nem os mais chegados aceitam facilmente chamar-me de Javali. Um amigo meu chegou mesmo a mentir quando lhe perguntaram qual era o meu verdadeiro nome. Ele chama­-me Ali, desde que nos conhecemos. Quando lhe perguntaram o meu nome completo, fingiu primeiro que nunca o tinha sabido, para finalmente responder que devia chamar-me Alípio.

Desde ontem que sei porquê. Comprei uma pequena brochura sobre o horóscopo chinês e verifiquei que, de acordo com a minha data de nascimento, eu sou do signo javali, um dos doze animais que responderam  à  chamada de Buda, imediatamente antes de este entrar no Nirvana. E descobri que, se o meu pai não é chinês, deve ter andado por perto de algum negócio da China. Pode até ser que o seu negócio da China tenha consistido em abandonar-me a mim e a outras 14 pessoas que declaram ser seus descendentes. A maior parte deles tem nomes de animais, um chama-se Paulo, outro  Crisóstomo  e o mais novo chama-se Joaquinze. Penso que percebi as suas razões e não lhe levo a mal pelo nome que me pôs. Pior está um  irmão meu que se chama Cabra. Ou uma irmã que se chama Macaco.

Ao ler mais coisas sobre javalis, como eu, fiquei a saber que são gentis, leais, escrupulosos, indulgentes, conscienciosos, cultos, sensuais, decididos, pacíficos, ternos, profundos e sensíveis. Fiquei muito contente por fazer parte de um círculo virtuoso de adjectivos. E não acreditei numa das palavras que a seguir pretendiam caracterizar-me: ingénuo, vulnerável, inseguro, sarcástico, epicurista, fraco, entediante, crédulo, vulgar e fácil de enganar. O livrinho esclarecia que o javali pode ser definido como uma pessoa boa, que a sua tendência para o equilíbrio faz com que suporte pacientemente até agressões fortes. Concordei. O texto continuava esclarecedor: o javali  costuma  ser um bom amigo e tem uma sensibilidade cavalheiresca; que sob uma aparência frágil o javali  é  incrivelmente resistente em todos os sentidos e que é capaz de defender os seus próprios interesses com inteligência. No livro também se podia ler que ao javali não faltam interesses intelectuais, embora os seus conhecimentos nunca sejam mais do que superficiais e que ele prefere as conferências e as manifestações culturais mundanas  à  leitura solitária e ao estudo. Enfim.

Mas onde me senti mais identificado e lisongeado foi na parte do sexo. De tal modo me senti identificado que, por timidez, não transcrevo nada a este respeito.

Urna parte que me impressionou vivamente foi aquela que se refere  à  minha ligação com uma boi. Lê-se:  «A  seriedade e a sobriedade da mulher boi costumam assustar o javali, guloso e sensual, a ponto de até sair correndo. Além disso, ela não suporta as suas formas de diversão que considera grosseiras.

Como sou um javali de fogo, vale a pena transcrever o bocado de prosa que segue esse título: «Corre sério risco de ser tragado por um ritmo alucinante de trabalho, reduzido a uma máquina de fazer dinheiro em favor da família e dos amigos. Pode mostrar-se prepotente e obstinado, mas em geral arrepende-se dos seus erros.»

Li de uma ponta  à  outra tudo o que se refere ao Javali. E fiquei a conhecer­-me. Já não tenho tantos problemas com o nome e muito menos estranho estar casado com um boi.

Satisfeito, espetei o livro numa das presas, empinei-me sobre as duas patas traseiras e gritei. Depois desatei a correr como um doido javali fugindo da serpente, cujo erotismo refinado e cerebral não combina bem com a minha sensualidade primitiva. Boi, que pastava calmamente perto do charco, ao ver­-me naquela excitação e antevendo que iria chafurdar na sua água, não deixou de me chamar o costume: Javardo!

O caçador disparou. Já moribundo, assiti à glória do caçador de javalis letrados.  E quando fechei os olhos, deixei de ver.

Buda que me tinha inspirado para ler, anda agora ocupado em ensinar-me a escrever à maneira dos javalis cegos.

 

círculo virtuoso, radio independente de aveiro,

para a voz de José António Moreira